O desaparecimento de Marco Aurélio no Pico dos Marins

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O chamado caso Marco Aurélio é o mais famoso, controverso e misterioso caso de desaparecimento de uma pessoa em uma montanha brasileira. Conheça melhor esta história e suas polêmicas

Em 1985, Marco Aurélio Simon, então com 15 anos de idade, se preparava para subir pela primeira vez uma grande montanha. Ele era um dos integrantes do Grupo de Escoteiros Olivetano de São Paulo-SP, da qual o espanhol Juan Bernabeu Céspedes era um dos chefes. Destacado no escotismo, Céspedes escolheu o Pico dos Marins por sua bela paisagem, grande altitude, representatividade e dificuldade que estaria na medida para sua tropa. Seria uma atividade motivante e desafiadora para os garotos adolescentes, dentre eles Marco Aurélio que passaria para categoria Sênior da tropa.

Marco Aurélio com seu uniforme de escoteiro.

Marco Aurélio era um garoto normal, se não fosse pelo fato de ter um irmão gêmeo idêntico, Marco Antônio, que por estar doente, não pode participar da atividade no Marins. Os irmãos viviam juntos e seria a primeira vez que um faria uma atividade sem o outro. Eles haviam nascidos prematuros, tiveram dificuldades para crescer e os pais acharam que seria interessante eles entrarem para o escotismo para se desenvolver, através de atividades físicas ao ar livre. A estratégia havia dado certo. Marco Aurélio amava seu grupo e estava ansioso para participar da escalada ao Pico dos Marins.

Esta atividade, no entanto, quase não aconteceu. O grupo foi diminuindo com sucessivas desistências, até que no dia combinado juntou-se apenas 4 escoteiros e o chefe Juan, que dormiu a noite do dia 5 para o dia 6 de junho na casa da família do adolescente e neste dia, uma quinta feira, foi levado por Ivo Simon até a estação de metrô Tatuapé, onde se encontrou com os outros membros que participariam da aventura: Ricardo Salvati, Ramatis Rohm e Osvaldo Lobeiro, todos com a mesma idade de Marco Aurélio. Juan Céspedes, tinha 36 anos, e era intimo da família de Marco Antônio e chegou a passar um natal juntos.

O grupo seguiu de ônibus da rodoviária do Tietê até Piquete, onde foram recepcionados pelo chefe dos escoteiros local, Sebastião Augusto Ramos, o “Gugu”, que designou o chefe de tropa Paulo Roberto “Paulinho” para levar o grupo em sua Kombi até um sítio no começo da trilha que leva ao cume do Pico do Marins, que na época era habitado pela família de Afonso Xavier, grande conhecedor da região. O grupo acampou no quintal do sítio, no mesmo local onde hoje é o estacionamento do Marins, administrado pela filha de Afonso, a Dora e seu marido Dito.

Na sexta feita, dia 7 de junho, o grupo de escoteiros desempenharam atividades educativas, como limpeza da louça do jantar da noite anterior e também coleta de madeira para fazer o “fogo do conselho”, um evento que daria a qualificação de escoteiro sênior a Marco Aurélio.

No sábado, dia 8 de junho, o grupo acordou cedo e começou os preparativos para a ascensão à montanha. Às 7 da manhã, um grupo com três escoteiros de Piquete passou pelo acampamento e convidou o grupo Olivetano a se juntar a eles, mas Juan negou o convite. O anfitrião Sr. Afonso, tinha a expectativa de subir junto com o grupo, porém às 8 da manhã Juan também declinou da ajuda do experiente mateiro e subiu sozinho com seu grupo de 4 garotos.

Apesar de conhecer o Marins, Juan errou uma das trilhas e fez um caminho diferente, mais difícil e longo. Eles se perdem pela trilha e levam mais tempo que o habitual. Às 14 horas, Osvaldo tropeça num buraco e golpeia um de seus joelhos com força, o jovem escoteiro chora e é acudido pelos demais. Machucado, não tinha como Osvaldo continuar e Juan não teve opção senão cancelar a ascensão e iniciar um plano para descer o grupo junto com o escoteiro acidentado.

