No Limite do Brasil: O Parque de Tumucumaque

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Esta talvez seja a região com a maior biodiversidade do Brasil, um paraíso amazônico onde o homem mal chegou. Abriga nosso maior Parque Nacional, onde pontões rochosos da modesta cordilheira que o limita emergem por cima do denso mar verde da floresta tropical

Se você olhar o mapa do Brasil, notará que, na sua divisa norte, existe uma linha sinuosa entre o Brasil, a Venezuela e as Guianas. Há duas grandes áreas onde a fronteira forma um bolsão norte. Na central, fica a Serra de Pacaraima, que contém o Monte Roraima. Na oriental, a Serra do Tumucumaque, que limita o maior PN brasileiro, assunto deste artigo.

O Brasil possui cinco PN amazônicos fronteiriços com outros países. O do Cabo Orange é vizinho à Guiana Francesa e possui um ambiente costeiro marinho. O das Montanhas do Tumucumaque faz nossa divisa com a Guiana e o Suriname. Os PNs do Pico da Neblina e do Monte Roraima estão na fronteira com a Venezuela, abrigando nossas mais altas montanhas. A do Serra do Divisor separa o Acre do Peru. Exceto o primeiro, são recobertos por densa floresta amazônica.

Mapa de Relevo do Escudo das Guianas (Fonte: Wikipedia)

Em toda a Região Norte, as reservas naturais costumam ser grandes e recentes. As cinco acima foram criadas a partir da década de 1980 e têm em conjunto a incrível área de 8 milhões de hectares. Mas Tumucumaque é de todas a maior, com 3,8 milhões de ha (algo como um quadrado de 200 km de lado), na realidade a maior unidade protegida de floresta tropical no mundo. Fica praticamente toda no Amapá.

O Amapá é considerado o Estado mais bem preservado do Brasil, com cerca de 95% de sua área bem conservada. Essa feliz situação é explicada por sua posição distante, já na nossa divisa norte; por sua reduzida população, 80% concentrada nas vizinhanças de Macapá; pela relativa pobreza de seus terrenos, recobertos por vegetação arbórea ou por cerrado aberto; e pela destinação de 70% do seu território para áreas de proteção e reservas indígenas.

O Amapá era uma capitania durante o período colonial, integrando depois a Província do Grão Pará. Quando foi criado em 1943, possuía apenas três municípios. O Amapá foi palco desde o século XVI até o XIX de disputas territoriais com países europeus, principalmente com a França. Foi abalado pela Cabanagem, revolta social no início da Independência, e pelo Contestado, quando tropas francesas invadiram o Brasil.

Mapa da Área de Litígio com a França no Amapá

E esta é uma história interessante. Os franceses, estabelecidos ao norte na Guiana, reivindicavam para si o enorme território entre os Rios Oiapoque e Araguari – existe algo como 450 km entre eles. Esta região foi chamada de Contestado, tendo dois representantes, um francês em Caiena e um brasileiro em Belém. Porém, a descoberta do ouro no meio da área aguçou o apetite francês, e ela foi invadida.

Francisco Cabral, à frente de um punhado de homens mal armados, conseguiu matar o comandante francês e repelir suas tropas – o que não impediu um massacre da população civil brasileira em 1895. Cinco anos depois, a arbitragem internacional deu ganho de causa ao Brasil. Embora sua participação seja até hoje discutida, ele é chamado de Cabralzinho, o Herói do Brasil. Mas já se disse no Amapá que é por culpa dele que a gente não é francês.

Se o Brasil tivesse perdido a causa, seriam subtraídos 26 milhões ha, desde o litoral até o interior de Roraima. O país não mais faria divisa com o Suriname e a Guiana Francesa. Foi o Barão do Rio Branco quem convenceu o árbitro suíço, num esforço de praticamente um homem só contra uma legião de especialistas franceses.

Os principais movimentos migratórios foram motivados pelo garimpo do ouro – e, em menor escala, pela extração da madeira, da castanha e da borracha. Afrodescendentes, sejam os quilombolas fugidos ou os crioulos residentes, ocuparam a região a partir da Guiana. Ao contrário, os nordestinos vieram pelo sul.

Como você pode imaginar, as populações indígenas foram sendo reduzidas ou exterminadas. Restaram os Waiãpi e os Wayana, que se refugiaram na floresta e foram esquecidos. Existem hoje duas reservas indígenas e a população é estimada em 5 mil índios.

