
Esquema ilustrativo da membrana apresentado no artigo original de 2010. As construções atuais variam conforme a tecnologia.
Imagine uma caminhada longa num dia frio e com vento, como pode acontecer nas montanhas do Itatiaia e da Mantiqueira no inverno. Você veste uma jaqueta para se proteger e escolhe um calçado adequado ao caminho. Durante a subida, porém, começa a suar. Na parada, a umidade acumulada deixa a roupa e os pés desconfortáveis.
Esse é um dos desafios dos equipamentos de montanhismo: proteger da chuva e do vento sem aprisionar toda a umidade produzida durante o esforço. O GORE-TEX é uma das tecnologias desenvolvidas para conciliar essas funções. Escolher o produto certo também envolve o terreno, o clima, o ritmo da atividade e o restante do vestuário.
O que é GORE-TEX?
GORE-TEX é uma marca de tecnologias empregadas por fabricantes de roupas, calçados e acessórios. Nos produtos impermeáveis, uma membrana fina é integrada a tecidos para formar o material do equipamento. Ela não é, por si só, um tecido externo que se veste.
A versão original deste artigo descrevia a membrana de ePTFE, ou politetrafluoroetileno expandido. Essa descrição histórica não abrange toda a linha atual: a marca também utiliza ePE, polietileno expandido. Segundo a explicação técnica da Gore, essas membranas podem combinar o polímero expandido com poliuretano e são laminadas a camadas têxteis.
O objetivo dos produtos impermeáveis GORE-TEX é oferecer uma barreira à água líquida e ao vento, permitindo a passagem do vapor de umidade. A construção do produto completo importa: costuras, fechos, tecidos e montagem precisam funcionar em conjunto.
Respirabilidade não significa ausência de suor
Nesse contexto, “respirável” se refere ao transporte de vapor de água. Não significa que o tecido permita a passagem livre de ar, nem que consiga eliminar instantaneamente todo o suor de uma subida intensa.
A Gore explica a diferença entre respirabilidade e ventilação: o transporte de vapor depende das condições de umidade e temperatura dos dois lados do material. Por isso, o conforto também depende de como você regula o esforço e as roupas. Abrir uma ventilação ou retirar uma camada, quando as condições permitem, continua sendo útil.
Impermeabilidade e isolamento térmico são funções diferentes. Uma jaqueta impermeável sem enchimento não substitui as camadas de aquecimento. Da mesma forma, a presença de GORE-TEX numa bota não indica, sozinha, que ela seja adequada a qualquer temperatura. Confira a finalidade do modelo.
O que significam duas ou três camadas?
Essas expressões descrevem a construção do material, não a quantidade de peças de roupa que você deve vestir. Na construção de duas camadas, tecido externo e membrana são laminados. Na de três camadas, um tecido interno também integra o laminado, conforme a descrição da própria marca.
A contagem de camadas, sozinha, não determina peso, flexibilidade, resistência ou conforto. Compare a ficha do equipamento e o uso previsto. A lista de tecnologias e a comparação de 25% atribuída ao XCR na versão de 2010 não devem ser tomadas como uma classificação dos produtos atuais.
Também não trate qualquer produto associado à marca como uma capa de chuva. A linha WINDSTOPPER by GORE-TEX LABS é voltada à proteção contra o vento e à respirabilidade; a marca não a classifica como duravelmente impermeável. Confira a tecnologia indicada na etiqueta.
Quando escolher um calçado com membrana?
Uma membrana impermeável pode ser útil em caminhadas com chuva, vegetação molhada e solo úmido. Isso não torna obrigatório usar uma bota impermeável em toda trilha. A escolha depende das condições e do ajuste do calçado, e não apenas do nome da tecnologia.
Não confunda a impermeabilidade do material com a possibilidade de submergir o calçado: água que ultrapasse o cano pode entrar pela abertura. Meias molhadas e umidade produzida pelos pés também afetam o conforto. Planeje o conjunto e leve em conta a possibilidade de secagem durante a atividade.
As outras camadas também importam
As roupas em contato com a pele e as meias participam do manejo da umidade. Tecidos sintéticos e misturas técnicas podem ser boas escolhas para caminhar, mas nenhum deles garante pés ou corpo permanentemente secos. Tamanho, espessura, ajuste e troca de peças molhadas merecem atenção.
Uma camiseta de secagem rápida, por exemplo, cumpre uma função diferente da jaqueta impermeável. Uma meia técnica também não contém necessariamente GORE-TEX: ela complementa o calçado, sem substituir sua proteção contra a água.
Exemplos na Loja AltaMontanha
Estas opções tinham estoque na consulta desta revisão. Confira os tamanhos disponíveis antes de comprar:
- Bota La Sportiva Trango Trk Leather GTX Carbon | Alpine: exemplo de calçado com GORE-TEX Performance Comfort, segundo a ficha da loja. Combina cabedal de couro e microfibra com solado Vibram. Escolha pela atividade e pelo ajuste aos pés; a membrana não é uma classificação de isolamento para frio extremo.
- Meia Lorpen Pro Trek Coolmax Light Crew: opção de meia de cano médio para complementar botas e tênis. A composição informada é 50% poliamida, 33% poliéster, 15% liocel e 2% elastano. A loja a indica para primavera, verão e outono; ela não é uma meia impermeável nem um produto com GORE-TEX.
Como cuidar do equipamento
Limpeza e conservação fazem parte do desempenho. O tratamento repelente à água, chamado DWR, ajuda a água a formar gotas na superfície externa. Ele é diferente da membrana impermeável e pode precisar de manutenção conforme o produto.
Para calçados, a orientação oficial da Gore é retirar sujeira, limpar conforme as instruções do fabricante e secar naturalmente, sem calor direto. A marca orienta não lavar esses calçados na máquina e não usar ceras ou graxas impermeabilizantes que possam prejudicar a respirabilidade. Use apenas produtos compatíveis com o seu modelo.
Roupas têm instruções próprias: siga a etiqueta para lavagem, secagem e manutenção do DWR. Não aplique a uma bota o procedimento de secagem ou aquecimento de uma jaqueta.
Escolha o conjunto para as condições da sua caminhada. O GORE-TEX pode ser parte desse conjunto, mas conhecer sua função e seus limites é tão importante quanto conhecer o nome na etiqueta.
Por Beto Joly (AltaMontanha.com). Texto original publicado em 2010, com informações técnicas e links atualizados nesta revisão.