Usando seus conhecimentos de escoteiro, Juan corta um arbusto e tenta construir uma maca com um minguado galho. Porém Osvaldo, era muito pesado e a tentativa de improvisar uma maca foi infrutífera. Sem ferramentas, o chefe Juan começa a escorar o adolescente em seus ombros com a ajuda de Ricardo. Ramatis se encarrega de levar as mochilas do grupo. A estratégia de Juan era subir e descer de ataque, ou seja, ir leve para voltar rápido e por isso eles não levavam muitos equipamentos. Marco Aurélio, chefe da patrulha, ia guiando o grupo, orientando por onde deveria descer.

O local onde Osvaldo se machucou fica na base do Pico rochoso no fundo da foto.

O acidente com Osvaldo se deu na altitude de 2060 metros num ponto da trilha em que ela desvia para a esquerda contornando um um sub cume que se destaca na crista por onde passa a trilha normal da montanha. Ou seja, após Juan ter errado a trilha mais fácil diversas vezes, o acidente com Osvaldo se deu num ponto da trilha mais fácil que leva ao cume do Marins. Porém este trecho é o mais acidentado, pois lá há muitas rochas e é preciso desviar delas. A trilha se desenvolve por entre as pedras e em cima de lajedos rochosos limitados por touceiras de capim elefante. O subir e descer das rochas em si não é tão complicado, ainda mais quando se está com mochilas leves. Porém encontrar a trilha toda vez que sai e entra de um lajedo, cruzando a região dos capins elefantes, é um exercício de interpretação de caminhos e exige experiência e perícia em navegação.

O grupo descer unido por cerca de 250 metros, que diante da dificuldade do terreno, levou um tempo que causou preocupação no grupo. Diante da dificuldade de descer o amigo, Marco Aurélio se voluntariou em descer até a base da montanha e pedir ajuda. Juan tomou a pior decisão de sua vida permitindo que o garoto inexperiente descesse aquela montanha sozinho. Ele até se precaveu para o caso de Marco Aurélio se perder nesta missão, dando a ele um pedaço de giz para marcar o caminho e auxiliar nas buscas caso se perdesse. Porém foi a última vez que Marco Aurélio foi visto.

O Pico dos Marins

 

Pico dos Marins. Foto Pedro Hauck

Com 2420 metros de altitude, o Pico do Marins é uma das montanhas mais altas da Mantiqueira. Ascendendo pela trilha normal, chegar ao cume do Marins pode não ser muito difícil, com apenas um ou outro trecho de “trepa pedra” onde é necessário corda apenas para efeito psicológico. Em outras vertentes, no entanto, a história é outra. O Marins é uma montanha escarpada e com grandes paredes rochosas com vias de escalada desafiadoras raramente repetidas.

Lajedos rochosos entremeados a campos com capim elefante. Características que dificultam achar a trilha.

A parte alta do Pico dos Marins tem uma cobertura vegetal campestre, mas a paisagem é predominantemente rochosa. Nestes trechos a trilha é demarcada com sinais pintados nas rochas ou com totens formados por calhaus de rocha empilhados. Não é raro alguém se confundir e ter que corrigir seu caminho, ainda mais porque quando chove, a água escoa pelas rochas e ao chegar na região com vegetação, a enxurrada abre uma trilha que depois que a água perde energia, a trilha de enxurrada desaparece.

O clima na montanha é sempre frio por causa da altitude e chuvoso por causa da orografia. O inverno, época de estiagens, é a época mais apropriada, mas em contra partida os dias são mais curtos e as temperaturas geladíssimas, sendo comum ter geadas. Nevoeiros também são comuns e eles são a causa número 1 em ocasionar a desorientação dos montanhistas, que acabam tomando caminhos errados, que são muitos!

Além destas características, a montanha tem muitas falhas geológicas que formam fendas enormes que são ocultadas pela vegetação. Estas falhas não podem ser vistas da trilha normal, mas fora dela, elas são muitas.

