O Himalaia é uma entidade vasta demais para caber nos clichês ocidentais. Quando a maioria dos montanhistas planeja uma incursão à maior cordilheira do planeta, o roteiro quase sempre obedece a um script consolidado: voo para Catmandu, pequeno avião até Lukla, trilhas povoadas por trekkers do mundo inteiro, pontes pênseis sobre rios caudalosos e a infraestrutura comercial e confortável dos lodges nepaleses (o que não quer dizer que isso seja ruim, aliás eu amo a região do Everest).
Pouca gente se dá conta de que o Himalaia não termina, e nem começa, no Nepal. Ao norte da grande barreira orográfica que retém as monções do Índico, na porção setentrional da Índia, estende-se um território completamente à parte: o Ladakh e a remota região de Zanskar. É um Himalaia árido, mineral, de ventos cortantes e vales profundos, onde a montanha ainda exige o espírito das expedições clássicas do século passado: autonomia, logística pesada, desconexão forçada e respeito absoluto pelas regras impostas pelo relevo.
Nosso objetivo era o Monte Kun (7.077 m), o ponto culminante acessível do maciço de Nun-Kun. Uma montanha gigantesca, técnica e isolada, que até então nunca havia registrado pegadas brasileiras em seu ponto mais alto.
O choque de Leh e o “Pequeno Tibete”
Aterrissar em Leh (3.500 m), a capital do Ladakh, é um alívio imediato para quem acabou de cruzar o calor asfixiante e o formigueiro caótico de Nova Déli. A mudança barométrica e cultural é instantânea. Saímos do ar úmido das planícies indianas para um deserto frio de altitude cercado por cristas agudas e leques aluviais imensos.

O Palácio de Leh, idêntico ao Palácio de Potala onde viveu Dalai Lama em Lhasa, no Tibet.
Diferente de quase todas as cidades do sul da Ásia, Leh reserva surpresas raras para quem gosta de caminhar. No centro antigo, ruas de paralelepípedo exclusivas para pedestres permitem circular sem a constante ameaça de atropelamento por carros ou motos. Há cachorros comunitários bem cuidados dormindo ao lado de grandes rodas de oração budistas, lojinhas de artesanato e mercados com preços acessíveis. Dominando o horizonte da cidade, empoleirado sobre uma colina rochosa, ergue-se o imponente Palácio de Leh, construído no século XVII pela dinastia Namgyal e visivelmente inspirado na arquitetura clássica do Palácio de Potala, em Lhasa. A sensação visual constante não é a de estar na Índia clássica, mas sim no coração do antigo Tibete.

Nosso grupo no Monastério após receber a Puja
A gastronomia local também se encarregou de nos introduzir à região. Jantamos no acolhedor Tibet Kitchen, provando curries densos e cheese naan que colocaram à prova a tolerância dos paladares brasileiros à pimenta, embora para mim os temperos indianos soem familiares e bem-vindos. Sem preconceitos com relação à comida indiana, ela é maravilhosa! (Escrevi um texto sobre ela em minha Coluna no Portal IG).
Na manhã seguinte, visitamos um monastério nos arredores da cidade para cumprir um rito indispensável a qualquer expedição no Himalaia: a puja. Conduzida por um monge budista com a presença da equipe de sherpas que trabalharia conosco, liderada pelo experiente Namgyal – que recebe o nome do maior rei de Ladakh, a bênção cerimonial trouxe a tranquilidade psicológica necessária antes de calçar as botas duplas (e triplas).
O labirinto burocrático da Indian Mountaineering Foundation (IMF)
Se a atmosfera budista acalma o espírito, a burocracia do Estado indiano exige estoicismo. Enquanto o restante da equipe realizava uma caminhada de aclimatação rumo à cota dos 4.000 metros, tive que comparecer à sede regional da Indian Mountaineering Foundation (IMF), o órgão governamental que fiscaliza e autoriza todas as expedições de montanha no país.
A reunião foi um exercício de formalismo minucioso. Participei de uma videoconferência com o presidente da entidade e assinei pilhas de documentos confirmando exigências operacionais e ambientais: a responsabilidade civil pelos trabalhadores contratados, a obrigatoriedade estrita de recolhimento de todo o lixo e o compromisso legal de desinstalar e retirar integralmente cada metro de corda fixa colocado na montanha.
Havia ainda formulários kafkianos exigindo a catalogação de cada bota, óculos de montanha e mosquetão estrangeiro, tudo para evitar que equipamentos importados permaneçam no país além do prazo de três meses sem o devido imposto alfandegário.
A maior complicação, contudo, é a política de segurança nacional da Índia para as zonas de fronteira:
- Proibição absoluta de comunicadores via satélite: Aparelhos como Garmin inReach, telefones satelitais (Iridium/Thuraya) e terminais Starlink são terminantemente banidos sob risco de apreensão criminal.
- Isolamento operacional: Em pleno século XXI, escalar uma montanha de 7.000 metros na Índia significa operar sem rastreamento em tempo real e sem qualquer botão de SOS digital. A tomada de decisão em campo precisava ser cem por cento autônoma.
Da mítica rodovia NH-1 ao isolamento do Vale Suru
Com as licenças em mãos e as cargas separadas, embarcamos em um micro-ônibus pela rodovia NH-1 rumo a Kargil. Essa estrada não é uma via qualquer; ela corta vales áridos e desfiladeiros dramáticos que serviram de cenário para os violentos confrontos da Guerra de Kargil, em 1999. Ao longo do caminho, oásis pontilhados de álamos verdes contrastam com encostas de rocha nua e monastérios esculpidos diretamente nos paredões graníticos, como o impressionante relevo do século I a.C. em Mulbekh.

