História do mosquetão

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O mosquetão é um dos símbolos do montanhismo no Mundo e seu nome compõe o título do principal prêmio do montanhismo brasileiro – Mosquetão de Ouro, e incrivelmente a história da criação desse produto é desconhecida no meio montanhístico.

A história do alpinismo é também uma história de mudanças nos equipamentos. A primeira ascensão do Mont Blanc, realizada por Jacques Balmat e Michel-Gabriel Paccard em 8 de agosto de 1786, é um dos marcos dessa trajetória. Embora o material fosse rudimentar, seria incorreto reduzir a conquista a um simples trekking: a progressão em terreno glacial já exigia enfrentar dificuldades próprias da montanha.

No final do século XIX e no início do século XX, a escalada em rocha ganhou novos caminhos. Com objetivos mais difíceis, cresceu a busca por equipamentos que facilitassem as conexões entre corda e pontos de proteção. É aí que o mosquetão ganha um papel decisivo.

Antes de chegar à escalada

Projeto antigo de gancho com gatilho, reproduzido no acervo da matéria.

Ganchos com gatilho já tinham aplicações fora do montanhismo. O Deutscher Alpenverein, clube alpino alemão, lembra usos na cavalaria, na navegação e nos bombeiros ao apresentar a evolução dos mosquetões.

Em alemão, o equipamento é chamado de Karabinerhaken. O dicionário Duden o descreve como um gancho cujo fechamento é mantido por uma mola. A existência desses conectores anteriores à escalada ajuda a entender por que sua história não se resume à invenção de uma única pessoa.

Os desenhos antigos, como o da imagem, mostram soluções de conexão que antecedem os modelos esportivos atuais. Sem identificar e consultar o documento original de cada patente, não é possível afirmar que um desses desenhos corresponda à primeira patente de mosquetão do mundo.

Otto Herzog e a adoção na montanha

Com a utilização dos pitons, conectar a corda à proteção de maneira mais prática passou a ser uma necessidade. O mosquetão permitiu abrir e fechar essa conexão sem ter de passar toda a corda por uma argola fechada. Esse avanço facilitou o trabalho dos escaladores, mas não eliminou os riscos de uma queda.

Mosquetão de Rambo Herzog, no museu de Montanha de Messner

Você provavelmente assistiu aos filmes do Rambo, né? Na história da escalada, o apelido também aparece associado ao alemão Otto Herzog. Segundo o Deutscher Alpenverein, ele passou a usar mosquetões sistematicamente em suas escaladas no início do século XX.

A contribuição de Herzog é importante para a adoção do equipamento no alpinismo. Isso é diferente de afirmar que ele inventou o próprio gancho ou fabricou o primeiro mosquetão do mundo. A passagem de uma ferramenta usada em outros ambientes para um equipamento próprio de escalada foi um processo de adaptações.

Pierre Allain e as ligas leves

Pierre Allain produzindo seus mosquetões.

Na década de 1930, o francês Pierre Allain teve um papel importante no desenvolvimento de mosquetões em liga leve. Vincent Maratrat, no livro Escalade et droit, registra em 1933 um mosquetão concebido por Allain com o objetivo de ser mais leve e funcional.

O trabalho de Allain ajuda a explicar uma mudança que qualquer escalador percebe ao organizar o rack: pequenas diferenças de peso, repetidas em várias peças, fazem diferença no conjunto. Sua contribuição permanece como um dos marcos da evolução do equipamento, sem que isso transforme toda a história do mosquetão em uma invenção isolada.

Mosquetões de Pierre Allain

Yvon Chouinard e a evolução da indústria

No período pós-guerra, os objetivos dos escaladores ficaram cada vez mais específicos, difíceis e técnicos. A fabricação de equipamento próprio para esses desafios ganhou importância.

Yvon Chouinard durante escalada.

Em 1957, Yvon Chouinard comprou uma forja a carvão usada e começou a fabricar pitons. A história publicada pela Patagonia descreve esse início artesanal e a venda de equipamentos a partir do carro. Em 1965, Chouinard se associou a Tom Frost na Chouinard Equipment, desenvolvendo ferramentas para a escalada.

A ligação com a Black Diamond tem uma etapa própria: em 1989, antigos funcionários e parceiros assumiram o negócio e deram origem à marca. Assim, vale distinguir o começo da produção artesanal em 1957 da formação da Black Diamond décadas depois.

Ao longo dos anos, formas, ligas metálicas e sistemas de fechamento continuaram evoluindo. A redução de peso é importante, mas precisa ser considerada junto com a função do equipamento, a ergonomia e as instruções de uso.

Do acervo aos mosquetões atuais

Há modelos muito leves e outros maiores ou com sistemas de trava. Portanto, não é correto dizer que todos os mosquetões atuais pesam menos de 20 gramas. A diferença aparece nestes dois exemplos disponíveis na Loja AltaMontanha na revisão:

  • Mosquetão Edelrid Nineteen G (73802): compacto, em alumínio e com gatilho de arame, sem trava. A ficha da loja informa peso aproximado de 20 g. O fabricante informa resistência de 20 kN no eixo principal com o gatilho fechado e 7 kN no eixo menor ou com o gatilho aberto.
  • Mosquetão HMS Edelrid Strike Screw II (73769): opção com trava de rosca e formato HMS. A ficha da loja informa peso aproximado de 59 g. É um exemplo de como a função e o sistema de fechamento mudam as características do equipamento.

Esses modelos não são substitutos automáticos um do outro. A escolha depende da conexão prevista e da compatibilidade com o restante do sistema. Consulte o manual do fabricante e a marcação da peça. Um mosquetão vendido apenas como chaveiro ou acessório não deve ser usado para proteger pessoas em escalada.

Quando olhamos para um rack moderno, é fácil esquecer o caminho percorrido até chegar a essas peças pequenas. Herzog, Allain, Chouinard e tantos outros contribuíram para essa transformação. A história do mosquetão continua sendo escrita a cada melhoria de projeto e de uso.

Pierre Allain produzindo seus mosquetões.

Referências para consulta

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Sobre o autor

Hilton Benke é um dos idealizadores do AltaMontanha.com. Dono de uma personalidade muito forte, é hoje praticante assíduo do voo livre, principalmente da modalidade "hike and fly", que une o voo com o montanhismo. Como montanhista e escalador, gastou seu tempo galgando montanhas brasileiras e andinas, além de ter prestado alguns serviços como instrutor de escalada junto ao CPM. Deixá-lo feliz é fácil: só marcar um bom pernoite em um cume da Serra do Mar Paranaense, com um bom menu para o jantar e uma condição de tempo boa para que possa decolar com seu parapente dia seguinte e realizar uma das muitas travessias sobre a Serra do Mar.

1 comentário

  1. Antônio Gouveia em

    Percebam que na parte da etimologia vocês não usaram a palavra “mosquete”, por isso MOSQUETão. Ficou totalmente sem sentido.
    Essa etimologia também não é confirmada.
    Abraço.