Em meados de setembro de 2026, uma violenta explosão na fronteira norte do Chile, na região de Arica e Parinacota, voltou a colocar em pauta um fantasma da história geopolítica sul-americana que muitos acreditavam estar enterrado no passado. Uma caminhonete Ford F-150 que trafegava durante a madrugada por um passo não habilitado nas cercanias do Hito 16, a apenas 280 metros do limite internacional com o Peru, ingressou em uma área restrita e acionou um campo minado. A primeira detonação arremessou o veículo pelo ar e, no impacto da queda, uma segunda mina foi ativada — consequência do padrão militar em “trevo”, no qual um artefato central é rodeado por até cinco outros periféricos. A força combinada das explosões e o incêndio subsequente desintegraram a caminhonete, carbonizando fatalmente o motorista. Embora as investigações da Fiscalía chilena apontem que o veículo fazia parte de uma rota de contrabando carregada com cátodos de cobre, o episódio levanta uma questão fundamental para montanhistas, expedicionários e praticantes de overland que exploram os rincões mais isolados da Cordilheira dos Andes: por que ainda existem campos minados ativos no Chile se o país anunciou ao mundo que havia limpado suas fronteiras?

Destroços da caminhonete destruída após acionar duas minas terrestres antitanque na fronteira norte do Chile, próximo ao Hito 16. À direita, placa de advertência do campo minado (Foto: Divulgação / Fiscalía de Arica y Parinacota).
Para compreender a persistência desse risco nas montanhas andinas, é preciso voltar ao final da década de 1970. Durante o regime militar de Augusto Pinochet, em meio à grave crise diplomática do Canal de Beagle em 1978 com a Argentina e às tensões históricas com o Peru e a Bolívia, as Forças Armadas chilenas semearam oficialmente mais de 180 mil minas terrestres — embora estimativas extraoficiais de organizações humanitárias falem em centenas de milhares de artefatos distribuídos ao longo das fronteiras do extremo norte, da Puna de Atacama e da Patagônia Austral. Décadas mais tarde, já redemocratizado, o Chile assinou e ratificou em 2001 a Convenção de Ottawa, tratado internacional voltado à proibição e destruição de minas antipessoais. Para executar essa tarefa colossal em ambientes que chegam a quase 5.000 metros de altitude, o governo chileno nunca chegou a criar um ministério independente, mas instituiu em 2002 a Comissão Nacional de Desminagem (Comisión Nacional de Desminado – CNAD), um órgão interministerial subordinado e presidido pelo Ministério da Defesa Nacional.
Durante quase vinte anos, as unidades de engenharia do Exército e da Armada, coordenadas pela CNAD, realizaram um trabalho hercúleo nas quebradas e passos cordilheiranos, que culminou em março de 2020 com o anúncio oficial de que o Chile havia cumprido 100% de suas obrigações no Tratado de Ottawa, declarando o território livre de minas antipessoais. No entanto, a estrutura da CNAD e do Centro de Treinamento de Desminagem e Destruição de Explosivos (CEDDEX) jamais foi extinta e permanece ativa sob o guarda-chuva do Ministério da Defesa. O motivo de sua continuidade — e do perigo que ainda espreita nas montanhas — reside em uma brecha técnica e jurídica fundamental: a Convenção de Ottawa proíbe exclusivamente as minas antipessoais, desenhadas para mutilar ou matar soldados a pé com cargas pequenas de cerca de 29 a 200 gramas de explosivo, acionadas por uma pressão leve entre 15 e 20 quilos. O tratado internacional não abrange as minas antitanque (ou antiveículo), consideradas armamentos defensivos legítimos sob outra legislação militar e cuja remoção total segue subordinada aos planos estratégicos de defesa nacional do Chile.

Campo minado ativo no norte do Chile. Foto Pedro Hauck.
