O Último Nascer do Sol do Brasil: O PN da Serra do Divisor

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Já falei antes sobre a Serra do Divisor. Abordo agora o PN a que pertence. Ele é uma reserva peculiar, situada na Amazônia, mas sujeita à influência dos Andes – no seu relevo e vegetação. Está na divisa com o Peru, em terras que eram no passado da Bolívia. Uma região baixa e úmida, recoberta pelo arenito e pelas palmeiras, com serras humildes e rios caudalosos.

Os parques naturais amazônicos são gigantescos, pelo menos para o meu padrão do Sudeste. Pois o PN da Serra do Divisor abrange 838 mil ha, uma área comparável ao Líbano ou à Jamaica. Apesar de ocupar um Estado relativamente pequeno, é nossa quarta maior reserva. Existe no Peru outro Parque de mesmo nome, porém muito maior, com 1.354 mil ha, que abriga os índios isolados (ou seja, sem contato) Isconahuas.

O Parque fica inteiramente no Acre, no limite ocidental do país, junto ao Peru. É uma das cinco reservas fronteiriças do Brasil. Todas elas são amazônicas. A vizinhança do Peru ocasiona muito contrabando, principalmente de drogas, junto com a violência que as acompanha. Há áreas de visitação proibida e o Exército lá opera destacamentos de fronteira.

A Serra do Divisor tem este curioso nome não por causa da matemática, mas da geografia. Um divisor é um acidente, tipicamente uma crista mais elevada do que os terrenos adjacentes, que separa duas bacias. De cada lado do divisor, as águas escoam em direções opostas. Nem sempre na matemática um divisor produz resultados aceitáveis, por exemplo na presença das indigestas frações ou dízimas.

Assim também na geografia, pois às vezes as águas divididas podem correr ora numa, ora noutra direção, dependendo do regime das chuvas – são as chamadas águas emendadas. O Brejo do Veredão na Bahia e o Canal de Maturacá no Amazonas são dois exemplos. Porém nenhuma é tão emocionante como a gigantesca coalescência das águas no norte do Pantanal.

Mas não há risco desta ocorrência no PNSD. Sua cumeeira separa as bacias do Ucayali peruano da do Juruá brasileiro. O primeiro é um dos formadores do Rio Amazonas, pois suas águas confluem depois de 1.500 km para o Marañon, que abastece o Solimões, nome dado ao alto Amazonas. O segundo é um afluente direto da margem direita do Amazonas, onde deságua após de 3.000 km. É curioso como ambos nascem no Peru, morrem no Amazonas e contornam cada qual um dos lados a Serra do Divisor.

Mapa Físico do Acre (Fonte: IBGE)

O Acre é um dos nossos Estados com menor densidade demográfica, de 5 habitantes/km², e o mais recentemente povoado. Até meados do século XIX não se pensou em povoamento sistemático da área. Isto só ocorreu no último quartel do século, quando migrantes do Ceará colonizaram o território à busca da borracha. Até então, a região pertencia à Bolívia.

Mas os seringalistas proclamaram um governo independente na região. Seu objetivo era afastar o domínio boliviano para depois pedir anexação ao Brasil, como acontecera com o Texas norte-americano. Mas o Governo brasileiro sensatamente achou melhor extinguir esta república, negociar com a Bolívia e comprar o Acre no começo do século XX. Houve depois um segundo surto da borracha, mas hoje os seringais asiáticos tornaram os nossos inviáveis.

A negociação coube ao Barão do Rio Branco, que conseguiu convencer os bolivianos a ceder uma região que nosso governo hava reconhecido durante os trinta anos anteriores como boliviana. Na realidade, foi uma compra – por 2 milhões de libras, adquirimos quase 200 mil km² de floresta altamente cobiçada, devido ao látex. Se não me enganei, pagamos a miséria de US$ 1.500 em moeda de hoje por km² – a mais barata terra nua de seringal no Acre vale hoje 25 vezes mais (dados do INCRA).