Cartaz na cidade de Kargil enaltece lideres iranianos xiitas em plena Índia.
Chegar a Kargil revela uma virada cultural abrupta. Embora ainda estejamos dentro do território de Ladakh, a influência budista desaparece por completo. Kargil é uma cidade predominantemente muçulmana xiita, habitada por povos de traços que remetem à Ásia Central e ao Baltistão. Fica a meros 10 quilômetros da Linha de Controle com o Paquistão. Nas ruas estreitas do centro, cartazes dos aiatolás iranianos decoram fachadas comerciais, atestando laços religiosos profundos com o Oriente Médio.
De Kargil, deixamos o asfalto e entramos no selvagem Vale do Rio Suru. A via de terra crua, aberta aos trancos em vertentes rochosas instáveis, serpenteia ao lado de águas revoltas até alcançar a confluência do Rio Shafat. Ali, sob a imponente sombra granítica da Torre de Shafat, a estrada finalmente terminou. Descarregamos o ônibus por volta das 11h40 da manhã, nos despedimos do oficial de ligação governamental e assumimos a marcha a pé.
O Campo Base e a vida no Glaciar Shafat (4.550 m)
A caminhada de aproximação até o Campo Base avançou pelas margens do Shafat. O trecho inicial é surpreendentemente bucólico: pastagens de altitude cobertas por gramíneas densas, onde pastores nômades tocam rebanhos de centenas de cabras. Aos poucos, no entanto, a vegetação cedeu espaço à morena frontal da geleira.

Atravessando o rio Suru para acessar o vale do Shafat. O começo da expedição.
Saltando cursos de água de degelo sobre blocos instáveis para evitar molhar os pés, subimos pelas bordas do tálus morênico até alcançar uma superfície aplainada a 4.550 metros. Nossas mulas de carga logo encostaram no platô trazendo a estrutura pesada da expedição.
Montamos o acampamento com domos refeitório e cozinha, barracas duplas confortáveis com colchões reforçados e uma engenhosa barraca-banheiro montada sobre pedriscos com um estrado perfurado. Ali, a higiene pessoal era garantida pelo clássico “banho de canequinha”, um balde de água fervida misturado a um balde de água fria, um luxo revigorante em dias sem vento.
O dia 16 de agosto foi marcado por mais uma cerimônia de puja, desta vez no próprio Campo Base. Os sherpas ergueram um chörten com pedras locais, estenderam linhas de bandeiras de oração coloridas até as barracas e queimaram ramos de folhas silvestres e incensos. Nenhum deles era monge letrado, mas a devoção tímida com que entoaram os mantras trouxe uma atmosfera solene e protetora que uniu a equipe antes do início do trabalho duro.

Expedição reunida no acampamento base do Monte Kun após celebrarmos a Puja.
O avanço aos Campos de Altitude: Entre lances mistos e decisões difíceis
Nossa estratégia no Kun obedeceu ao princípio fisiológico clássico: “subir alto para aclimatar e estocar material, descer baixo para dormir e recuperar tecidos”.
Campo 1 (5.340 m) e a zona de ablação
A subida até o Campo 1 começa transpondo o rio ao lado do acampamento e subindo uma morena lateral íngreme com botas leves de aproximação. Logo acima, entramos no ambiente periglacial do Shafat: uma zona de ablação caótica onde o gelo fóssil milenar se mistura com toneladas de detritos e blocos soltos despencados das paredes adjacentes.