Enquanto uma mina antipessoal é pequena, uma mina antitanque carrega cerca de 10,5 quilos de TNT e exige entre 160 e 200 quilos de pressão para ser ativada. Em condições ideais de laboratório, um montanhista caminhando não teria peso suficiente para detonar um artefato antitanque. O grande problema é que a logística do montanhismo moderno nos Andes Áridos, especialmente na Puna de Atacama e no Altiplano, depende intrinsecamente da aproximação em caminhonetes 4×4 pesadas, muitas vezes rodando fora de estrada por dezenas de quilômetros até a base de vulcões de 6.000 metros. Um veículo tracionado carregado com combustível, água e equipamentos de expedição supera com folga o limite de ativação por eixo. Além disso, tratando-se de explosivos enterrados há quase meio século sob condições severas de radiação, congelamento, degelo e oxidação, nenhum especialista militar pode garantir que as molas e espoletas de pressão mantenham sua calibragem original ou que minas antipessoais perdidas não tenham escapado às varreduras.
A prova de que os artefatos seguem instáveis e ativos não está apenas nos relatórios militares, mas impressa na própria paisagem desértica. Quem percorre as zonas limítrofes da Puna e do Altiplano frequentemente se depara com cicatrizes perturbadoras no terreno: crateras abertas no solo árido no meio do nada, muitas vezes cercadas por ossadas branqueadas pelo sol. São o retrato silencioso de como a fauna andina — especialmente manadas de vicunhas e guanacos, além de raposas (zorros culpeos) e pumas — tornou-se vítima constante desses campos ao longo das décadas. Embora uma vicunha adulta seja leve demais para acionar uma mina antitanque nova, o pisoteio em grupo, a corrida dos animais sobre terrenos erodidos ou o acionamento das antigas minas antipessoais que cercavam e protegiam os perímetros antitanque provocaram inúmeras detonações espontâneas. Essas aberturas de explosão no solo servem como um lembrete macabro para os montanhistas de que a terra ao redor continua viva e letal.
A história recente dos Andes acumula episódios trágicos que demonstram o custo humano dessas armas silenciosas. Na própria fronteira norte de Arica, o caso de setembro de 2026 foi precedido por um acidente grave em julho de 2023, quando seis militares chilenos ficaram feridos — um deles com fraturas expostas — após a viatura em que patrulhavam passar sobre uma mina antitanque, e por outra tragédia fatal no setor do Hito 15 em 2024, quando um veículo civil ignorou a sinalização de advertência e explodiu. Mais ao sul, na região de Antofagasta e da Puna de Atacama, as histórias se cruzam diretamente com a exploração geográfica e o montanhismo. Em 1994, nas proximidades de Monturaqui, a proprietária de uma pedreira de ônix perdeu ambas as pernas quando seu jipe acionou uma mina terrestre. Pouco tempo depois, quatro trabalhadores da famosa mineradora de cobre La Escondida, nos arredores do vulcão Llullaillaco, ficaram gravemente feridos ao cometerem a imprudência de recolher um artefato do solo, que acabou explodindo dentro do veículo em que estavam. Até hoje, quem se aventura pelas imediações do desativado Paso Socompa encontra a carcaça retorcida de um antigo Land Rover, monumento fúnebre de um geólogo que perdeu a vida instantaneamente ao passar sobre uma mina durante trabalhos de campo.
Nenhum lugar simboliza melhor essa tensão entre a alta montanha e os campos minados do que o imponente vulcão Llullaillaco (6.739 m), na fronteira entre o Chile e a província argentina de Salta. Antes das operações de limpeza no Parque Nacional Llullaillaco — onde, apenas em 2007, foram retiradas 3.052 minas antipessoais e 616 minas antitanque —, a face chilena da montanha foi palco de grandes mistérios. Em 1997, o cientista e pesquisador norte-americano Donald Davison Jr., natural de Nova Jersey, subiu o vulcão em solitário, assinou o livro de cume e desapareceu sem deixar rastros durante a descida, pouco antes de alcançar sua caminhonete, que havia ficado estacionada a curta distância de um campo minado; anos mais tarde, seus restos mortais foram localizados justamente dentro do perímetro minado. Destino semelhante e igualmente sombrio envolveu o montanhista alemão Erik Newbery no mesmo vulcão: seus restos mortais ficaram retidos na face oposta da montanha, próximo à base do glaciar e colados aos dois hectares do campo minado “Llullaillaco Sur”, alimentando por anos a forte suspeita de que tenha sido vítima das minas ou de que o temor de atravessar a zona cercada de arame farpado e placas de caveira sob a neve tenha selado sua morte, tornando qualquer tentativa de resgate na época humanamente inviável.
