Nossas Serras (16/25): Carajás

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Eu queria escrever sobre serras que ligassem o Centro-Oeste à Amazônia e achei que o Roncador seria a mais relevante. Porém, ao fim da sua rota, passei por Carajás, que visitei no ano seguinte. Ela é aqui incluída não realmente por sua situação geográfica e sim por sua importância econômica. Mais tarde, você lerá uma outra coluna sobre este mesmo assunto, porém focando a reserva, não a serra.

A geologia é como o inconsciente da natureza, esconde e preserva o passado e sugere o mundo que vicejará acima dela. Começo a falar da Serra dos Carajás exatamente por sua geologia peculiar. Ela resultou de um rifte abortado. Um rifte é uma fratura em que as duas bordas do terreno se afastam em direções opostas, gerando uma espécie de vale profundo. Esse evento ocorreu quando o craton amazônico se abriu.

Bacia Amazônica entre as Plataformas das Guianas e do Tapajós (Fonte: Maria Glícia Coutinho)

Cratons são regiões muito antigas, que permaneceram estáveis por tempos longuíssimos, algo como ½ bilhão de anos. Quando isso acontece, suas superfícies costumam ser desgastadas pela erosão ao longo das eras. Então, seu relevo normalmente se apresenta como planaltos baixos ou mesmo depressões. Assim foi com o chamado craton amazônico (ver mapa), que foi invadido pelas águas marinhas.

Mapa do Relevo da Serra dos Carajás no PA (Fonte: IcmBio)

Ao invés de ser soterrado pela abertura do rifte, o material do vale foi sendo lentamente trabalhado por precipitação química num ambiente de águas rasas e calmas e, depois, foi soerguido a 600-700m. Devido á atividade vulcânica, nelas agiu uma grande quantidade de fumarolas ativas, que mineralizaram uma gigantesca camada de minério muito puro de ferro, bem como muitos outros. Foram eventos antiquíssimos, do Período Arqueano, há mais de 2½ bilhões de anos.

A Bacia Amazônica só se formou muito depois, com sucessivos tectonismos, drenagens e sedimentações a partir de 200 milhões de anos atrás. O ferro do Quadrilátero Ferrífero mineiro tem a mesma idade de Carajás e a mesma origem vulcânico-sedimentar. Mas, diferentemente, resultou de uma ação metamórfica e não química. Partindo ambos do mesmo mineral, nele foi formado o itabirito, por oposição à hematita de Carajás. A área da Província de Carajás supera o dobro do Quadrilátero de Minas.

Clareira de Canga de Carajás, PA (Fonte: Divulgação)

Há um gigantesco projeto da Vale que se iniciou meio século atrás e cuja produção inicial ocorreu há 30 anos, para extrair e transportar o minério de Carajás – um minério rico, de fácil extração e de baixo custo. Você conhece essas estatísticas grandiosas: a maior mina do mundo, o maior trem de carga, a segunda maior mineradora global. As primeiras ½ bilhão de toneladas foram produzidas em quinze anos; as segundas, em sete e as terceiras serão em apenas três.

Porém, em algo como 50 ou 80 anos, todo o minério terá ido para a China, e o buraco ficará no Brasil. A Província de Carajás é também rica numa gama de minerais, forjados pela atividade vulcânica, como manganês, cobre, ouro, prata e até urânio. Portanto, prepare-se para mais buracos. É até mesmo estranho que lá exista uma FLONA, criada 20 anos atrás, mas que só começou realmente a funcionar em 2005.

Lagoa na FLONA de Carajás, PA (Fonte: João Rosa)

Carajás é a maior das serras da região, embora não a mais alta. Estende-se por 160 km num sinuoso percurso E-W, com largura de 60 km. É contida pelo Araguaia a leste e o Xingu a oeste e por sistemas serranos a norte e a sul. Seu relevo é bastante agitado, especialmente ao longo das porções abruptas dos vales do Itacaiunas e seu afluente Parauapebas, rios da bacia do Tocantins. Eles são separados pelo espigão N-S da Serra.

