Escolhendo seu calçado para a montanha

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Compare botas de trekking, calçados baixos, tênis de trail e botas de alta montanha. Entenda como terreno, ajuste, impermeabilidade e isolamento orientam a escolha e veja modelos da Loja AltaMontanha.

Uma expedição não depende apenas de esforço físico. Planejamento, experiência e escolha dos equipamentos influenciam o que acontece na trilha. O calçado merece atenção: uma aproximação de 30 quilômetros por morainas e pedras pode terminar em bolhas; uma bota sem isolamento suficiente pode deixar os pés frios; e um par com a sola se soltando pode comprometer a caminhada.

Resultado de um dia longo de caminhada em uma bota muito rígida. Foto: Antonio Gadenz.

Em serras úmidas, como a Mantiqueira e a Serra do Mar, água e lama acrescentam outro desafio. A prevenção começa antes da viagem: escolher um modelo adequado ao percurso, acertar o tamanho, experimentar com as meias que serão usadas e fazer caminhadas de teste. Uma bota cara que machuca o pé não se torna adequada por causa da marca.

Como escolher antes de olhar a altura do cano

Considere o terreno, a duração da caminhada, a carga da mochila, a temperatura e a presença de neve ou gelo. Depois, compare ajuste, flexibilidade, proteção do cabedal e desenho do solado. A altura do cano é uma parte dessa escolha; sozinha, não determina resistência, impermeabilidade ou proteção contra torções.

Experimente os dois pés, preferencialmente ao fim do dia e com suas meias de trilha. O calcanhar deve ficar bem acomodado, sem o pé deslizar excessivamente, e os dedos precisam de espaço nas descidas. Pontos de pressão e dor já na prova são motivo para procurar outro tamanho ou outra forma. Não conte com o amaciamento para resolver um ajuste inadequado.

Botas militares

O visual robusto de um coturno não comprova que ele foi projetado para trekking. Alguns modelos tradicionais são pesados e pouco flexíveis para caminhadas longas, mas não é correto condenar toda bota militar nem todo calçado de couro. O que importa é o modelo: ajuste, sola, peso, manejo da umidade e finalidade indicada pelo fabricante. Para montanha, prefira avaliar essas características em vez de escolher pelo aspecto “tático”.

Botas de cano médio ou alto

Podem oferecer mais cobertura contra pedras, vegetação e detritos, além de uma estrutura que alguns caminhantes preferem com mochila carregada. Em compensação, peso e rigidez variam bastante. Já usei botas robustas em expedições e aprendi que proteção e conforto precisam funcionar juntos: o cano alto não impede, por si só, uma torção.

A construção da bota reúne cabedal, membrana, sistema de ajuste e solado. Avalie o conjunto e a finalidade do modelo.

Uma opção para comparar é a La Sportiva Trango Trk Leather GTX Carbon | Alpine, com cabedal de couro e microfibra, membrana GORE-TEX e solado Vibram. Ela entra nesta seleção para trekking; não deve ser confundida com uma bota dupla de expedição. Confira a numeração disponível e experimente o ajuste antes de definir a compra.

Impermeável não significa impossível de molhar

O GORE-TEX utilizado em calçados impermeáveis combina barreira à água líquida com passagem de vapor. A expressão “semi-impermeável de fora para dentro” não descreve corretamente essa função. Ainda assim, água pode entrar pela abertura do cano, e respirabilidade não significa eliminar todo o suor durante qualquer esforço.

Uma membrana pode ser útil em frio, chuva e vegetação molhada. Em condições quentes, compare também ventilação e secagem. Nenhuma tecnologia dispensa cuidados: siga as instruções do modelo, mantenha o calçado limpo e seque longe de calor direto. Couro, tecidos e membranas podem exigir tratamentos diferentes.

Calçados de cano baixo e tênis de aproximação

Calçados baixos de caminhada oferecem mais liberdade de movimento e podem ser uma alternativa quando combinam com o terreno, a carga e a experiência do usuário. Não são todos iguais: há modelos leves e flexíveis e outros com reforços para percursos pedregosos. Um tênis de aparência aventureira, mas destinado à cidade, não equivale automaticamente a um calçado técnico.

Na loja, o Columbia Peakfreak II Outdry Masculino Black é um exemplo de calçado baixo para caminhada, com membrana OutDry e solado Adapt Trax. Compare-o como alternativa de hiking, sem presumir que a membrana impede água pela abertura ou que o solado garante aderência em toda superfície.

Exemplo histórico de tênis de aproximação: o Guide Tennie da Five Ten. A imagem não indica disponibilidade atual na loja.

Os approach shoes, ou tênis de aproximação, são uma categoria própria, pensada para o acesso a vias e o contato com rocha. Alguns permitem movimentos de escalada em trechos fáceis, conforme o modelo e a habilidade do usuário. Isso não substitui a avaliação da rota, a técnica ou os equipamentos de proteção necessários.

Usei diferentes calçados baixos nos Andes e no Brasil. Em uma dessas experiências, o primeiro uso trouxe bolhas; no seguinte, o conforto melhorou, mas o calçado não resistiu ao terreno. É um relato pessoal, e não uma regra de que todo modelo baixo dura menos que uma bota alta. Testar antes e inspecionar o par continuam sendo fundamentais.

Tênis de trail running

São desenvolvidos para correr fora do asfalto e incluem propostas bastante diferentes. Há modelos para terra compactada, pedra e também terreno lamacento. Portanto, não é correto restringir toda a categoria a trilhas bem consolidadas ou descartar seu uso simplesmente porque choveu.

