Itutinga-Carrancas, A travessia Carrancuda no sul de Minas

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A pequena Itutinga é normalmente conhecida por ser porta de entrada pra badalada Carrancas. Entretanto, a pacata cidade tem charme particular e detém atrativos q a tornam bem mais q mera coadjuvante de sua vizinha mais ilustre. É dela tb q nasce uma travessia q percorre campos de gramíneas na altitude, matas, gargantas, cristas, picos e campos rupestres. Não bastasse isso, junte os cenários alienígenas de “Sete Pedras“ e do misterioso “Beco“, assim como pisar na relíquia viva da Estrada Real ou de visitar cachus de níveis respeitáveis.


É a travessia Itutinga-Carrancas, q em 3 dias e 55km palmilha um conjunto de 3 serras consecutivas, a do Pombeiro, do Galinheiro e a de Carrancas, e conclui na cidade do mesmo nome. Uma pernada onde o cerrado, o sol inclemente e os contrafortes serranos compõem cenários q se complementam com a presença de inúmeras vertentes de água límpida, neste rincão privilegiado e pouco conhecido do sul de MG.

Desde q comecei minha peleja em travessias sempre fui obstinado na decisão de q nunca “veria o mesmo filme duas vezes”. E mesmo deixando de lado, nestes casos, alguns ptos, detalhes e atrativos q possam ter passado despercebidos nalguma trip, disse a mim mesmo q preferia morrer na ignorância a repetir qq caminhada ou travessia. Pois bem, o mundo dá voltas e a curiosidade aliada à saudade nestes últimos anos me impediu de morrer na ignorância e enfim quebrando minha promessa, repeti uma bela pernada q fizera mtos anos atrás!

Naquela ocasião me embrenhei sozinho no mato munido apenas de carta, bússola e precárias infos, mas desta vez fui com um grupo maior, conhecia razoavelmente o trajeto (desde q minha memória não me traísse) e fui devidamente calçado pras eventuais adversidades q por ventura surgissem no caminho. Uma delas foi q encarei a pernada não estando 100% fisicamente, pois estava debilitado por uma virose contraída dias antes. Mas como não ia dar pra trás por conta disso, procurei apenas manter sob controle os sintomas , traduzidas em mta dor-de-cabeça, indisposição e principalmente febre, com alguns comprimidos de Dipirona à mão.

Chegando a Itutinga
Após tediosa viagem no precário bus da Gardênia (na qual quase ficamos na cidade errada, Macuco, após Lavras), saltamos eu, Laureci e Angelo na pacata Itutinga por volta das 4:30. Pacata em termos, pois a cidadezinha ainda festejava os “finalmentes” de seu carnaval interiorano, com direito a uma ruidosa moçada tomando sua “saideira”, muita sujeira espalhada nas ruas, barraquinhas de lanche encerrando expediente e palco de som já sendo desmontado. Com movimento além do esperado, nos dirigimos à praça principal onde encostamos num banco à espera do amanhecer e aguardar o restante da trupe: o Antonio, de BH, e o fotógrafo André Dib e a Cassandra, de Ribeirão Preto.

Nos acomodarmos feito mendigos em torno do banco em frente da igreja-matriz e, entre latinhas de breja espalhadas no chão, cabeceamos de sono enqto alguns locais passavam nos dirigindo um olhar curioso e um ventinho frio nos obrigou a trajar agasalhos àquela hora da madrugada. Assim q raiou a alvorada e a cidadezinha despertava pra mais um dia, nos dirigimos à padoca local onde tomamos nosso desjejum e aguardamos o povo, q só chegou de fato por volta das 9 da manhã! Itutinga esta localizada a 950m de altitude, é tb porta de entrada do Campo das Vertentes e embora esteja repleta de nascentes e belos cenários ainda não descobriu seu potencial turístico, sendo bem pouco visitada.

Com a trupe reunida imediatamente colocamos o pé-na-estrada, as 9:45! Percorremos a rua principal, dividindo o calçamento com carros de leite, até o extremo da cidade rumo a Pedra do Cruzeiro, marcado por antenas repetidoras no alto da Serra de Ouro Grosso. E uma vez ao sopé da mesma bastou seguir a sinalização q logo nos colocou no rumo certo, isto é, sentido Carrancas, ao sul. Pra minha surpresa a estrada (MG-451) agora esta asfaltada e foi por ela mesma q teríamos ainda q seguir por quase 6km!

