Nossas Serras (2/25): A Serra Geral

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Esta é a serra do pessoal do sul, em especial gaúchos e catarinenses. Não é uma região para escaladores e sim para andarilhos. Nas rochas fraturadas, na vegetação nervosa, no clima caprichoso e na verticalidade ameaçadora, a Serra Geral tanto encanta quem percorre seus amenos campos de cima quanto assombra quem atravessa as bordas ou os interiores de suas gargantas.

Este nome um tanto ambicioso nomeia uma formação rochosa que se origina no Paraguai e avança do interior num sentido SE, atravessando diagonalmente os Estados do Sul do Brasil (ver mapa). De maneira impressionante, ela abriga nossos cânions sulinos – a meu ver, sua escarpa litorânea só é comparável ao Espigão Mestre, que divide no Brasil Central o Goiás da Bahia.

Mapa do Relevo da Serra Geral (Fonte: Divulgação)

Inicialmente, corre no Brasil desde Cambará no RS até Urubici em SC, numa extensão de 300 km. Neste trecho, ela separa os campos do planalto de cima da planície costeira de baixo. Apesar de imensa, não vislumbramos a parede que abriga seus muitos cânions como uma extensão contínua, certamente devido a seu percurso escuro e sinuoso.

São cerca de 70 cânions, com extensões que variam desde os 16 km do Josafaz até menos de 1 km das formações menores, às vezes gargantas pequenas que convergem para maiores. Todas as formações, exceto o Josafaz, correm de oeste para leste. Observo que gargantas relativamente grandes têm algo como 5 a 8 km, como Itaimbezinho e Fortaleza. Veja ao lado as dimensões dos principais cânions.

Dimensões dos Principais Cânions

Embora o escudo da Serra Geral já tivesse sido estabelecido no distante período Pré-Cambriano, quando a Terra se formou, e sido depois desnudado e inundado – entre 350 e 500 milhões de anos – acredito que foram dois os acontecimentos que mais tarde explicaram a sua mais notável característica: os cânions.

O primeiro deles aconteceu no início do período Cretáceo (há 150 milhões de anos), que abrigou o surgimento dos mamíferos e a extinção dos dinossauros. Ele teve alcance mundial, pois foi a separação do continente Gondwana, no qual América e África estavam unidas, com a consequente aparecimento do Oceano Atlântico.

Cânion de Josafaz, Tainhas, RS

Ele gerou uma fenda pela qual emergiu lava basáltica por um milhão de km² (algo como um oitavo do território brasileiro), no maior derramamento deste tipo da história. Ao longo de uma dúzia de erupções por dezenas de milhões de anos, ela recobriu o grande deserto de arenito que era então o sul do Brasil, porém de maneira frágil. Seu rápido resfriamento criou inúmeras trincas, que se estenderam desde o litoral gaúcho até o interior paranaense.

Concomitantemente, no meio do Cretáceo (100 milhões de anos atrás), o centro da América do Sul sofreu um afundamento, criando a região do Pantanal, compensado pelo soerguimento ao sul, que elevou o degrau da Serra Geral. Esta parede, junto com o conjunto de trincas, foi desde então erodida pelos cursos d´água, que escavaram os fundos e estreitos vales característicos das gargantas dos cânions.

Cânion do Itaimbezinho, Cambará do Sul, RS (Fonte: Joaquim Nery)

Existem na região três PNs: Aparados da Serra (com o notável Itaimbezinho), Serra Geral (que prossegue o primeiro, com o deslumbrante Fortaleza) e São Joaquim (de todos o maior). As estradinhas que conectam as vilas catarinenses da planície aos campos altos dos cânions são impressionantes. A única completamente pavimentada é a do Rio do Rastro, com 25 km tão sinuosos quanto fantásticos. As vilas na planície litorânea são quentes e agitadas; as dos campos são pequenas, frias e pobres.