O grupo de Escoteiros de Piquete

 

No dia 8 de junho, um grupo de escoteiros de Piquete passou pelo grupo Olivetano e os convidou para subir o Marins juntos, convite negado pelo chefe Juan. Este grupo era composto do chefe Mário Lúcio Magalhães de 24 anos e dos escoteiros Cláudio Roberto Peixoto, de 15 anos e de Gláucio Luiz Magalhães, de apenas 10.

Gláucio presenciou um estranho fato. Em determinado momento da subida, ele se afastou de seus colegas e neste momento cruzou pela trilha com um sujeito que ocasionou um grande susto. Este homem, vestido com roupas marrons, apenas cumprimentou e continuou seu caminho de descida. Perguntando aos demais se haviam visto este homem, os colegas de Gláucio disseram que não.

O grupo regressou ao sítio do seu Afonso às 15 horas. No caminho, tanto na subida quanto na descida eles se depararam com uma caminhonete Rural Willys, com placa de Lorena e uma barraca sem ocupantes no Morro do Careca.

O desaparecimento

 

Após Marco Aurélio se separar, o grupo foi descendo lentamente pela trilha até chegar num local onde havia duas pedras com uma passagem estreita entre elas. Lá ele marcou com giz o número 240, que era o número do grupo Olivetano. Juan acha que o caminho por onde Marco desceu era muito difícil para passar com uma pessoa machucada e decide tomar um caminho para a direita, achando que ambos caminhos se juntassem mais à frente. Se enganou mais uma vez.

O vão estreito entre as pedras por onde Marco Aurélio passou tem até nome hoje em dia, se chama “Portal”. Para quem sobe marca o início do trecho de trepa pedras, mas para quem desce, que é o caso do grupo em 1985, marca o local onde a trilha fica mais fácil e os grupos de montanhistas, sem precisar usar as mãos tiram os bastões de trekking das mochilas e a caminhada fica mais fluida. Dali até o Morro do Careca, onde na época se chegava de carro, leva-se apenas 1 hora de descida em condições normais!

O Portal, na esquerda da foto e o vale, na direita, por onde Juan desceu com os escoteiros.

O autor no vão das pedras chamadas de Portal, por onde Marco Aurélio passou e deixou registrado a insígnia 240 com giz.

O caminho que Juan tomou levou o grupo até a parte mineira da montanha, tendo que atravessar a mata densa e diversos rios. Diante do desafio, o grupo chegou a 1 da manhã no sítio do Seu Filhinho, que orientou o grupo a tomar a estrada de terra que liga o Bairro dos Marins em Piquete até Marmelópolis e de lá irem ao sitio de Afonso Xavier, onde eles chegaram as 5 da manhã exaustos após 14 horas de penosa caminhada.

Todos tinham a expectativa de encontrar Marco Aurélio no sitio do Sr. Afonso, mas para surpresa de todos, ele não estava lá.

O primeiro fato misterioso do desaparecimento de Marco Aurélio se deu na chegada ao sítio de Sr. Afonso. A barraca dos escoteiros estava remexida, a mochila de Marco estava na parte fora, aberta. Apesar disso nada havia desaparecido.

O principal suspeito

 

Sabendo de sua responsabilidade, o chefe de escoteiros descansou por uma hora e as 6 da manhã partiu sozinho em busca do escoteiro desaparecido, regressando às 10 da manhã sem ter encontrado nenhum sinal de Marco Aurélio. Por que Juan não pediu ajuda ao experiente Afonso Xavier de novo? Muitos questionam esta decisão, concluindo que o chefe de escoteiros tivesse a intenção de ocultar algo.

Juan Bernabeu com a polícia em 1985.

Um pouco antes do espanhol retornar das buscas, Paulinho chegou no sitio com sua Kombi e se deparou com os fatos, indo avisar o chefe Gugu do desaparecimento do jovem. O chefe de escoteiros de Piquete, por sua vez, conseguiu mais 4 voluntários e sem muitos recursos se juntaram a Juan para realizar uma segunda busca que não resultou em nada.