Localização do PN Montanhas do Tumucumaque, AP (Fonte: IcmBio)

O PN Montanhas do Tumucumaque (PNMT) foi estabelecido pelo Governo em áreas públicas (principalmente do INCRA) em 2002, já tendo, portanto, nascido desapropriado. Devido à sua posição extrema, é quase totalmente abrangido pela faixa de fronteira de 150 km. Com seu enorme tamanho, se estende por seis municípios, sendo um deles no Pará, que responde por apenas 1% do total da área. Todo o restante fica no Amapá.

O acesso regular ao PNMT é feito a partir da vila de Serra do Navio, distante 200 km da capital. Mas ele pode também ser acessado pelo sul (Laranjal do Jari), pelo leste (Calçoene) e pelo norte (Oiapoque). Entretanto, não existem acessos rodoviários até ele – você só chegará por barco ou avião. Em qualquer caso, tomará boa parte de um dia de voadeira. E, se seu pequeno avião for muito longe, terá de reabastecer numa dessas horríveis pistas de pouso improvisadas.

O acesso pelo sul é muito interessante, devido ás corredeiras no Rio Jari. O Baixo Jari vai da foz até a Cachoeira de Santo Antônio e o Alto Jari começa a partir da Cachoeira de Macaquara. Ambos são navegáveis. Mas o Médio Jari, nos 250 km entre as duas cachoeiras, é encachoeirado e de difícil navegação. São necessários 10 dias para transpor este trecho e outro tanto para chegar às suas cabeceiras.

Cachoeira do Desespero no Rio Jari (Fonte: Zig Koch)

A entrada por Serra do Navio sobe o belo Rio Amapari, de águas velozes com afloramentos rochosos. Atravessa inúmeras comunidades ribeirinhas, ao longo de uma FLOTA (ou seja, uma Floresta Estadual) que está sendo gradualmente abandonada devido à precariedade da navegação. A única estrutura do PNMT, chamada de Jupará, fica às margens do Amapari. Você levará boa parte de um dia para chegar lá.

O acesso norte ocorre pelo belo e perigoso Rio Oiapoque, junto a áreas de garimpo do lado francês. De novo, você precisará de quase um dia para atingir Vila Brasil, a última comunidade brasileira às suas margens. Ela é frontal à comunidade francesa de Camopi. Existe mais uma vila rio acima, chamada Três Saltos, mas está no lado francês.

Não só a estrutura do Parque é limitada, como as suas trilhas são poucas e curtas. Inseridas na floresta, não dispõem de belos visuais. Os pontões que tanto chamam atenção para o Parque são dispersos e distantes, não sendo praticável a sua visitação – a menos de uma expedição por semanas na selva. Assim, toda a exuberância do Tumucumaque é meramente contemplativa.

Devido às suas terras pobres, ao seu relevo ondulado e à escassez do ouro em tempos recentes, o PNMT sofreu poucas invasões. Os dois locais que concentravam garimpeiros eram a Vila Brasil e a Ilha Bela, ambos no Oiapoque. Outras bacias ocupadas foram as do Cassiporé, do Lourenço e do Jari. Felizmente, não são reportados incêndios, embora existam atividades ilegais de caça, pesca e corte de madeira.

PN Montanhas do Tumucumaque, AP (Fonte: Divulgação)

Mas esta situação pode ser transitória: há dezenas de milhares de garimpeiros na Guiana e no Lourenço, fora dos limites do Parque. Estes e outros tantos podem rapidamente voltar-se para o Tumucumaque, caso alguma ocorrência seja descoberta. É sempre muito difícil conter os garimpeiros. Além do uso tóxico do mercúrio, sua ação, feita na região à base de desmonte das encostas dos igarapés, é altamente danosa.

O PNMT é circundado por um gigantesco cinturão de áreas de preservação e territórios indígenas. Constituem um dos maiores mosaicos de áreas protegidas do mundo, superando 30 milhões de ha em terras brasileiras, na sua maior parte contínuas. Existem três terras indígenas próximas, ocupadas principalmente pelas tribos Waiãpi, Aparai e Wayana. As demais são basicamente Florestas Estaduais e Nacionais.

