Hoje Eu o Vi

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Hoje eu o vi. Ou melhor, revi. Já o conhecia, mas em outra situação. Não vou falar agora de como ele está hoje, e sim de como eu o conheci.

Era soberbo, caminhava pela orla do rio onde eu navegava à espera de que aparecesse. Então, eu o vi. Lentamente, espreitava um grupo de lontras mais adiante na água. Avançava com cuidado, determinação, como se caminhasse numa trilha conhecida. Tinha uma magnífica segurança, um exercício severo tantas vezes repetido com sucesso.

Como se fosse uma vida em câmara lenta, ver no calor do dia e na água calma do rio aquele animal completo. Ele representava para mim a glória de uma evolução poderosa, seres com garras e dentes, fortes e ágeis, criaturas com tenacidade e inteligência. Como se fossem monarcas da natureza.

Mas, acredite, eu já o tinha visto antes. Molhado e escuro, tinha atravessado rápido e silencioso, na trilha aberta que eu percorria no início do dia perto da mata. Acho que voltava de um banho e que tinha outros planos, queria caçar. Fomos embora, ele na sua missão e eu na minha.

Hoje eu o vi. De novo. Eu o reconheci, apesar das cicatrizes. Suas patas, sobre as quais caminhou longamente por matas e campos, estão calcinadas, destruídas. Sua sensibilidade agora é pura dor. Seu pelo chamuscado não mais lhe permite perceber e respirar. Os olhos lacrimejam, para proteger o pouco que lhe resta de visão. Seus pulmões estão intoxicados de fuligem, suas entranhas revoltas de fome.

Este animal esplêndido, emblema de sua raça, ele está morrendo. Acho que a vida dos bichos está no corpo, mas a inteligência está nos olhos. Eu olho ele. Ele me olha, com esse olho calmo dos felinos. Não tem indagação, acusação, insegurança. E nem parece ter dor. É um olho mais antigo e melhor do que o meu.

Mas a dor está em mim. Não posso aceitar que ele morra. Inocente vítima dos campos incendiados pelos homens insensíveis. Salvo por gente amiga, que convive com esses seres ameaçados e que tenta inutilmente defendê-los através da voz que eles não têm.

Minha homenagem a ele seria vê-lo morrer. Compartilhar sua morte na minha vida. Já vi animais morrendo, sempre sóbrios nos seus suspiros. Hoje eu não posso mais. Não honro com minha covardia a sua coragem, a sua nobreza.

Eu sobrevivo, não por meu mérito, mas por integrar essa espécie dominante. Que construiu impérios de glória e vidro. Que tomou a riqueza da terra. Triunfou sobre a natureza ignorante. Comandou nossa invasão da vida.

E eu o vi pela última vez. E ele me viu pela última vez. E eu me vi pela última vez.

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Sobre o autor

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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