Casa de Afonso Xavier, onde hoje é uma igreja.

O grupo voltou ao sítio de seu Afonso e no cair da noite, enquanto jantavam, o grupo ouviu um grito. Todos ficaram em silencio e novamente ouviram o grito novamente seguido por um apito. Neste momento todos saem da casa e no quintal eles observam uma forte luz azul, que os deixou atônitos. Juan se embrenhou no mato gritando por Marco Aurélio, mas nada mais encontraram.

O incidente com as luzes azuis foi presenciado por todos e até hoje os presentes descrevem o ocorrido. Seu Afonso, antes de morrer, defendeu que a luz veio de um vizinho. No entanto o sitio fica num local muito isolado e no meio da mata. Algumas pessoas afirmam que a luz foi de um carro que passou pela estrada Piquete x Marmelópolis. No entanto, tal estrada fica distante e não há como um faixo de luz refletir na copa das árvores. Esta luz levou a grupos de ufologia creditar o desaparecimento de Marco Aurélio a um evento de abdução extra terrestre, aumentando a polêmica em relação ao caso.

Quando Marco Aurélio partiu, ele tinha apenas as roupas do corpo, mas sempre carregava um apito para chamar atenção em caso de se perder. Todos os presentes na cena acham até hoje que os gritos e o apito fossem do escoteiro.

Após o incidente, o grupo retornou a Piquete, onde se instalaram na casa de Sebastião Augusto Ramos que providenciou um médico para atender Osvaldo. O médio constatou que o garoto não tinha nenhum machucado grave no joelho e podia andar normalmente, o que aumentou a suspeita contra o chefe de escoteiros e um possível complô com Osvaldo.

No dia seguinte as crianças foram para São Paulo, mas Juan ficou em Piquete para esclarecer os fatos na delegacia. Entra em cena o delegado Izidro Ferraz, que neste momento agrupa alguns policiais e o experiente guia Carlos Viera e numa Kombi se dirigem até o local do desaparecimento de Marco Aurélio.

Questionado, Juan conta que passou por uma cruz de ferro, local que Carlos Vieira diz fazer parte de uma trilha antiga que ele mesmo havia desabilitado por ser muito perigosa. Naquele dia nada mais puderam fazer, porém esta aproximação motivou Carlos Vieira a retornar no dia seguinte, acompanhado de outro experiente guia, Ronaldo Nunes até a tal cruz de ferro.

Os guias partem cedo, durante a noite uma forte geada pintou o pico dos Marins de branco. Porém, para surpresa da dupla, ao chegar perto da cruz eles avistaram pegadas no meio do gelo. Eles até tentaram seguir as pegadas, porém as mesmas desapareceram. Quem teria subido o Pico dos Marins em plena terça feira tão cedo?

Neste mesmo dia um incêndio se iniciou na montanha e os primeiros bombeiros que haviam sido designados para realizar buscas tiveram que ser realocados para combater as chamas. A polícia então suspeitou que alguém houvesse provocado o incêndio para atrapalhar nas buscas e todos suspeitavam de Juan. Será que ele havia algo a esconder?

Neste mesmo dia, Carlos e Ronaldo passaram a observar a revoada de urubus, pensando que, se Marco Aurélio tivesse morrido, logo os urubus encontrariam seu corpo. Com este pensamento, eles acharam um boi morto, mas nada do escoteiro perdido.