Essa realidade não está restrita a passos remotos e esquecidos; ela faz parte do cenário das próprias montanhas nos arredores de San Pedro de Atacama, o maior polo turístico e de montanhismo de altitude do norte chileno. Nas rotas de aproximação e nas encostas de vulcões muito procurados que margeiam a fronteira com a Bolívia e a Argentina — como o icônico Licancabur, o Juriques, o Tocorpuri, além de cumes mais ao sul da bacia do Salar de Atacama, como Pular, Socompa, Salín, Aracar e Cerro Silla —, ainda é comum encontrar vestígios físicos dessa herança militar. Quem caminha ou dirige pelas bases dessas montanhas perto de San Pedro de Atacama frequentemente cruza com antigos cercados de arame farpado retorcidos pelo vento, placas triangulares vermelhas desbotadas pela radiação do deserto, caixas de munição abandonadas, estacas de marcação e carcaças ou fragmentos de minas detonadas durante os processos de limpeza. Mesmo em áreas oficialmente liberadas pelo Exército, a sensação de incerteza permanece, pois vestígios e artefatos semidesenterrados já foram avistados por montanhistas fora dos perímetros demarcados, provando que os mapas oficiais nem sempre refletem a totalidade do que o deserto esconde.

Campo minado no lado chileno do Licancabur em 2014. Foto Pedro Hauck.
Para um observador atento à geografia física dos Andes, a explicação para que minas continuem surgindo fora dos cercados militares ou em áreas supostamente limpas está na dinâmica geomorfológica da cordilheira. Na época em que os artefatos foram enterrados nos anos 1970, não existia tecnologia de GPS civil ou militar de alta precisão, e os croquis eram feitos à mão com base em referências topográficas que mudam com o tempo. Mais grave ainda é a ação climática anual do Invierno Altiplánico entre dezembro e março. Quando a umidade amazônica transpõe a cordilheira e desaba em tempestades torrenciais sobre o solo desértico e desprovido de vegetação, formam-se violentos fluxos de detritos e enxurradas (aluviones). Essas torrentes de lama e rocha descem pelas quebradas com força suficiente para arrancar cercas de arame farpado, destruir placas de sinalização e arrastar minas terrestres por vários quilômetros encosta abaixo. Artefatos que antes estavam confinados em um passo fronteiriço acabam sendo depositados no fundo de leitos secos de rios — exatamente os caminhos planos que expedições de montanha costumam utilizar como estradas naturais para avançar com veículos 4×4 em direção às bases dos vulcões. Outras minas são soterradas sob metros de sedimentos aluviais, tornando-se invisíveis aos detectores de metais durante as campanhas de certificação da CNAD, apenas para serem reexpostas anos depois por uma nova enxurrada.
Diante desse cenário em que a geopolítica do século XX colide com a geomorfologia implacável do deserto de altitude, a exploração de montanhas isoladas na fronteira do Chile exige muito mais do que preparo físico e aclimatação. O protocolo de sobrevivência na Puna e no extremo norte obriga o montanhista a jamais abandonar os rastros de veículos já consolidados (huellas) durante a aproximação fora de estrada; tentar cortar caminho por terreno virgem ou contornar obstáculos saindo da trilha batida na linha de fronteira é assumir um risco de vida desnecessário. Da mesma forma, deve-se evitar trafegar pelo fundo de quebradas que drenam antigas zonas minadas após temporadas de chuva, respeitar de forma absoluta qualquer vestígio de arame farpado ou placas vermelhas tombadas pelo vento e planejar ascensões com tracks comprovados e autorizações da DIFROL (Dirección Nacional de Fronteras y Límites del Estado). A cordilheira continua sendo um espaço de liberdade, mas em suas fronteiras mais áridas, a leitura correta da história e do relevo ainda é o que separa uma grande expedição de uma tragédia anunciada.
Para visualizar o impacto real desses artefatos antitanque no terreno e acompanhar a investigação policial sobre o caso que motivou este alerta, assista à reportagem sobre a explosão da caminhonete no campo minado em Arica.