Cânion do Espraiado, Urubici, SC

A existência dos paredões verticais da Serra é responsável pela grande variação nos ecossistemas da região. As extensões planas dos campos de cima são recobertas por gramíneas, arbustos e arboletas. As matas esparsas dos campos são chamadas de nebulares, por serem formadas na constante presença de neblina – são vegetações humildes, pequenas e retorcidas.

Nas colinas dos campos altos são às vezes encontradas florestas mistas, com ocorrência de araucárias, aroeiras e pinhos bravos. À medida que se desce as encostas das gargantas, a vegetação irá se tornar mais exuberante, até se transformar na densa mata atlântica. Este ambiente peculiar levou a flora a evoluir separadamente, gerando forte endemismo.

Vista da Vegetação de um Cânion (Fonte: Divulgação)

A Serra Geral é um divisor entre os rios do litoral e do interior. Os primeiros formam pequenas bacias isoladas, como aliás acontece na Serra do Mar do Sudeste. Os segundos são, principalmente, o Uruguai e o Iguaçu, que integram a Bacia do Prata. Os caminhos pela Serra Geral levam às travessias das águas limpas e velozes do Uruguai, do Canoas e do Pelotas, todos eles rios muito bonitos.

Fala-se muito na região nos leões baios, na realidade pumas ou suçuaranas. Outros felinos são as jaguatiricas e as onças pintadas. Você provavelmente verá mais de uma vez as raposinhas graxains e o quatis, sempre à busca de pequenos furtos. Lobos guará e veados campeiros são às vezes encontrados, embaixo dos voos das gralhas azuis e das curicacas coloridas.

A serra tem um clima muito peculiar, devido a seu relevo. A diferença de temperatura entre as bordas frias nos campos (que estão em altitudes próximas a mil metros) e os fundos quentes dos cânions (na planície costeira) faz surgir os nevoeiros. Eles aparecem rapidamente e são tão frustrantes quanto desorientadores.

Embora ocorram em todas as estações, os nevoeiros são mais frequentes no verão, quando também chove muito. Então, esta é a estação a evitar. Melhor encarar os dias limpos e gélidos do inverno, quando a temperatura não raro é negativa.

Eu não imaginava, mas depois de sua manifestação litorânea a Serra Geral se estende por talvez mais 750 km, vergando para o interior, separando o segundo do terceiro planalto paranaenses e limitando o grande arco da depressão paulista (ver desenho).

Os Três Planaltos Paranaenses (Fonte: pt.slideshare.net)

Ela é composta seja por rochas eruptivas como o basalto, seja por arenitos. Você conhece a razão: o grande volume de lavas extravasadas sobre os campos de dunas do deserto antes existente na Bacia do Paraná. No interior do Estado, foram formados férteis solos profundos da chamada terra roxa, não os solos rasos das campinas do sul.

Serra da Esperança no Paraná (Fonte: Divulgação)

Mas, neste trecho interno, a Serra Geral não apresenta a meu ver formações interessantes. As cristas oscilam chegam a apenas 1.250m, com espigões, mesas, degraus e escarpas dispersos. As escarpas costumam ser voltadas para E, seus reversos inclinando-se para W. Há muitas denominações regionais, como as Serras da Esperança, do Cadeado e do Leão. A primeira é a grande escarpa que divide os planaltos, que abriga uma APA.

É nesta região que correm os Rios Itararé, Tibagi, Paranapanema e Iguaçu, afluentes do Paraná. Existem neste trecho norte dois cânions interessantes, o Guartelá (PR), conhecido como o mais longo do país, e o Jaguaricatu (SP), já na divisa com São Paulo – porém sem a verticalidade das formações do sul.

Cânion de Guartelá, Tibagi, PR (Fonte: Divulgação)

Embora muito longa, a Serra Geral não teve propriamente uma importância histórica. Ela não foi atravessada em sua extensão longitudinal, como foi o caso do Espinhaço. Inversamente, tampouco foi ocupada por antigas cidades e atividades no sentido transversal, como aconteceu com a Mantiqueira.

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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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