Nossas Serras (10/25): Caiapó

0

Mesmo sendo goiano, você ficará surpreso ao saber que a Serra do Caiapó tem cerca de 450 km, equivalente à tão conhecida Mantiqueira. Talvez você até a tenha atravessado sem perceber, ao longo dos grandes chapadões que tornam distantes seus visuais mais arrojados, como os pináculos, colos e corcovas esculpidos pelo tempo no frágil arenito.

A Serra do Caiapó está geologicamente contida na imensa Bacia do Paraná, que ocupa o centro-leste do Brasil, desde o Mato Grosso até o Rio Grande. É uma depressão em forma oval no sentido norte-sul, com o grande rio fluindo no seu centro, equivalente a quase 20% da área do Brasil.

Mapa do Relevo de Goiás (Fonte: www.slideshare.net)

Formou-se em períodos muito remotos, associados à convergência (colisão de placas) do continente ancestral Gondwana, que unia a América a África. Mais tarde, a região foi sendo retrabalhada, com uma série de dobras, falhas e fraturas, que modelaram seu relevo em cuesta. Este nome significa apenas encosta em espanhol e é usado para representar as serras que apresentam um lado escarpado e outro suave. Localiza-se no sudoeste de Goiás.

No caso, a face escarpada está normalmente situada no lado norte e a suave, no sul. É lá que ficam os chapadões agrícolas, desde Mineiros até Montividiu. O bordo mais elevado oscila de 650 a 1.000m e o mais baixo, de 500 a 600m. As regiões planas são ocupadas com a agricultura de grãos e as acidentadas, com a pecuária bovina. Os desníveis das escarpas são razoáveis, algo como 250 a 300 m.

Esquema da Cuesta do Caiapó, GO (Fonte: www.funape.org.br)

Há uma maneira visual e fácil de você perceber essa relação de cuesta. Se você avançar pela rodovia BR 364 vindo de Mineiros no rumo da pequena Portelândia, terá uma surpresa logo que ultrapassar a vila. Perceberá exatamente o forte desnível da escarpa que mergulha à esquerda na região do Buracão e avistará a seguir à direita as esparsas formações em arenito com os perfis alcantilados do chamado Pinga Fogo se diluindo na distância. Estas são as duas faces opostas da cuesta – é assim a Serra do Caiapó (ver mapa).

Mapa Esquemático da Serra do Caiapó

A Serra corre no sentido SW-NE por impressionantes 450 km, porém com uma trajetória curiosa: seus dois trechos extremos a oeste e leste têm uma orientação S-N e seu trecho central, W-E. Entretanto, apresenta também a oeste um outro arco, no sentido norte de Rondonópolis.

Começa a oeste do PN das Emas, o único de toda esta região, com 132 mil ha. E termina ao sul da vila de Iporá, logo depois da região agrícola de Montividiu. Ao sul, o Caiapó é continuado pela Serra de Maracaju e, ao norte, pela Serra dos Pirineus – assim, pertence a um imenso sistema serrano. Falarei em seguida destas duas formações.

Vista da Serra do Caiapó, GO (Fonte: www.panoramio.com)

Assim como a Bacia do Paraná, é feita de rochas sedimentares – acidentados arenitos vermelhos, que se depositaram por milênios. Como o arenito tem formas mutáveis associadas à erosão, costuma apresentar perfis muito expressivos, em especial numa serra mais ou menos contínua.

A serra abriga fósseis, em especial da família do mesosauro – réptil que habitou a região quando era inundada, 250 milhões de anos atrás.

A maior das cidades do Caiapó é Mineiros, com 60 mil habitantes – as demais vilas não passam de 20 mil. Existe ao norte, mas já além do Caiapó, a cidade de Rondonópolis, de mais de 200 mil habitantes. A região foi colonizada pelos pecuaristas mineiros, seguidos pelos agricultores gaúchos.

Pelo menos em quatro locais os visuais são impressionantes. Em Portelândia você encontrará uma série de pináculos, paredes, pontões, corcovas e chapadões que compõem a fantástica região do Pinga Fogo, acontecendo logo depois da forte descida correspondente à escarpa do Caiapó.

Região do Pinga Fogo de Portelândia, GO (Fonte: mineiros.com)

É uma região relativamente grande, com talvez 40 km entre seus acidentes geográficos extremos – a Serra do Pão de Açúcar (935m) a oeste e a Pedra do Bauzinho (865m) a leste. Entre elas, aparecem em sucessão os mais variados perfis, dando ao conjunto um belo desenho movimentado e desafiador.

Depois, logo ao sul de Caiapônia, você avistará a cênica formação que vai da Serra das Torres à Serra Azul e ao Gigante Adormecido. Este espetacular maciço arenítico tem talvez 30 km de extensão e seu ponto culminante está a 1.010 m.

Gigante Adormecido, Caiapônia, GO

Ele é circundado por formações serranas num raio de talvez 20 km – como a Serra do Pântano e o Morro da Capela (ver mapa). O ponto culminante de toda a região está próximo, a cerca de 1.050m na Serra do Chapadão.

É interessante como, bem ao norte já no rumo de Rondonópolis, o visual próximo de Caiapônia que acabei de descrever é repetido, com paredes e pináculos esculpidos de forma expressiva no arenito vermelho. Este é o terceiro trecho importante, um tanto distante dos demais.

Serra das Torres, Caiapônia, GO

Por fim, o trecho central do Caiapó, que corre entre Caiapônia e Montividiu num sentido W-E, é aquele em que a escarpa da serra é mais definida. Entretanto, não ultrapassa 100 km de extensão. As paredes em arenito avermelhado mergulham ameaçadoras no front da serra, recobertas por muita vegetação. A rigor, antes e depois, o Caiapó é apenas uma longa chapada (com exceção do trecho no rumo de Rondonópolis).

O conjunto das serras no Caiapó costuma ser desorientador, pois as formações não se encontram alinhadas, correndo por distintas direções. Isto acontece ao sul de Caiapônia e ao norte de Montividiu, abrangendo os demais 350 km da serra.

Mas o visual do Caiapó é um tanto pobre, pela presença de raras paredes contínuas, pela dispersão das formações serranas e pela existência dos monótonos chapadões, por onde correm as intermináveis estradas.

A vegetação é basicamente o cerrado, com algumas matas ciliares, cada vez mais ameaçada pelas áreas agrícolas e pastoris. Mas reconheço que ela conserva ainda sua exuberância.

PN das Emas, Mineiros GO (Fonte: lavdecor.com)

A região é atravessada por várias nascentes de frias águas cristalinas, que ficam ocultas detrás das serras, abaixo dos campos ou dentro das matas. Sempre me surpreende como o arenito e o cerrado contêm pequenas joias de frescor escondidas dentro de sua natureza ressequida.

O Araguaia é a grande bacia da região. Nasce próximo às divisas do Parque das Emas e, a partir daí, corre sempre para o norte, no seu destino amazônico, até desaguar no Tocantins, pouco mais de 2 mil km depois. É um rio piscoso, de águas limpas e areias claras, tipicamente largo e raso.

Mas como o Caiapó corre para o oeste e o Araguaia para o norte, apesar de nascerem junto, eles logo se afastam. As escarpas da serra a rigor dividem os cursos d´água entre as bacias amazônica ao norte no seu front e platina ao sul no seu reverso – respectivamente, o Araguaia e o Paranaíba.

Compartilhar

Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

Deixe seu comentário