Grande cobertura da mídia

 

Os pais de Marco Aurélio chegaram em Piquete na segunda feira, dia 10 de junho. A Polícia achou que, como eles não tinham experiência em montanha, seria inútil subirem até o local das buscas. Com isso, Ivo Simon, que era jornalista, começou a usar seus contatos e logo a notícia do desaparecimento de seu estava estampada nos principais jornais do país, assim como era televisionada nos principais canais de TV. Este fato fez que muita gente soubesse do ocorrido e não demorou para surgissem boatos que só atrapalharam as buscas.

busca no pico dos marins – foto de Ramphis Zeltune -12 jun 85

Inúmeras vezes pessoas ligaram dizendo ter encontrado Marco Aurélio. Assim como inúmeras foram as interpretações para o sumiço do rapaz. Algumas pessoas começaram a achar que o jovem havia fugido. Outras passaram a achar que ele havia sido assassinado pelo guia. Destas suspeitas, algumas pessoas diziam que Juan havia abusado de Marco Aurélio e depois deu um jeito de matar e sumir com o corpo do rapaz. Estas versões vieram a se somar com a que o escoteiro teria sido abduzido por extra terrestres.

Indiferente dos boatos, uma coisa é fato. Com a exposição na mídia não faltou voluntários para ajudar nas buscas. No total, calcula-se que mais de 300 pessoas, ajudaram e procurar por Marco Aurélio. As buscas contaram com a ajuda de cães farejadores, dois helicópteros, dois aviões, montanhistas e espeleólogos. No entanto, no final da operação do Marins, após um mês de buscas, nada, absolutamente nada remetido a Marco Aurélio foi encontrado.

Chefe de escoteiros torturado

 

Diante de tantos fatos estanhos, as suspeições contra o chefe de escoteiros aumentaram. Entra em cena o major da Polícia Edmundo Zaborski, que foi duro contra Juan Céspedes. Zaborski pressionou Juan e promoveu uma sessão de hipnose para obter informações sobre o que havia acontecido com o jovem escoteiro. Durante a seção, Juan não deu nenhuma informação que o incriminasse e que pudesse a solucionar o caso. Após a hipnose, que aconteceu no Morro do Careca, último ponto que, na época, era possível chegar de carro no Marins, Juan foi torturado.

Juan sendo entrevistado pela Globo na época.

No dia seguinte a este fato, o jovem Osvaldo, que era suspeito de ser cumplice por Zaborski, foi encaminhado de camburão de São Paulo à Piquete para interrogatório. Ricardo e Ramatis também foram, porém com o pai do último, que era policial militar.

As crianças foram colocadas em salas separadas e foram forçadas a denunciar Juan pelo crime de ter matado Marco Aurélio. Horrorizadas, as crianças se negam a assinar a denúncia. Sem paciência, Edmundo aponta uma arma a eles, porém eles não assinam e são assediadas moralmente pelo policial.

Osvaldo foi colocado numa sala junto com Juan e o escoteiro defendeu seu chefe o tempo todo, até que Zaborski perdeu a paciência e espancou Juan na frente da criança. Apesar das ameaças, da agressão e tortura, todos escoteiros isentaram Juan da culpa pelo desaparecimento de Marco Aurélio e o chefe de escoteiros foi liberado.

Matéria em jornal da época sobre Juan Bernabeu Céspedes.

A liberdade de Juan durou pouco tempo. Um dia depois ele foi conduzido coercitivamente até Piquete de helicóptero. A população da cidade ficou sabendo e foi recepcionar o chefe de escoteiros espanhol no local do pouso, afim de lincha-lo. A polícia fez um cordão de isolamento, mas do helicóptero até a viatura ele levou muitos socos e pontapés. Em coro a população o chamava de assassino.

Apesar da suspeição, Juan nunca foi incriminado. Pelo contrário, os escoteiros sempre o defenderam, assim como os pais de Marco Aurélio que nunca acreditaram nas teorias de conspiração que diziam que o chefe de escoteiro havia matado e ocultado o corpo do menino.

Passado um mês de buscas exaustivas, a operação Marins acabou sem encontrar nenhuma pista do que ocorreu com Marco Aurélio.

Videntes, extra terrestres e sequestradores

 

Com termino das buscas, a família de Marco Aurélio passou a se apegar com várias promessas de videntes que diziam onde estaria o garoto. Evidentemente a ajuda de videntes não resultou em nada. Ivo chegou a consultar Chico Xavier, mas o mesmo não afirmou que não conseguiria contato com Marco, pois ele só contatava mortos e não vivos.