Mosaico do PN Montanhas do Tumucumaque, AP (Fonte: IcmBio)

Lembro que, do lado francês, existe há pouco mais de dez anos o Parque Amazônico da Guiana, com nada menos do que 3,3 milhões de ha. No bordo do Oiapoque – que forma sua divisa sul, da mesma maneira como faz o limite norte do Tumucumaque – residem três povos indígenas.

Ele é habitado por uma população de talvez 10 mil garimpeiros, que exploram o ouro francês e mancham de barro o até então límpido Oiapoque. Aliás, é lamentável o aspecto turvo do Cassiporé bem ao sul, causado pelos desmoronamentos de seus barrancos devido ao garimpo.

O Escudo das Guianas, que ocupa nada menos do que 1/8 da superfície do Brasil, corresponde às rochas das mais antigas do planeta, originadas no Período Arqueano, na média de 3 bilhões de anos atrás, praticamente quando surgiu a vida na Terra. Estes granitos, gnaisses, quartzitos e xistos antiquíssimos foram retrabalhados durante o Proterozoico (há cerca de 1½ bilhões de anos) e sujeitos a vulcanismos e sedimentações. Mais recentemente, surgiram os aluviões e as coberturas sedimentares nas planícies dos rios, que é o que basicamente você hoje avistará.

A região apresenta relevo ondulado, normalmente baixo, exceto nas serras como o Tumucumaque a oeste, a Uassipein no centro e a Lombarda a leste. Destas, a mais interessante e elevada é a primeira, devido à existência de aforamentos sob a forma de surpreendentes pontões (à semelhança do Pão de Açúcar) que emergem acima do dossel amazônico. Mas não existem propriamente montanhas e as serras não são nada cênicas. Costuma-se dizer que as montanhas do Tumucumaque só existem no nome do Parque.

Localização das Serras Tumucumaque e Lombarda

A rigor, o Tumucumaque apresenta apenas três blocos serranos vagamente contínuos, um oriental e outro central próximos entre si e um ocidental, na divisa do Estado. O ponto culminante estaria a 650m, uma altitude dificilmente encontrada nas suas serras. Mas o PNMT também apresenta grandes planícies, em especial na bacia do Jari.

Estão no interior do Parque as nascentes de todos os principais rios do Amapá, a começar pelo Jari, que é o único que flui para o Amazonas. Os rios a oeste deságuam todos no Jari; na região leste, correm para o Oceano, como é o caso do Araguari. Isto também ocorre com o histórico Oiapoque ao norte. Não são rios pequenos: o Oiapoque tem quase 400 km e o Jari, aproximadamente o dobro. A mais famosa cachoeira é a do Desespero, no médio Jari, logo acima da Macaquara.

A vegetação é formada principalmente por uma densa floresta de terra firme. Normalmente apresenta árvores de alto porte, como angelins, louros e maçarandubas, acima de 40m. Eventualmente, aparecem espécies mais baixas, como faveiras e quarubas. Nos afloramentos rochosos surgem gramíneas, carrascos, cactos e bromélias.

Rio e Floresta no PN Montanhas do Tumucumaque, AP (Fonte: Zig Koch)

A mata do Tumucumaque é simplesmente original e perfeitamente conservada: dosséis elevados, altas árvores emergentes, enormes troncos retos, solo limpo – uma incrível biodiversidade, com espécies endêmicas e desconhecidas.

Esse ambiente abriga uma autêntica Arca de Noé, com uma fauna de grande diversidade e algum endemismo. Foram encontradas espécies novas, raras ou desaparecidas entre peixes, anfíbios, serpentes, aves e primatas. Dentre elas, o arrogante gavião real, o uirapuru de belo canto, o hoje raro veado branco ou campeiro e o valente cachorro vinagre. São amostras de um paraíso amazônico que está desaparecendo no Brasil.

No interior do PNMT praticamente não existe ocupação humana – apenas as comunidades de Vila Brasil, Ilha Bela e Camopi (localizada na França), não ultrapassando 500 pessoas. São ligadas principalmente ao garimpo, relativamente ao comércio e limitadamente à agricultura ao longo do perigoso Oiapoque, na divisa com a Guiana.

As vilas à volta do Parque, como Laranjal do Jari, Serra do Navio e Calçoene, são ainda muito limitadas, com um aspecto um tanto pobre, parecendo ameaçadas pela floresta à sua volta. Assim, a população natural talvez seja aqui felizmente maior do que a humana.

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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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