A trágica morte de Caio Rocha Aguiar Arrabal, de 44 anos, na Pedra do Macaco, em Maricá (RJ), chocou o país pelo forte impacto visual das imagens que circularam nas redes sociais. Segundos antes de cair de uma altura estimada em 150 metros, Caio realizava uma manobra de altíssimo risco na borda de um bloco de rocha exposto para registrar uma foto. Quero, antes de tudo, expressar meus profundos sentimentos à família e aos amigos de Caio. É uma perda devastadora e, como montanhista, lamento profundamente cada vida que se encerra precocemente no ambiente natural.
No entanto, como colunista do AltaMontanha, tenho a obrigação de ir além do luto e analisar o que está por trás dessa e de tantas outras tragédias. O acidente em Maricá não é um fato isolado. Quem acompanha a rotina do montanhismo e do ecoturismo no Brasil sabe que os acidentes nas montanhas e trilhas têm ocorrido praticamente todos os finais de semana.
A grande maioria desses episódios sequer chega aos grandes jornais porque não termina em morte. São quedas, fraturas, torções, hipotermias e resgates complexos que, embora não entrem nas estatísticas fatais, deixam sequelas físicas profundas e traumatizam pessoas que buscavam na natureza um momento de lazer. Mas quando o desfecho é fatal, o sinal de alerta precisa soar mais alto.
O Mercado da Aventura e a Ilusão da Qualificação
O acidente com o Caio, somado a outras tragédias recentes — como a da jovem que perdeu a vida na Ponte do Esqueleto, em Limeira (SP) —, joga luz sobre uma realidade incômoda que muitos evitam debater: o mercado de turismo de aventura está inflado por guias e condutores com pouca ou nenhuma qualificação técnica.
Hoje, qualquer pessoa que cria uma página em redes sociais, compra algumas cordas e monta um grupo de WhatsApp se autodenomina “guia de turismo de aventura” ou “líder de coletivo de trilha”. Essa informalidade perigosa vende às pessoas uma falsa sensação de segurança. O cliente assume que, por estar pagando ou acompanhando um “organizador”, há uma estrutura de gerenciamento de risco operando nos bastidores. Na maioria das vezes, não há.
Um guia qualificado não é aquele que apenas sabe o caminho da trilha ou que tira as fotos mais bonitas para o Instagram. A verdadeira qualificação de um profissional de montanha se providencia em três pilares que parecem estar em extinção no mercado de massa:
- Gerenciamento de Risco Ativo: Identificar os perigos antes que eles se transformem em acidentes e ter a autoridade técnica (e moral) para dizer “não”.
- Controle de Grupo e Ego: Impor limites claros aos clientes. Um guia de verdade interfere imediatamente quando um participante tenta se expor na borda de um penhasco para tirar uma foto, mesmo que isso cause frustração no cliente. A vida do cliente está sob a responsabilidade do guia.
- Capacidade de Resgate e Auto-resgate: Saber agir tecnicamente quando o plano falha, possuindo equipamentos adequados e treinamento de primeiros socorros em áreas remotas.
A responsabilidade de escolher com quem caminhar
Quando o mercado falha na autorregulação e o poder público falha na fiscalização, a responsabilidade final recai sobre o elo mais frágil: o praticante.
Fica aqui o alerta mais importante deste artigo: tenham extremo cuidado com quem vocês confiam suas vidas. A montanha é um ambiente de beleza incomparável, mas é também um ambiente severo, onde as leis da física e da gravidade não dão margem para erros ou negligências.
Antes de contratar uma agência, entrar em uma van de turismo ou seguir um líder de trilha, investigue:
- Esse profissional possui certificações reconhecidas por federações ou associações de montanhismo?
- Qual é o histórico de segurança dessa empresa?
- Qual é o histórico esportivo (experiência) deste guia?
- Ele está equipado para lidar com uma emergência ou está apenas carregando uma câmera na mão?
A busca pelo clique perfeito ou a escolha pelo serviço mais barato e informal não valem o custo de uma vida. Que o sacrifício de Caio e de tantas outras vítimas sirva para que o público mude sua postura diante do risco, e para que o mercado de aventura passe a exigir o respeito e o profissionalismo que a montanha impõe.
O futuro papel da ABGM – Associação Brasileira de Guias de Montanha
Atualmente, para o leitor que deseja se proteger dessa informalidade, a melhor ferramenta é checar o histórico dos profissionais. Um guia de montanha não pode ser uma pessoa com pouca experiência. Pergunte que montanhas ele já fez? Que cursos ele já possui? Qualquer guia de montanha precisa ter um curriculum sólido com inúmeras expedições, anos de prática e cursos de resgate, primeiro atendimento em áreas remotas e buscas, isso para falar o mínimo!