Muitos videntes afirmaram que Marco não havia morrido e isso sustentou a ideia de que Marco Aurélio saiu do Pico dos Marins desorientado e sem memória e que ele poderia ter sido abrigado por uma família que o criou. Esta hipótese, na verdade é um pouco difícil de se concretizar, dado a repercussão do caso, tanto pela TV, quanto na rádio e até mesmo localmente na região da Mantiqueira. Quem poderia ocultar Marco Aurélio após tanta exposição na mídia?

A história das luzes azuis levou a ideia de que Marco Aurélio foi abduzido por ET´s. De fato, muitos ufólogos se intrometeram no caso e afirmaram esta hipótese. Ivo Simon, pai de Marco Aurélio, chegou a conversar com um general da aeronáutica que era defensor de teorias sobre Extra Terrestres. Há que se ter em conta que na década de 1980, teorias de extraterrestres começaram a se tornar populares, a começar pelo próprio filme ET de Steven Spielberg, passando por inúmeros casos estranhos como o caça da FAB que em 1986 perseguiu um objeto voador não identificado, dentre tantas coisas.

O maior sofrimento, no entanto, veio de ligações anônimas de pessoas que se diziam sequestradoras e que tinham Marco a seu poder para extorquir a família. Um deste caso levou a mãe de Marco Aurélio seguir as informações dos falsos sequestradores. A família fez um empréstimo no banco, depositou o dinheiro no local orientado pelos golpistas, mas eles não apareceram para pegar o dinheiro.

35 anos sem pistas do que aconteceu com Marco Aurélio

 

Talvez o caso Marco Aurélio tenha sido mais conhecido e polêmico caso de desaparecimento de uma pessoa em uma montanha brasileira por todas as circunstancias. Se levar em consideração que em 1985 praticar montanhismo não era uma atividade comum, isso ocasionou um impacto ainda maior nas pessoas.

Infelizmente tudo o que podemos supor sobre o desaparecimento do jovem escoteiro não passará de suposições, pois mesmo passado tanto tempo, nada se concluiu a respeito. A Polícia nunca descobriu o motivo do incêndio no dia 11 de junho, tão pouco descobriu quem seria o homem misterioso que cruzou com o escoteiro Gláucio na trilha no dia 8, assim como quem era o dono da Rural Willys e da barraca no Morro do Careca naquele dia.

O desaparecimento de Marco Aurélio foi um trauma na vida de todos os envolvidos mais próximos, principalmente para os pais e Juan, que foi expulso da União dos Escoteiros do Brasil e foi abandonado à mingua, sendo torturado e sem defesa, condenado e linchado pela opinião pública. Sem falar nas crianças que sofreram assédio da polícia e da mídia, principalmente para Osvaldo que durante anos sentiu culpa por ter se machucado naquele dia.

No entanto, olhando para trás, só podemos concluir uma coisa e tirar uma lição. O grande erro de Juan não foi ter se perdido diversas vezes na trilha dos Marins, mas sim foi permitir que Marco Aurélio, um jovem inexperiente em montanhismo e trekking, se separasse do grupo.

Após este desaparecimento, houve outros na região do Marins. Em 1989, foi a vez do filho de Afonso Xavier, João Carlos Xavier, conhecedor das trilhas da região que sumiu sem deixar rastros. Em 2018 o experiente corredor de montanha francês Eric Welterlin desapareceu na montanha. Diferente de Marco Aurélio e João Carlos, seu corpo foi localizado vinte dias depois e a autópsia relevou a causa da morte: Hipotermia.

A opinião do autor

 

Tendo 22 anos de experiência no montanhismo, já conto com inúmeras experiências de ter me perdido em trilhas em serras brasileiras. Experiências que não quero repetir.

