Houve uma época em que o meu calendário de inverno tinha um destino quase obrigatório: o Rio de Janeiro. Entre maio e o começo de setembro, quando o calor dá uma trégua e a umidade baixa na costa brasileira, a Cidade Maravilhosa se transforma na meca absoluta do montanhismo nacional. Com o passar dos anos, especialmente após a pandemia, a rotina de guiar expedições no exterior durante essa mesma janela me afastou um pouco dessa regularidade, mas a memória, e a vontade constante de voltar, permanece intacta.

Rafael Wojcik na Passagem dos Olhos, Pedra da Gávea.
Escalar no Rio é uma vivência fundamental para qualquer montanhista. Não se trata apenas de colecionar clássicas em granito (ou gnaisse) sólido ou tachar vias em livros de cume, mas da atmosfera única que a geografia carioca impõe. A sensação de progredir em uma parede vertical com o oceano, as florestas da Mata Atlântica e o tecido urbano pulsando centenas de metros abaixo dos pés é surreal.

Maria Tereza Ulbrich escalando no Cantagalo, Rio. Aonde mais há um visual urbano como este numa via longa de escalada?
Pouquíssimos lugares no planeta oferecem essa simbiose. Alguns costumam lembrar de Hong Kong ou da Cidade do Cabo quando pensam em rocha ao lado do asfalto, mas nenhuma metrópole global ostenta paredes tão imponentes e altas encravadas na malha urbana quanto o Rio de Janeiro. Onde mais no mundo você pode entrar em um big wall com porte suficiente para exigir um bivaque na parede, sem jamais perder de vista as avenidas movimentadas e as luzes da cidade acesas à noite?
A espinha dorsal do montanhismo carioca reside justamente nas vias longas em livre e em artificial. Lugares como o Pão de Açúcar, o Morro da Babilônia, o Corcovado, a Pedra da Gávea, o Cantagalo, a Pedra Bonita e o Pico da Tijuca guardam linhas históricas e estéticas que definiram gerações. A maioria delas conta com proteções fixas, mas com uma peculiaridade que faz parte da identidade local: grampos espaçados. Para quem está acostumado à densidade de proteções das falésias esportivas modernas, guiar nas paredes cariocas exige uma verdadeira “aclimatação psicológica”. A rocha pede frieza, técnica refinada de pés e a maturidade de saber gerenciar a distância entre uma costura e outra.

Pedro Hauck escalando a via dos Italianos no Pão de Açúcar num distante ano de 2007.
Embora eu já tenha entrado e encadenado boa parte dos grandes clássicos fluminenses, o Rio tem a incrível virtude de ser inesgotável. Sempre sobra um projeto pendente, uma aresta para explorar ou uma lufada de ar fresco na memória. Duas vias, em particular, seguem no topo da minha lista de desejos para as próximas temporadas: a histórica Via dos Austríacos e a Lionel Terray — esta última, uma homenagem incontornável a um dos alpinistas e pioneiros que mais admiro na literatura e na história da montanha mundial.
Engana-se, porém, quem pensa que o Rio vive unicamente de grandes multilargos. A cidade foi também o berço da escalada esportiva de alto rendimento no país. O lendário Campo Escola 2000 carrega essa história até no nome: nos anos 1980, suas linhas negativas, atléticas e futuristas pareciam tão improváveis que os pioneiros diziam que elas só poderiam ser escaladas no mítico ano 2000, na época, o símbolo máximo de um futuro distante e avançado. O setor da Barrinha é outro exemplo categórico dessa transição técnica, ostentando vias esportivas intensas e técnicas sobre microagarras.

Luiz Claudio Pita na via do Alemão em 1992.
Foi nesse caldeirão de vanguarda que, ainda em 1987, o lendário Wolfgang Güllich desembarcou no Brasil e deixou sua assinatura definitiva na rocha carioca: abriu a Southern Comfort, carinhosamente batizada por nós de Via do Alemão, a primeira via em solo brasileiro a romper a barreira do décimo grau (sugerida então como Xa).
Outro templo marcante dessa transição foi a Falésia dos Ácidos, batizada justamente pelo acúmulo brutal de ácido lático nos antebraços provocado pela sua escalada atlética e sustentada, um setor espetacular que, infelizmente, acabou caindo em desuso devido a um projeto desastrado de reflorestamento na sua base, que fechou acessos e engoliu linhas.
Por trás de cada uma dessas fendas, lances de aderência e falésias, está uma geração de pioneiros e visionários que construíram a identidade técnica do montanhismo nacional: o Paulo “Macaco“, que pode ser considerado o verdadeiro pai do boulder no Brasil; André Ilha e Antonio Paulo Faria, mestres na ética e na abertura de vias lendárias; além de referências inquestionáveis como Alexandre Portela, Sergio Tartari e Flavio Daflon, que elevaram o padrão técnico e editorial das nossas montanhas.
O Rio de Janeiro permanece como um rito de passagem indispensável. Uma cidade que nos ensina a respeitar a distância dos grampos, a ler a rocha com paciência e a lembrar que, mesmo a passos do mar, o montanhismo em sua forma mais pura continua vivo nas arestas de granitos e gnaisses.







