Empresa ganha ação judicial após se negar a guiar cliente até o cume do Everest

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Após um ano e meio de disputas legais, chegou ao fim uma ação judicial movida por um cliente contra o guia do Everest por ele ter se negado a leva-lo até ao cume. O processo aconteceu nos EUA e a corte americana entendeu que a punição do guia abriria um precedente muito perigoso na prática do montanhismo comercial.

A escalada deveria ter acontecido em setembro de 2019, temporada de outono no hemisfério norte. O norte-americano Zac Bookman contratou o guia da empresa Madison Mountaineering, Garrett Madison, para lhe auxiliar a chegar ao cume da montanha mais alta do mundo. No entanto, nessa temporada poucos montanhistas ousaram cruzar a Cascata do Khumbu devido a um Serac (uma grande massa de gelo) pendurado, que ameaçava a cair a qualquer instante.

Fila de escaladores em busca do cume do Everest.

Para segurança da equipe, Madison cancelou a expedição e seus clientes não passaram do acampamento base. Ao retornar para a casa, Bookman entrou com um processo por quebra de contrato e fraude contra o guia, no qual pedia uma indenização de 100 mil dólares. No entanto, o guia recorreu alegando que seu cliente estava ciente que não havia garantia de chegar ao cume e que inclusive essa era uma clausula presente no contrato assinado por ambas as partes.

A justiça americana de ganho de causa a Madison e ainda afirmou no acordo assinado pelos dois: “o medo de ações judiciais e as repercussões financeiras de ações judiciais podem levar a lesões, doenças e fatalidades para os clientes , guias, Sherpa e outros profissionais da montanha”. Ou seja, para não serem processados as empresas e guias se arriscariam mais.

O Serac

A grande massa de gelo que fez com que Madison e todos os outros montanhistas presentes no acampamento base desistissem da escalada foi estimado no tamanho de um prédio de 15 andares. Ninguém fez cume no outono de 2019.

Bookman não aceitou nenhuma proposta do guia, que seria escalar o Ama Dablam na mesma temporada ou retonar ao Everest na temporada de primavera, quando há mais chances de cume. Ao invés disso, ele permaneceu no Acampamento Base monitorando a montanha na esperança de que o Serac caísse e liberasse o caminho para a escalada.  Entretanto isso só aconteceu entre outubro de 2019 e novembro de 2020.

Madison afirma que ficou aliviado com a decisão judicial não só por evitar a sua falência com o gasto de 100 mil dólares, mas também por pensar nos trabalhadores de montanha que seriam forçados a seguir regras impostas pelo desejo de seus clientes. “Uma coisa é o sherpa assumir conscientemente esses riscos como profissionais pagos das montanhas, outra bem diferente é o sistema jurídico americano criar pressões doentias que tornam seus empregos ainda mais perigosos”, declarou os advogados de Madison.

Outros processos

Processos de montanhistas insatisfeitos com seus guias não são incomuns. O próprio Madison possui outro processo movido por um cliente que não conseguiu escalar o K2. Isso aconteceu no verão de 2019 e ele afirma que Madison cobrou dele taxas adicionais desnecessárias e cancelou a expedição prematuramente. Todavia, até agora, não há registros de ganho de causa para os clientes insatisfeitos.

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Sobre o autor

Maruza Silvério é jornalista formada na PUCPR de Curitiba. Apaixonada pela natureza, principalmente pela fauna e pelas montanhas. Montanhista e escaladora desde 2013, fez do morro do Anhangava seu principal local de constantes treinos e contato intenso com a natureza. Acumula experiências como o curso básico de escalada e curso de auto resgate e técnicas verticais, além de estar em constante aperfeiçoamento. Gosta principalmente de escaladas tradicionais e grandes paredes. Mantém o montanhismo e a escalada como processo terapêutico para a vida e sonha em continuar escalando pelo Brasil e mundo a fora até ficar velhinha.

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