Em nossas montanhas temos muitos caminhos errados. Caminhos feitos por animais ou por enxurradas que levam a lugar nenhum e é comum percebermos isso só depois que penetramos mais na mata e a passagem passa a ser impossível devido ao emaranhado de cipós e bambus, mas nem sempre é assim e quando damos conta não sabemos mais de onde viemos e aí acontece aquilo que chamo de “inferno verde”. Misture isso à angustia de saber que está perdido e imagine a sensação. É por isso que não quero mais ter estas experiências. Você se perde, fica exausto, abatido e não sabe o que fazer e muitas vezes acaba tomando decisões que pioram a situação, como varar mato achando que “indo reto você chega lá”. No entanto na montanha e na mata uma reta nem sempre é a menor distância entre dois pontos. Saudável e jovem, uma coisa é certa. Marco Aurélio caminhou muito naquele dia 8 de junho de 1985.

Sem roupas adequadas e lanterna Marco Aurélio deve ter tido uma noite terrível no dia 8. A não ser que conseguisse achar um local seco e abrigado. Não faltam mocós, fendas e locais abrigados no Pico dos Marins, porém locais com estas características secos são raros. Se hoje, com todo o acúmulo de conhecimento ainda assim há desaparecimentos e dificuldade de buscas, imagine em 1985 quando montanhismo era algo raro e as equipes de busca pouco especializadas. Tenho certeza as pessoas que participaram das buscas naquele ano fizeram o melhor que puderam, mas será que vasculharam tudo mesmo na serra? Outra coisa também é certa. Nas noites entre os dias 9 e 10 geou na Mantiqueira e fraco, sem se alimentar adequadamente por mais de 1 dia, e ainda sem roupas apropriadas, seria muito difícil sobreviver ao frio.

Tenho mais uma indagação. Será mesmo que não encontraram nenhuma pista de Marco Aurélio? Ao término das investigações muitas pessoas passaram a contribuir com detalhes que não foram adicionados na investigação. Muita gente tinha medo de ser considerada suspeita e o que aconteceu com o Juan é a justificativa para isso. Recém saídos da Ditadura Militar, a polícia brasileira ainda repetia os métodos do período de repressão. Será que algum fazendeiro, ou voluntário encontrou alguma pista que levasse à Marco Aurélio, mas ocultou com medo de ser considerado suspeito?

Passado 35 anos fica apenas a lição. Numa situação como a enfrentada pelo grupo de escoteiros no dia 8 de junho de 1985, nunca separe o grupo, deixando uma pessoa inexperiente regressar uma trilha em montanha confusa sozinha. Se o grupo estivesse junto, talvez eles não levassem mais que 2 horas carregando Osvaldo até o Morro do Careca, se tivessem descido pela trilha normal. Se tivessem se perdido de novo, pelo caminho usado pelo Juan, na pior das hipóteses teriam tido uma experiência negativa madrugada adentro, mas sem mortes. Não adianta inventar métodos de rastreio, como foi o caso do giz, que não ajudou em nada nas buscas.

Por mais fácil que seja o Pico dos Marins, não se pode ignorar o fato de que sua trilha é confusa. Mesmo trabalhando como guia nesta montanha, a percorro com muito cuidado e mesmo assim tomo caminhos errados. Porém sempre volto e encontro o caminho mais seguro entre os vários existentes. Subir o Marins sempre requer cuidado. Levar roupas adequadas, lanterna, comida e um celular carregado, recurso que não existia em 1985, mas que ajuda muito hoje em dia. Quem se perde deve avisar aos bombeiros e permanecer no local e não caminhar para não se aprofundar em locais perdidos na montanha. Isso vale para todas montanhas brasileiras.