Aos poucos deixamos a cidade pra atrás singrando suavemente os ondulantes e enormes descampados de pasto e capim, onde já podíamos avistar o enorme paredão da Serra de Carrancas, se elevando da paisagem mineira a quase 1500m de altitude, ao longe. O silencio é quebrado somente pela brisa fresca, pelo cantarolar dos pássaros, pelos veículos q se dirigem pra muvucada Carrancas e pelo nosso blábláblá ao colocar fofocas em dia. Felizmente começamos o dia bem dispostos e este trecho sacal de asfalto passou ate q despercebido. O dia amanhecera levemente nublado, mas àquela altura o céu se despira totalmente de nuvens ostentando um sol impiedoso martelando vigorosamente nossas cacholas! O maravilhoso firmamento, de variações em degradê de azul-claro, era apenas cortado sutilmente pelo risco alvo de um jato, à noroeste.

Cachu do Raulino e srra do Pombeiro
Hora e meia andando pelo asfalto e, logo após um aclive c/ vistas p/ espelho d´água da Represa de Camargo dando mostras de estiagem, temos uma descidona em direção ao som da 1ª queda d´água, a Cachu do Raulino, da qual já avistamos seu risco branco ao longe em meio à morraria. Chegando numa pequena casinha à beira de estrada, deixamos o asfalto e tomamos o caminho de terra à direita onde subimos um morro florestado, q nos refresca com sua agradável e aprazível sombra. Cruzamos uma porteira e seguimos por um largo trilho q vai ladeando o mesmo morro p/ leste.

Aqui deixamos a vereda e descemos a encosta através do alto capinzal até dar na encosta oposta, onde contornamos um pequeno brejo no qual elétricas libélulas zanzam aqui e acolá. Na seqüência, por sucessivos trilhos de vaca bordejamos o morrote sgte ate dar no sopé da cachu propriamente dita, as 11:40, cujo rugido de suas águas semi-escuras aumentava conforme nos aproximávamos.

A Cachu do Raulino é composta por dois degraus e impressiona pelo porte avantajado de suas quedas e enorme volume de água q despenca das mesmas, a mais de 30m rocha abaixo! Na prainha ao sopé do segundo nível de quedas havia um povo já acampado e uma pequena muvuca, q dispensamos. Através de uma escadaria cavada na rocha à direita da cachu, subimos até o 1º nível, onde um gde poção ao sopé da ruidosa queda d´água serviu de pretexto pra nosso primeiro pit-stop da pernada. Donos absolutos do pedaço, nos esprememos no exíguo espaço entre a escadaria e a encosta íngreme do paredão, e lá mandamos ver um lanche enqto os mais ousados ou deram tchibum no poção ou foram sentir de perto a força da água despencando na cachu.

Revigorados, as 12:30 retomamos a pernada subindo ao alto da cachu através de uma discreta picada em meio à mata, galgando suavemente o paredão direito da queda d´água. E num piscar de olhos nos vimos num agradável gramado às margens de outro gde poção de águas escuras. O sol e calor daquele inicio de tarde estavam de fritar miolos, e como em tese nosso cronograma estava mais q adiantado nos permitimos mais um momento de relax e tchibuns, embora tivéssemos dificuldade em encontrar alguma sombra já q o local é quase q totalmente aberto e desprotegido.

Dane-se! E nos acomodamos no sopé de alguns arbustos enqto uns se banhavam no rio da cachu (q pela carta corresponde ao Córrego do Quilombo), outros apenas descansavam no capinzal ou nos lajedos, e outros mais exigentes e firulentos iam atrás de água pra abastecer os cantis, embora aquela do rio fosse mais do q potável!

Aquele marasmo e relax estendeu-se ate quase 14:30, mas já tava na hora de colocar o pé-na-trilha! Meio q à contragosto, ajeitamos as cargueiras nos ombros e, após cruzar uma cerca, galgamos suavemente o capinzal à direita do rio ate dar na ampla crista q marca o alto da Serra do Pombeiro. Daqui bastou tomar rumo oeste, isto é, acompanhar a crista. Mais mudanças: onde antes havia um precário trilho arenoso cruzando a campina salpicada de cupinzeiros, agora havia uma precária estrada de terra singrando o alto da serra, cruzando uma vegetação ressequida de cerrado q se alternava com improváveis plantações de eucaliptos descaracterizando a paisagem de anos atrás.

Mas não demora e a tal estrada intercepta outra em perpendicular e logo nos vemos andando por um simplório carreiro q percorre o alto dos 1160m Serra do Pombeiro, de acordo o GPS do Angelo. Agora nossos horizontes de ampliam e vistas generosas surgem de ambos os lados, seja na forma do paredão onipresente da Serra de Carrancas à nossa esquerda, ou os mares de morros desnudos q dominam o trajeto entre Itutinga e Itumirim, à direita!