Além disso, o mercado ganha um reforço histórico: a antiga Aguiperj passou por uma reestruturação nacional e agora é a ABGM (Associação Brasileira de Guias de Montanha). Embora seja uma associação nova e os documentos com os requisitos técnicos específicos para os guias de trekking ainda estejam sendo finalizados e estruturados, a ABGM desenha-se, num futuro muito breve, como a principal e mais sólida referência de qualidade e segurança para quem busca profissionais de alta performance e instrução no Brasil.
A busca pelo clique perfeito ou a escolha pelo serviço mais barato e informal não valem o custo de uma vida. Que o sacrifício de Caio e de tantas outras vítimas sirva para que o público mude sua postura diante do risco, e para que o mercado de aventura passe a exigir o respeito e o profissionalismo que a montanha impõe.









3 Comentários
Um fato que preocupa tanto quanto a existência de pseudo-guias, ou pessoas que se vendem como “qualificadas” sem nível de experiência real em ambientes naturais é o público que busca a natureza e a aventura apenas como experiência de “consumo”, sem a responsabilidade de se informar previamente sobre aspectos mínimos da atividade que pretendem realizar. Tende a reinar uma ilusão coletiva (ou excesso de confiança) de que, se o sujeito é “profissional”, está tudo bem, como se ele fosse infalível e o consumidor do serviço não precisasse ter senso crítico algum. Foi-se a época em que as pessoas que pretendiam ingressar no meio outdoor buscavam conhecimento, círculos de praticantes qualificados, clubes ou a prática gradual de atividades com níveis de complexidades crescentes para adquirir conhecimentos e experiência. Isso tem se ampliado no território das redes sociais, onde é tudo muito imediato, “instantâneo” e precipitado, onde todos são sempre “especialistas” em tudo (desde criancinhas) e o marketing com o impulso do instantâneo e da autopromoção pessoal é apelativo demais ao próprio ego, a ponto de suprimir o funcionamento do lobo frontal do cérebro e fazer as pessoas entregarem suas vidas a terceiros sem qualquer temor ou checagem prévia, mais ainda numa atividsde marcada por um forte senso de “anarquismo”, como é o montanhismo. Num contexto como esse, infelizmente, ouso pensar que não vai ser a ABGM, a ABNT, a CBME ou qualquer outra instituição, por mais técnica, séria e respeitável, será capaz de resolver esse “emburrecimento” coletivo. Com todo o respeito, me parece que mecanismos voltados à educação coletiva de base voltados pro uso consciente do meio natural potencialmente tenham mais sucesso nesse percurso do que uma associação de caráter autoregulatório de vértice, ainda que ela tenha seu mérito e valor.
Excelente Artigo!
Eu falo para meus alunos, amigos e qualquer um que pense em se arriscar de forma desnecessária “carregar um corpo é uma situação horrivel” então, não seja imprudente, não seja vitima.
Abs.
Vitor Hotz
GE – Grupo Granito de Montanhismo
Sou muito interessado no assunto.
Aprendi a me colocar na situação de fornecedor e de consumidor.
Lembro da primeira vez que usei Buser e achei fantástico. O meu primeiro mergulho guiado (em Bonito/MS) foi top. Quando fiz o primeiro treinamento vertical (2005/2006) e pensei que já era muito capacitado em rapel e escalada. Quando surgiu a Gol, eu era acostumado com a Varig e fiquei meio “pé atrás”.
Depois de participar de uma Pós em Esportes e Atividades de Aventura em SP fiz uma ligação que nunca esquecerei na vida. Existem pessoas e pessoas.
Motoristas saem de casa para dirigir e tem que saber sobre o trânsito (pelo menos esperamos isso), já os pedestres ou não motoristas deveriam ter uma noção mínima de trânsito para contribuir com o normal fluxo do mesmo e inclusive avaliar prestadores de serviços (motoristas de app, ônibus, etc.) e isso não acontece.
Se no país que o trânsito está causando muito mais “CAOS” que qualquer outra área, os usuários não são minimamente orientados, ainda estamos um tanto quanto distantes de conseguir chegar à implementar regras, orientações, sugestões ou até mesmo comentários que realmente possam trazer um resultado esperado (também quero muito) em relação ao que se pode avaliar no caso de Perigo x Risco que também não é muito claro até mesmo para vários de nós, praticantes e adeptos de atividades de aventura.
Deixo meu abraço e desejo de tempos melhores!
Só erra quem faz.