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Sobre o autor

Pedro Hauck - Equipe AM

Pedro Hauck natural de Itatiba-SP, desde 2007 vive em Curitiba-PR onde se tornou um ilustre conhecido. É formado em Geografia pela UFPR, possui mestrado em Geografia Física pela UFPR. Atualmente é sócio da Loja AltaMontanha, uma das mais conhecidas lojas especializadas em montanhismo no Brasil e também é guia de montanha pela agência GenteDeMontanha, sendo instrutor de escalada pela AGUIPERJ. Ao longo de mais de 22 anos dedicados ao montanhismo, já escalou mais 100 montanhas com mais de 4 mil metros, destas, mais da metade com 6 mil metros e um 8 mil do Himalaia. Visite o Blog de Pedro em www.pedrohauck.net. Siga ele no Instagram @pehauck

17 Comentários

  1. Avatar
    Rogério Alexandre Francisco da Silva em

    A melhor descrição do ocorrido q já li. Grande exemplo de síntese. Muito obrigado por compartilhar. É o mistério q mais me marcou quando moleque, no começo das pernadas, e motivo de sempre ter mais de um plano de contingência alinhavado. Forte abraço!!

  2. Avatar

    Já conhecia a história, mas não sabia de tantos detalhes assim e nem que outra pessoa tinha desaparecido lá. Muito bom, quem sabe um dia, saibamos a verdade. O caso do francês, fica como exemplo, de como o Marins, mesmo com gente achando relativamente fácil, a situação pode complicar muito, dependendo das condições e decisões tomadas.

    • Avatar
      Paulo Roberto Penachio em

      Muito bem contado, não conhecia a história.
      Realmente, se perder nas montanhas brasileiras não é difícil, por isso, necessário um bom guia.
      Valeu Pedro, obrigado por compartilhar.

  3. Avatar

    Tem uma psicografia recente, de um medium chamado valter arauto, acho que e esse nome, a pedra 240, que diz que recebeu o espirito do marco aurelio e ele diz que nao houve crime nenhum……. que ele mesmo, marco aurelio, caiu numa fenda, nao fica bem claro, dix que o ” solo abriu – se sob os seus pes ” e ele ficou na escuridao, cheio de bichos rastejantes e frio, muito frio, e morreu de hipotermia…… diz que um dia acharao a pedra que ele morreu, e acharao os seus restos mortais…… mas e pra quem tem fe na crenca kardecista, em psicografia, e nem sei se esse medium inventou tudo isso da cabeca dele tambem

  4. Avatar
    christiane Pires em

    O que esse “medium” descreve não e acertivo…a familia ja havia tinha conhecimento desta mensagem a 2 anos atras…o irmão gemeo Marco Antonio disse que não reconhece como as palavras de Marco Aurelio….e sente que ele esta VIVO

    …pedimos ajuda para quem se interessar entre no blog e nos ajude a Divulgar…

    • Avatar

      Pois e, eu so achei curioso, mas eu mesmo nao tenho muitas certezas sobre psicografias, mas se a familia nao quis nem saber….. vi uma entrevista no you tube do escritor rodrigo nunes, ele acha que o garoto foi morto e houve ocultacao de cadaver, para tantos anos se passarem a tendencia e ser isso mesmo, acho que esse negocio dele estar vivo e mais esperanca do coracao, mas se ja se passaram muitos anos e ninguem viu ele…… acho que os familiares tem a esperanca da busca, mas e so isso mesmo, uma esperanca

  5. Avatar

    Durante 29 dias o Pico dos Marins, em um raio de 30 km, foi vasculhado palmo a palmo sem achar qualquer vestígio, mobilizaram mais de 300 pessoas nas buscas, o sr. Ivo, pai de Marco Aurélio, disse que foi vasculhada todas as fendas existentes no Marins. Na minha opinião, acho que nas proximidades do Morro do Careca ele pode ter sido sequestrado e colocado em um carro e depois mataram ele e desovaram o corpo em algum lugar bem distante, ou algum fazendeiro da região pode ter matado o garoto e enterrado o corpo em algum manguezal ou jogado em algum poço profundo onde os cães farejadores não conseguiram rastrear…

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    João Gomes de Souza em

    Excelente narrativa, principalmente com detalhes, demonstrando conhecimento do assunto. Sou de Piquete e acompanhei tudo que foi feito e relatado a espeito. Ainda tenho dúvidas se Marco Aurélio está morto.

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