A partir dali a pernada se mantém naquele mesmo compasso, sempre palmilhando o capinzal e alguma vegetação de cerrado, eventualmente salpicado de afloramentos rochosos apontando pra nordeste, típicos do Espinhaço! O chão tb se encontra forrado de umas plantinhas rasteiras bem coloridas – de folhas lustrosas, avermelhadas e lilases, q parecem feitas de plástico – q destoam do gramado verde e do solo claro de quartzito.

As15: 30 cruzamos um decrépito cocho q dispõe de alguma água, mas passamos batido, nos mantendo sempre na crista da serra! Contudo, a esta altura o calor sufocante da tarde e o sol inclemente no rosto já se fazem sentir e qq sombra (embora rara) é motivo pra parada e descanso, inclusive a de uma torre de alta tensão!

Mais adiante a campina cede lugar a campos rupestres maiores, onde a presença de rochas maiores tende a nos atrasar ainda mais com sua bem-vinda sombra, as 16hrs! De fato, o calor esta insuportável e começo a sentir uma leve pontada na nuca por conta disto, mas q busco ignorar embora as breves (e constantes) paradas sejam mais q bem-vindas e me permitem literalmente desabar no chão, exausto. A Lau tb não deixava por menos nas paradas, pois tb passava mal com o calor daquele horário! Cruzada uma porteira e após bordejar um enorme maciço de afloramentos rochosos pela esquerda assinalando um amplo cume daquele alto de serra, podemos olhar por sobre o ombro e apreciar Itutinga, pequenina, à nordeste!

Mas após quase 15km andados naquele dia já era hora de pensar nalgum pto para definitivamente encostar o burro, e ele se traduz no enorme descampado em meio a gdes afloramentos rochosos q providenciavam certa proteção à eventuais ventanias.&nbsp, São 17:40 e é ali mesmo q jogamos as mochilas no chão, desfalecidos! Dali em diante a Serra do Pombeiro inicia uma descida recortada em morrotes menores rumo Itumirim, q não é nosso destino!

Montado o acampamento, o André e a Cá ainda se dão luxo de ir atrás de água num vale próximo enqto o restante dá inicio aos preparativos do indefectível ritual da janta, de preferência ainda com luz natural. E assim q o sol se debruça no horizonte, tingindo o firmamento de tons alaranjados pra dar lugar ao mais puro breu, nossos estômagos já estão mais do q forrados! Fogareiros ronronam enqto mastigamos nossas provisões q não fogem mto do bom e tradicional Miojo, mas q aquela altura é o nosso manjar dos deuses!

Mas assim q a noite cai no alto de quase 1200m da Serra do Pombeiro, tds já se encontram em suas respectivas tendas, prontos pro seu merecido sono dos justos, apesar do Angelo e Antonio ainda encontrarem forças pra tagarelar noite adentro. O dia sgte seria bastante puxado e era recomendável tds estarem recuperados daquele dia exaustivo! Por sua vez, a madrugada fora bem fresca e ventara razoavelmente, coalhada de estrelas, as únicas luzinhas destoando do breu noturno eram as de Itutinga, cintilando intermitentemente à nordeste.

Da Serra do Galinheiro até o “Beco”
Levantamos preguicosamente as 7hr da matina de domingo e tomamos calmamente nosso desjejum, apesar do atraso de nosso cronograma. O dia amanhece radiante, com o astro-rei surgindo vagarosamente no horizonte, lançando seus raios pela vastidão dos campos do Espinhaço! Levantamos acampamento logo a seguir, dando inicio à pernada por volta das 8:30hrs. Felizmente tds tiveram uma boa noite e estavam revigorados pra pernada daquele dia, q não seria das mais fáceis.

Deixamos o amplo topo da Serra do Pombeiro pra começar a descer suavemente suas encostas de pasto, visando claramente uma estradinha de terra no fundo do vale, quase aos pés do inicio da Serra do Galinheiro, ao sul. Pra isso temos q descer diagonalmente, buscando sempre pelos descampados menos íngremes. Lentamente, vamos perdendo altitude ao mesmo tempo q cruzamos afloramentos rochosos menores ate alcançar alguns trilhos de vaca indo na direção desejada, sinônimos de descida segura!

No caminho, o André delirava com a estupenda iluminação natural, q destacava maravilhosamente o brilho do capinzal q agora dançava ao sabor duma eventual e leve brisa que proporcionou ótimas imagens registradas pela sua câmera frenética!&nbsp, Olhando à oeste, após a continuidade recortada da Serra do Pombeiro podíamos vislumbrar perfeitamente os contornos abaulados do Morro da Baleia, acidente geográfico q realmente lembrava uma cachalote no horizonte!

