O Espinhaço: Novas Promessas

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No caminho rumo norte do Espinhaço mineiro, há ainda um minúsculo parque intermediário, que pode ser fácil e agradavelmente estruturado. E a esperança de se fundar uma nova reserva vizinha, numa serra alta e austera, com duas montanhas muito interessantes, voltadas ambas para o amplo vale do Rio Pardo.

Falo agora de realidades futuras: uma reserva que frequenta os sonhos dos ambientalistas de Monte Azul e um pequeno parque que pode vir a ter um interessante aspecto educacional.

Serra Geral: Está surgindo um movimento em Monte Azul para a criação de uma nova UC, que seria chamada de Serra Geral. De fato, ela prossegue o rumo do Espinhaço indicado pelo PE Serra Nova e, nesta região, a cadeia é usualmente conhecida como Serra Geral. Portanto, um nome bem escolhido.

Como parques naturais podem hoje ser criados com certa rapidez via compensações ambientais e como esta coluna só sairá depois de bastante tempo, incluo aqui o Serra Geral, antes que sua existência possa surpreender algum leitor bem informado.

A serra tem um visual impressionante, devido a seu perfil recortado (ver foto). À semelhança da Serra Nova, surge abruptamente no horizonte entre Mato Verde e Monte Azul, duas vilas modestas ao norte de Porteirinha. Seu principal acesso é a estradinha que corre a oeste para Santo Antonio do Retiro, situado do lado oposto.

Vista de Mato Verde da Serra Geral, MG

Existe uma dezena de cursos d’água no seu interior, que descem para os dois lados, integrando as bacias do Pardo e do São Francisco, em especial o Riacho de Areia, que a atravessa longamente. Brotam mais de 40 nascentes da serra, uma importante razão para protegê-la.

A vegetação que pude observar é áspera, dividida entre o cerrado e a caatinga, com a presença de alguns campos, onde a topografia acidentada permitir. Ela é habitada pelos animais usuais do cerrado, bastante presentes devido às grandes áreas de preservação existentes.

Altos da Serra Geral, Monte Azul, MG

O principal acidente é o Pico da Formosa, ponto culminante da região com 1.820m. Sua corcova enganosamente curva esconde uma ascensão terrivelmente íngreme, que será tema de uma próxima coluna. Por estar recuado, parece mais baixo do que os picos à frente.

Parede do Pico da Formosa, Monte Azul, MG

Exatamente à frente do Formosa, e inicialmente impedindo a sua visão para quem vem de baixo, existe uma espinha rochosa, encimada pelo Pico do Sucuruiu (1.760m). É uma escalada de crista, por oposição à ascensão de encosta do Formosa. Que eu saiba, não foi ainda conquistado, apesar dos bravos esforços da equipe de Bernardo do Espinhaço.

Contrafortes da Serra do Sucuruiu na Serra Geral, Monte Azul, MG (Fonte: Bernardo do Espinhaço)

Veja abaixo o perfil recortado desta pequena serra. Na última tentativa, foi alcançado o Pico do Cadarço (1.430m). Ele certamente será um ponto de passagem para essa nova conquista.

Perfil da Serra do Sucuruiu (1760m) na Serra Geral de Monte Azul, MG (Fonte: Bernardo do Espinhaço)

Esta região seca torna as quedas d´água muito procuradas. Existem duas simpáticas cachoeiras na região, com acessos fáceis: Pajeú em Monte Azul e Maria Rosa em Mato Verde. Ambas são sombreadas por matas próximas.

Cachoeira do Pajeú, Monte Azul, MG

Montezuma: O Parque Estadual de Montezuma pertence ao limite mineiro norte do Espinhaço, numa região seca, de clima árido e solo pobre. É formado por um platô a 1.050m, atravessado por um vale encaixado entre escarpas e várzeas. Os biomas presentes são o cerrado e o campo.

O principal curso é o Ribeirão da Tábua, tributário do Pardo. A colonização da região começou na Fazenda da Tábua, onde duas falhas geológicas geraram águas quentes que atraíram os primeiros povoadores – até hoje existe um pequeno balneário na cidade.

Vista do Vale, PE Montezuma, Montezuma, MG

O nome do município é uma referência ao Visconde de Jequitinhonha, um português que após a Independência adotou o sobrenome de Montezuma e foi definido como um misto de mestiço e fidalgo.

O PEM é um dos menores parques mineiros, com meros 1.740 ha, equivalente a uma fazenda de porte razoável. Foi criado para proteger o Ribeirão da Tábua do avanço das plantações de eucalipto que o envolvem.

É curioso encontrar logo à entrada uma bateria de fornos de carvão, num conjunto que parece surreal, entre a solidez das muitas paredes de tijolos em forma de iglus e as espirais de fumaça que deles emergem.

Fornos de Carvão à Entrada do PE Montezuma, Montezuma, MG

Afora o rio, o principal atrativo do PEM é uma mina desativada de ametista, que seria visitável por seu duto vertical, que chega a um grande salão interior. Percorri cerca de 16 km no Parque, principalmente no seu perímetro.

Existe nas proximidades a RESEX Areão-Vale do Guará, cujos 48 mil ha procuram proteger da monocultura do eucalipto invasora as comunidades que extraem o pequi e a mangaba.

O Parque é visualmente pouco interessante, não dispõe de estrutura, sequer possuindo funcionário. Não é regularmente visitado, até mesmo pela região vazia a que pertence. Talvez pudesse ser integrado às pequenas serras próximas, como Pau d’Arco e Macaúba, que têm desenhos muito sugestivos.

Mas não seria difícil aparelhá-lo para a visitação, considerando o fácil e curto acesso e o atrativo do balneário da cidade. Poderia ter uma motivação educacional para a região, à semelhança de Ibitipoca, do Sumidouro e do Limoeiro.

No próximo artigo, o Espinhaço ocupará dois chapadões próximos, que o introduzem a um novo território, já perto do seu final.

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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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