Acampamento 1 do Monte Kun com a parede que leva até o campo 2 ao fundo.
Calçamos as botas duplas e crampons para avançar por cerca de duas horas sobre o gelo vivo até o Campo 1, instalado a 5.340 metros. Após depositar equipamentos de cume e mantimentos em barracas já adiantadas pelos sherpas, retornamos ao Campo Base. No caminho, reencontrei montanhistas espanhóis com quem havia compartilhado rota anos antes no Spantik, no Paquistão, a montanha cria esses encontros improváveis.
A muralha chave: Rumo ao Campo 2 (~6.000 m)
A transição entre o Campo 1 e o Campo 2 representa o divisor de águas técnico do Monte Kun.
Após uma rampa de neve com 35° a 40° de inclinação que exige ritmo respiratório disciplinado, a rota esbarra em uma imensa parede mista. São lances verticais contínuos de gelo duro entrecortados, na cota dos 5.700 metros, por um ressalto rochoso exposto. Ali é necessário ascender tracionando blocantes mecânicos (jumares) sob cabos de corda fixa, apoiando as pontas frontais dos crampons sob o gelo nem sempre bom.

A parede entre o campo 1 e campo 2, um dos trechos mais difíceis do Monte Kun
Foi um dia de extrema tensão logística e física. Como parte da equipe sentia o desgaste e a bagagem coletiva era expressiva, acoplei duas mochilas cargueiras nas minhas costas, totalizando cerca de 25 quilos de peso vivo, para aliviar a carga compartilhada dos nossos sherpas, que já subiam no limite com barracas e botijões de gás. Subir a parede jumariando com esse volume exige uma coordenação motora milimétrica; a mochila de cima desequilibra o centro de gravidade e qualquer erro de manobra rasga o tecido nas arestas de pedra.
Nesse trecho, pequenos detalhes operacionais fizeram a diferença: tive que reajustar o tamanho do talabarte de segurança de companheiros de equipe que escorregavam na corda fixa e coordenar apoios quando a neve começou a cair com força. Chegamos ao platô do Campo 2 (~6.000 m) exaustos após cerca de seis horas de esforço vertical contínuo, enquanto a média normal para essa seção costuma beirar as oito horas.

Acampamento 2 do Monte Kun noturno.
Ao amanhecer no Campo 2, enfrentamos a primeira grande prova humana da viagem. Desgastes físicos severos e limitações de saúde atingiram membros da equipe, tornando inviável e perigosa a continuidade da ascensão. Montanhismo de alta altitude é, antes de tudo, gerenciamento de risco e empatia. Combinamos com o sirdar Namgyal para que ele coordenasse a descida assistida e segura desses companheiros de volta ao Campo 1 assim que uma tempestade de vento e neve deu trégua, enquanto nós seis restantes mantínhamos o plano de ataque com os cinco sherpas disponíveis.
Campo 3 (~6.300 m): O anfiteatro silencioso
Progredir do Campo 2 para o Campo 3 foi um alívio cinemático. A rota percorre um amplo anfiteatro glacial com desnível topográfico suave. Embora estivéssemos sobre uma geleira maciça cercada por paredes grandiosas, as gretas eram escassas, estáveis e perfeitamente visíveis, permitindo que caminhássemos confortavelmente sem nos encordar.
Instalamos o Campo 3 na cota dos 6.300 metros sob a face imponente da pirâmide do Kun. O objetivo primordial era descansar o máximo possível durante a tarde, hidratar o organismo com litros de neve derretida e tentar driblar a ansiedade antes da investida final.