Navegando sempre visualmente, as 9hrs atravessamos um capão de mata contendo água puríssima q abastece provisoriamente nossos cantis e refresca nossa goela. Dali segue-se uma sucessão de suaves morrotes (sem trilha) ornados de altos cupinzeiros ate alcançar finalmente um trilho maior, já bem mais abaixo, q vai de encontro a estradinha desejada. Antes, porem, cruzamos mais um capão de mata e chapinhamos através de um riachinho raso e logo nos vimos pisando na estradinha, as 10:30!

Mal chegamos na dita cuja e a Cassandra foi de encontro a primeira casinha do caminho, pois estava atrás de um telefone onde pudesse dar noticias à sua prole. A fazendinha em questão atendia pelo nome de Faz. Pombeiro, onde me recordo ter conhecido Dna Fiinha e Seu Valdir, simpáticos locais prontos prum dedo de prosa, dos quais aparentemente não vi sinal! Entretanto, qdo a Cassandra retornou após ter conseguido sua tão almejada ligação, contou q o povo lá dentro se recordou “do boliviano mochilado” q aparecera anos atrás por lá!

Uma vez na estrada bastou acompanhá-la durante um tempo, alternando suaves sobe-e-desces pela morraria e alguns mata-burros, de modo a ficar cada vez mais próximos das encostas da Serra da Mata do Coelho (q na carta consta como Serra do Galinheiro), q nada mais é que a cadeia de morros próximos e visíveis, à esquerda. Algumas bifurcações na estrada, mas aqui a navegação é puramente visual, bastando tomar sempre o ramo da esquerda. Este trecho de estrada q pode ser tedioso e sacal tb teve seus atrativos, seja na forma de belos córregos cruzados como nos coloridos tucanos q pontilhavam o arvoredo às margens da mesma.

Deixamos a estrada assim q a mesma tangenciou uma rústica fazendinha ao sopé da Serra do Galinheiro, pra depois se afastar sentido noroeste, rumo as Cachus das Andorinhas e das Aranhas, atrações locais situadas em propriedades particulares. Tomamos então uma picada q nos levou ao casebre principal e dali bastou acompanhar outra picada menor q galgava lentamente as encostas desnudas da serra almejada. Apesar da baixa declividade, novamente o desgaste maior resultou do sol, do calor seco e sufocante daquele horário!&nbsp, Mas após passar uma cerca (elétrica!?) e saltar uma muretinha de pedras, bastou tomar uma discreta picada q visivelmente percorria em nível a encosta direita da Serra do Galinheiro, em meio a uma retorcida e ressequida vegetação de cerrado, com destaque a inúmeros pequizeiros pelo caminho!

Depois de tomar umas bifurcações equivocadas q não levavam a lugar algum num baixo arvoredo, tomamos a q sempre se mantinha em nível, à esquerda, sempre costeando a serra pela direita! E enqto avançávamos ao som de muita água correndo logo adiante, àquela altura soava como musica aos nossos ouvidos! Dito e feito. Não demorou e a picada desembocou no alto de uma piramba de pasto e a visão q descortinou-se aos nossos pés imediatamente nos revigorou naquele horário de sol inclemente do 12:30! O ruidoso Ribeirão do Maroto serpenteava mansamente o vale raso q havíamos alcançado, em meio a belos e convidativos&nbsp, poços e cachus q fizeram nossos olhos brilharem diante aquela visão paradisíaca, um verdadeiro oasis em meio ao causticante cerrado!

Descemos a piramba aos ziguezagues e cruzamos cautelosamente o riacho até dar na outra margem, onde largas lajotas e prainhas fluviais dispunham ainda de boa e refrescante sombra e foi lá mesmo que jogamos as mochilas pra nos presentear com um longo e merecido pit-stop de descanso, lanche e banho! O Ribeirão do Maroto nasce num estreito selado no alto da Serra do Galinheiro e despenca montanha abaixo formando varias cachus. A maior delas, a Cachu do Maroto, estava logo acima de onde nos havíamos instalado, era bastante larga e terminava num poçinho ligeiramente raso.

No entanto, onde estávamos já estava de bom tamanho, pois alem das corredeiras e cachus próximas, descendo pela margem do riacho uns 20m havia um enorme piscinão q boa parte dos integrantes da trupe fez questão de utilizar pra fins auto-refrescantes! Pra completar a paisagem daquele belo vale, uma revoada de borboletas de um azul vivo e beija-flores colorem o ambiente de maneira singular.

Continua…
Jorge Soto
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http://jorgebeer.multiply.com/photos

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Sobre o autor

Jorge Soto é mochileiro, trilheiro e montanhista desde 1993. Natural de Santiago, Chile, reside atualmente em São Paulo. Designer e ilustrador por profissão, ele adora trilhar por lugares inusitados bem próximos da urbe e disponibilizar as informações á comunidade outdoor.

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