Existem platôs ondulados com encostas íngremes e áreas planas, curtas cristas com morros isolados e baixas planícies fluviais. Na sua porção central, a serra pode lhe parecer desorientadora, devido a suas muitas cristas – é nela que fica seu espigão. A altitude varia desde cerca de 150m a mais de 600-700m. Os pontos culminantes estão a 800m na Serra Norte e 900m na Serra Sul.

Nas terras baixas e nas áreas escarpadas, você encontrará matas abertas e ralas com presença de cipós que dificultam o avanço. Já nas regiões montanas e nos altos platôs predomina a floresta densa, de solos limpos devido à menor iluminação.

Vista da Serra dos Carajás, PA (Fonte: Divulgação)

Mas há também clareiras naturais recobertas com a canga do ferro, onde a vegetação torna-se escassa. Aliás, foram elas que revelaram o potencial mineral da região, para o primeiro geólogo que as avistou de avião. É uma visão impressionante, pois o minério simplesmente emerge da terra. Essa região concentra uma série de lagoas de porte médio, que parecem estranhas diante da aridez da natureza.

O clima e o solo contribuem para uma das maiores biodiversidades do planeta. A fauna da floresta é a habitual da Amazônia, com presença de felinos, macacos, antas e pacas, veados, aves variadas (inclusive o gavião real), muitos morcegos, répteis e insetos. Porém os campos rupestres das cangas, devido aos relativos isolamentos e às condições difíceis, são ambientes de mais alto endemismo vegetal e animal – a exemplo do sapo de colorido mimético.

A visão mais impressionante foi a monumental cratera de quase ½ km de profundidade da Mina Norte, onde as entranhas da terra são escavadas em patamares e transportadas em enormes caminhões para saciar a fome de progresso chinesa. E, lá no fundo da cratera, brilha um pequeno poço de água turva, que um dia talvez transforme este inferno num lago.

A região foi habitada desde 8 mil anos atrás, sendo considerada a mais antiga ocupação da Amazônia. Os carajás e os caiapós eram os índios lá residentes quando os brancos chegaram. Os primeiros não mais estão na serra, pois ocupam a Ilha do Bananal. Os caiapós têm talvez o dobro da população, vivem no PA e MT e dividem-se numa dezena de grupos, como cararaô, xicrim e gorotire. A relação com o homem branco foi e continua conflituosa, com alto índice de suicídios indígenas.

O Moderno Urbanismo do Núcleo Urbano da Vale em Carajás, PA (Fonte: Divulgação)

Foram criadas na região grandes UCs, das quais as maiores foram a Reserva Indígena Xicrim do Cateté e a Floresta Nacional de Carajás. Como indicado no mapa anexo, as seis reservas somam impressionantes 1.200 mil ha. Motivos para sua criação foram os riscos associados ao projeto de mineração, às migrações populacionais, à presença indígena e à atividade extrativista dos garimpeiros, folheiros e madeireiros.

Unidades de Conservação de Carajás no PA (Fonte: Adilson Motta)

A única cidade de expressão nesta região é Marabá, situada no encontro do Itacaiunas com o Tocantins. Passou pelas fases da extração do látex e da coleta da castanha-do-pará, do ouro de Serra Pelada e do ferro de Carajás. Foi local da Guerrilha do Araguaia e declarada área de segurança nacional. E cenário da maior enchente do Tocantins e do Massacre de São Bonifácio entre garimpeiros e policiais. Marabá passou por uma explosão demográfica e uma recessão econômica – mas é uma cidade ampla e bonita.

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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

1 comentário

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    Excelente matéria sobre Carajás! Estou trabalhando por aqui há cerca de 2 meses e o desenvolvimento é total! Como contribuição, só esqueceu de falar da Cidade de Parauapebas, a capital do minério do Brasil!

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