Aproximando o campo 3 do Monte Kun.
A noite de ataque e a crista somital
O ataque ao cume começou no breu das 22h00. A noite estava límpida, de um azul profundo e quase sem lua, com frio severo e ar estagnado.
Da saída das barracas até a base da montanha, a caminhada é suave. Porém, assim que atingimos a encosta, a rota ataca diretamente a parede através de cordas fixas. Logo na base, superamos uma enorme e intimidante greta terminal (bergschrund), vencida por lances íngremes onde o pêndulo na corda fixa exigia tração firme nos braços para não perder o contato com a superfície de gelo.
Transposta a rimaya, desembocamos sobre a crista leste. O terreno aqui se transforma em uma aresta afiada de neve compactada, com abismos verticais caindo para ambos os lados em direção aos vales de Zanskar. No escuro da madrugada, não víamos o fundo do precipício, mas a sensação de exposição era absoluta. Cada passada de crampom precisava ser calibrada com rigor: pés paralelos, equilíbrio milimétrico e o olhar fixo no círculo dourado projetado pela lanterna de cabeça.
Após horas de marcha sobre o gume da crista, alcançamos o primeiro platô seguro para descansar. Paramos amarrados às ancoragens, compartilhamos um gole revigorante de chá quente das garrafas térmicas e respiramos fundo.
Dali em diante, a crista cedeu lugar a uma encosta ampla, entrecortada por sucessivos ressaltos estruturais. Esse relevo é uma tortura psicológica: você sobe uma rampa com inclinação brutal acreditando que atingirá o cume, apenas para ver a encosta deitar ligeiramente e revelar outro patamar inclinado logo à frente. É a clássica sucessão de falsos cumes sob a hipóxia dos 6.900 metros, onde cada dez passos exigem uma pausa apoiado sobre os bastões para oxigenar os pulmões.
Foi exatamente na superação desses últimos ressaltos que a alvorada explodiu no horizonte. O sol rompeu a névoa distante tingindo o relevo da Ásia Central em tons de cobre, ouro e azul-escuro, projetando as sombras pontiagudas dos gigantes de gelo por centenas de quilômetros sobre as nuvens baixas.

O Himalaia no alvorada vista da parte alta do Monte Kun.
7.077 metros: O cume e a geopolítica do alto
Vencido o último degrau de neve dura, o terreno perdeu gradiente por completo. Não havia mais nada para subir. Estávamos no ponto culminante do Monte Kun.
No cume, a sensação não foi de festa ruidosa, mas de um silêncio reverente. O Wenceslau Madeira simplesmente se deitou na neve fofa, contemplando a vastidão do céu. Logo se juntaram a nós o nosso amigo russo Alexander Ignatov e o Thiago Melo, superando dores intensas na coluna para selar a subida. Esperei pacientemente a chegada da Maria Tereza, que avançava com passada metódica e constante, para juntos registrarmos as fotografias no ponto mais alto.
Do topo do Kun, a geografia física se funde de maneira dramática com a geopolítica mundial. Estávamos em um vértice onde convergem as fronteiras de três potências nucleares e históricas: Índia, Paquistão e China (Tibete). Olhando através do ar rarefeito e transparente da manhã, conseguimos divisar com clareza a pirâmide perfeita do K2 e a silhueta colossal e isolada do Nanga Parbat, sentinelas ocidentais da cordilheira do Karakoram e do Himalaia.
Até onde os registros históricos e os anais esportivos apontam, tratou-se da primeira expedição brasileira a pisar no cume desta montanha monumental. Para mim, pessoalmente, representava a conclusão do meu terceiro cume acima dos sete mil metros no Himalaia.

No cume do Monte Kun com Wenceslau Madeira e Mingma Sherpa.
O retorno à terra firme
A celebração em um cume dura minutos; a descida exige horas de sobrevivência lúcida. Iniciamos o retorno rapelando as linhas fixas da crista somital até o Campo 3. No dia seguinte, desmontamos o acampamento avançado e encaramos a longa descida até o Campo Base.
Na descida da grande parede entre o Campo 2 e o Campo 1, tivemos de gerenciar um engarrafamento: uma grande equipe de montanhistas indianos subia lentamente pelos mesmos cabos em que precisávamos rapelar, obrigando-nos a longas esperas pendurados nos pontos de ancoragem enquanto blocos de gelo e pedras começavam a se soltar com o aquecimento solar da manhã.
Com paciência e técnica, cruzamos a morena inferior e alcançamos a segurança da grama do Campo Base para comemorar com nossa impecável equipe de cozinha. Pagamos as justas gorjetas, descansamos o corpo ao som relaxante do rio Shafat e, no dia seguinte, embarcamos de volta através do profundo e vertiginoso cânion do Vale de Zanskar.
O Monte Kun é uma montanha que se escala uma única vez na vida. Deixou marcas nos músculos, reflexões profundas sobre as decisões tomadas sob frio extremo e a certeza de que a Índia de montanha guarda um dos territórios mais fascinantes, autênticos e esquecidos do nosso planeta.
Esta expedição ao teto de Ladakh faz parte de uma série de crônicas de viagem que estou publicando no Portal iG, explorando os choques culturais e as nuances da Índia profunda:
:: Um Mundo Chamado Índia: Como a História Moldou o Subcontinente
:: História e o Fogo no Prato: Uma Expedição pelos Sabores da Índia
:: Ladakh: o pequeno Tibet indiano
:: Leh: o oásis de Ladakh e seu Palácio Real
:: Guerra de Kargil: o último grande embate entre Índia e Paquistão.







