Nossas Serras (14/25): O Roncador

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Você conheceu nas colunas anteriores duas importantes serras do Centro-Oeste: Maracaju e Caiapó. De certa forma, elas se sucedem num sentido norte-sul. O Roncador, por sua vez, é o prosseguimento do Caiapó a oeste, dele separado pela depressão do Araguaia. Veja agora como ele se desenvolve.

Mapa do Relevo do Mato Grosso (Fonte: Embrapa)

A Serra do Roncador tem algumas semelhanças com o Caiapó: são ambas formadas pelo arenito avermelhado e recobertas pelo cerrado um tanto áspero – e mostram-se ambas desorientadoras por sua descontinuidade.

O Roncador tem uma geologia moderadamente antiga, constituído por rochas datadas de 400-450 milhões de anos. Nelas não houve forte ação tectônica, tendo sido formadas por sedimentação e deposição ao longo de períodos longos e diversos.

Mirante na Serra do Roncador, Barra do Garças, MT

Ele é uma cordilheira divisora entre as bacias do Araguaia a leste e do Xingu a oeste. Estende-se por 800 km desde Barra do Garças na divisa com Goiás até Vila Rica no limite do Pará. Isto significa que atravessa todo o bordo leste do Estado do MT, de sul a norte, neste aspecto assemelhando-se à Serra de Maracaju no vizinho MS (ver mapa).

O Roncador faz a articulação entre o Brasil Central e o Amazônico. Ao sul, ele participa das formações sedimentares em arenito, comuns ao nosso Centro-Oeste. Porém, exatamente na divisa com o Pará, passam a surgir rochas cristalinas, de origem diferente, que integram a bacia amazônica. É ali que ele termina.

O trecho mais interessante pertence a seu exato começo, em Barra do Garças. Ele envolve esta cidade a oeste e norte, com agitadas corcovas recobertas de vegetação, atingindo altitudes interessantes. Seu ponto mais elevado fica nos 15 km da Serra do Taquaral, a 780m. Ele é aqui chamado de Serra Azul.

Mas, ao prosseguir cerca de 100 km para o norte, o Roncador passa exibir um aspecto diferente, agora com longas escarpas sinuosas por algo como 30 km. Trata-se do espetacular Vale dos Sonhos, em cujos chapadões interiores está seu ponto culminante, a 935m.

Sua feição mais característica é a escarpa do Bico de Pedra, terminado na agulha chamada de Dedo de Deus, uma visão notável à beira da Rodovia BR-158 que o atravessa. Pela primeira vez, a serra é aqui chamada de Roncador, nome que resultou do barulho do vento por suas frestas.

Bico de Pedra e Dedo de Deus, Roncador, Barra do Garças, MT

Foi nesta região que um século atrás Percy Fawcett iniciou sua expedição. Este inglês aventureiro, que teria inspirado o personagem de Indiana Jones, pretendia achar um novo Eldorado na Amazônia. Chamou-o de a cidade perdida de Z. Mas quem se perdeu na selva foi ele, fato cercado desde então por muitas lendas e buscas. Foi lá também que começou a famosa expedição ao Xingu dos irmãos Villas Boas – e eles encontraram junto aos índios Kalapalo o que teriam sido os ossos de Fawcett.

O Coronel Percy Fawcett (Fonte: Divulgação)

A partir deste começo, o Roncador aponta para o norte, inicialmente a oeste e depois a leste de Nova Xavantina. Porém suas altitudes tornam-se modestas, variando de 300 a 500 m, ao longo das imensas reservas xavantes banhadas pelo Rio das Mortes, que acompanham o seu caminho.

Orlando Villas Boas e a Ossada de Fawcett (Fonte: Divulgação)

Dizem os etnólogos que fica aqui o antigo lar dos xavantes, quando 1½ séculos atrás eles fugiram da violência colonial para a área de Wedezé. Desde então, ocupam essas terras, que hoje reivindicam. Na minha experiência, foram 250 km um tanto frustrantes, de Água Boa a Canarana, devido ao perfil pouco definido da serra, com alguns poucos chapadões.

Serra do Roncador em Território Indígena, Ribeirão Cascalheira, MT (Fonte: James R. Welch)

Porém, depois de Ribeirão Cascalheira, o Roncador parece apenas um discreto sopé e até mesmo um mero divisor de águas, pois suas elevações não são mais perceptíveis, oscilando entre apenas 300 e 400m de altitude por algo como mais 250 km. Mais ao norte, ele se dilui nas muitas formações dispersas da Serra do Tapirapé por cerca de 100 km.

Serra do Tapirapé em Confresa, MT

É em Vila Rica que ele finalmente volta a exibir relevos interessantes, nas pequenas Serras da Cobrinha e de São Marcos e, sobretudo, na longa Serra do Urubu Branco ao sul, com surpreendentes 630m. É aqui que cessa o arenito e começa o novo território da rocha granítica, onde o Roncador termina, já na divisa com o Pará.

A grande bacia do Roncador é o Araguaia (e seu tributário Rio das Mortes). Você atravessará este último em Nova Xavantina e nunca estará muito distante do primeiro. Poderá visitá-lo em localidades como Araguaína, São Félix, Barreira do Campo e Conceição do Araguaia. Eu me impressionei ao longo do caminho como o Brasil é hoje uma grande fazenda, com os traços do cerrado original menos visíveis ainda em MT e BA do que em GO e MS. A fauna é a usual, com mamíferos de porte e muitos peixes, répteis e aves.

Serra dos Gradaús em Santana do Araguaia, PA

Há um único e inexpressivo parque natural diretamente neste longo caminho: o PE da Serra Azul em Barra do Garças (11 mil ha). Além dele, existem na Ilha do Bananal o PN Araguaia (275 mil ha estimados) e o PE do Cantão (90 mil ha), ambos nada ou pouco visitados.

Mas há uma quantidade de territórios indígenas, suponho que meia dúzia, habitados por algo como 15 mil índios xavantes, caiapós, carajás e javaés. Os territórios a eles conferidos alcançam inacreditáveis 6 milhões de hectares. Acredite, isto equivale a ¼ da área de todos os nossos parques nacionais.

Vereda de Buritis, Serra do Roncador, MT (Fonte: Divulgação)

Afora os embates contra os indígenas durante os 2½ séculos desde a colonização e os movimentos guerrilheiros durante a ditadura, esta foi uma região sem eventos históricos de âmbito nacional. Sua maior cidade é exatamente a modesta Barra do Garças, por onde este relato começou.

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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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