Na lama, o desenho e o espaçamento das garras merecem atenção; em rocha, proteção e estabilidade também pesam na escolha. Avalie o modelo específico, a distância e o ajuste. Um tênis feito para determinado terreno não oferece a mesma resposta em todos os outros.

O La Sportiva Prodigio Max Night Sky | Mountain Red é uma opção para trail e ultra trail, com cabedal em malha, amortecimento XFlow Endurance e garras de 4 mm. Sua presença aqui não é uma indicação universal para lama profunda, gelo ou expedições frias.

Registro histórico de Kilian Jornet usando tênis Salomon para corrida. A imagem não representa um vínculo atual do atleta com a marca.

Tênis comum

Em uma caminhada curta e simples, um tênis que você já possui pode ser suficiente se estiver em bom estado, tiver aderência apropriada e não machucar. Para percursos mais exigentes, considere os limites da proteção, da sola e da construção. Economizar não deve significar levar um par inadequado para o terreno.

Altitude, isoladamente, não define o calçado necessário. Frio, neve, gelo, duração da exposição e exigências técnicas é que precisam orientar a escolha. Tênis comuns não substituem botas de alpinismo em uma rota que exige isolamento ou compatibilidade específica com crampons.

Papetes e sandálias

Gosto da praticidade de um calçado leve para o descanso no acampamento e para sair da barraca sem vestir a bota de expedição. Em trilhas, porém, sandálias deixam partes do pé expostas e devem ser avaliadas com cuidado, principalmente em terreno pedregoso, frio e vegetação fechada. Uma biqueira fechada pode acrescentar cobertura, mas não impede necessariamente a entrada de pedrinhas.

Botas para alpinismo e alta montanha

Aqui, a escolha envolve isolamento térmico, rigidez adequada à atividade e compatibilidade entre bota e crampon. Uma bota de trekking, mesmo impermeável e de cano alto, não se torna uma bota de expedição. Confirme as especificações do fabricante e as exigências da rota com quem organiza ou guia a atividade.

Calçados de expedição para alta montanha. A classificação depende da construção de cada modelo. Foto: Xinhua/Tashi Tsering.

Botas simples

Têm a construção interna integrada, sem a botinha removível característica das duplas. Existem propostas para atividades e níveis de isolamento diferentes; não são todas “para baixa altitude”. O modelo precisa atender às condições da escalada, e a rigidez necessária para uma rota técnica pode ser pouco confortável em uma aproximação longa.

Botas duplas

Combinam uma parte externa com uma botinha interna removível. Essa separação ajuda no manejo da secagem durante expedições. Há construções plásticas tradicionais e modelos de outros materiais. Exemplos citados ao longo da história deste artigo incluem Scarpa Inverno, La Sportiva Spantik e Baruntse; os nomes não indicam estoque atual nem que todos tenham sido substituídos por um único modelo.

A La Sportiva classifica a G2 Evo como bota dupla, com polaina integrada. Essa polaina não a transforma automaticamente em “tripla”, e não é adequado prometer segurança até uma altitude fixa, como 7.000 metros. Temperatura, vento, tempo de exposição, ajuste e necessidades da pessoa precisam entrar na decisão.

Polainas e overboots

Uma polaina integrada faz parte da construção de determinados modelos. Um overboot é uma cobertura externa adicional, cujo uso e compatibilidade devem ser verificados. No mercado, a palavra “tripla” pode aparecer para conjuntos com mais camadas; ela não basta para comparar isolamento ou indicar um calçado para uma montanha de oito mil metros. Consulte a descrição técnica do modelo, em vez de decidir apenas pelo número de camadas.

Confira também nosso vídeo sobre botas para alta montanha. Use-o como complemento, conferindo as especificações e versões atuais dos equipamentos:

Antes da próxima caminhada

Examine o cabedal, as costuras, a fixação da sola e o desgaste do solado. Faça os testes com tempo para trocar o modelo se necessário. Se o calçado incomoda, procure a causa e ajuste sua escolha antes de uma viagem remota. Leve em conta as meias e a possibilidade de mantê-las secas: um calçado especializado não compensa sozinho um planejamento inadequado.

Os três modelos indicados foram conferidos na loja e no estoque informado durante a revisão. Tamanhos e disponibilidade podem mudar; consulte as páginas dos produtos.

Referências técnicas: escolha e ajuste de calçados de caminhada — Salomon; terrenos e tênis de trail — Salomon; impermeabilidade e abertura do cano — GORE-TEX; cuidados com calçados GORE-TEX; construção da G2 Evo — La Sportiva; alpinismo e compatibilidade com crampons — SCARPA.

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Sobre o autor

Natural de Itatiba-SP e residente em Curitiba-PR desde 2007, Pedro Hauck é uma figura proeminente no montanhismo brasileiro. Sua formação inclui graduação em Geografia pela Unesp Rio Claro e mestrado em Geografia Física pela UFPR. Com uma carreira de mais de 27 anos, ele é guia de montanha profissional e instrutor de escalada credenciado pela ABGM, a única associação de guias de escalada profissional do Brasil. Seu currículo inclui a ascensão de mais de 180 montanhas acima de 4 mil metros, com mais da metade ultrapassando os 6 mil metros, além de um pico de 8 mil metros no Himalaia e dois de 7 mil. Pedro Hauck também atua como empresário do setor outdoor, sendo sócio da Loja AltaMontanha, uma das mais conceituadas lojas de montanhismo do país, da Via AltaMontanha, um dos maiores ginásios de escalada de Curitiba, e da Soul Outdoor, agência especializada em ascensão, trekking e cursos de montanhismo. Acompanhe Pedro Hauck no Instagram: @pehauck.

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