O Território foi criado no ano seguinte à compra, porém com quatro capitais, para frustração dos acreanos. O movimento autonomista local foi contido quando as quatro prefeituras departamentais foram unificadas em um único governo territorial. Finalmente, em 1962 o Acre foi elevado a Estado. É uma economia basicamente extrativista, rica em madeiras, seringueiras e castanheiras.

Ocupa um baixo platô arenítico, com uma altitude média de 250m, inclinado para o NE, no rumo do Rio Amazonas. É recoberto pela floresta amazônica, numa região de grande biodiversidade, mas pobre e vazia – e visualmente um tanto monótona.

Atravessando o Rio Moa, Mâncio Lima, AC

Os principais rios do Acre, como o Juruá, o Purus e o Acre, são navegáveis, em especial nas cheias. Eles atravessam o Estado com cursos quase paralelos, sempre no rumo norte, e que só vão confluir fora de seu território. Suas águas são escuras e barrentas, com cursos tipicamente de planície, lentos e sinuosos. A Amazônia é impressionante, mas não é bonita.

Parte do bordo oeste do Acre, na divisa com o Peru, é ocupado por uma fina e sinuosa faixa onde foi criado o PNSD. Na realidade, tem um formato curioso, com dois bolsões a norte e a sul, separados por uma estreita cintura central, por onde corre o Juruá Mirim. Essa é a razão da cintura, pois os rios são normalmente usados como limites das reservas.

Tanto o Juruá como o Moa têm suas margens habitadas, sempre que houver barrancos suficientemente elevados para prevenir as cheias. São dezenas de comunidades, todas elas escassamente habitadas. As moradias são barracos simples de madeira, que seguem o mesmo e pobre desenho básico.

Cânion do Rio Moa, PN Serra do Divisor, AC (Fonte: Divulgação)

O Parque não foi desapropriado e é habitado por talvez 8 mil moradores. Eles se distribuem ao longo das bacias dos quatro rios a seguir citados, sendo o sul mais populoso do que o norte. Você já sabe, o plantio das roças, a criação do gado, a pouca extração do caucho e a caça e pesca ainda continuam.

Devido às atividades das populações ribeirinhas, o Parque a rigor funciona como uma RDS (Reserva de Desenvolvimento Sustentável). Acho improvável que seus ocupantes, alguns nascidos lá e outros estabelecidos há dezenas de anos, jamais sejam expulsos. São todos grileiros, nenhum possuindo titulação da terra. Legalmente, sequer podem ser indenizados.

Evidentemente, esta é uma região com forte influência indígena. A população dos índios no Acre deve ser próxima de 10 mil indivíduos. Pertencem a uma dúzia de etnias, algumas das quais contempladas com reservas – das quais há uma dezena no Estado. Próxima ao PN existe a Terra dos Nukini – os vizinhos Nawa, de quem se conta que praticamente perderam sua cultura, lutam há 20 anos pela sua.

No PNSD ou em suas proximidades existem as tribos Nukini, Nawa, Katurini e Kampa. Estão crescentemente aculturados, apenas os Kampa (originários do Peru) ainda mantendo aparentemente a sua identidade cultural. A convivência entre o PN, os índios e os grileiros nem sempre é fácil.

Floresta Aberta, PN Serra do Divisor, AC (Fonte: Divulgação)

O acesso ao PN é horroroso, pois parte de Cruzeiro do Sul, a mais de 600 km rumo NW da capital Rio Branco. Pela rodovia você pode levar de nove horas a mais de um dia: buracos, pontes, lama, barreiras, especialmente nas chuvas. Prefira voar, existem voos comerciais regulares.

Avance por asfalto até a vila próxima de Mâncio Lima e, se o seu bolso e a estação permitirem, contrate uma lancha rápida: serão de 6 a 8 horas pelo Moa a norte ou Juruá a sul. As outras alternativas são mais lentas: motor de rabeta, pajola ou baleeira (neste caso, serão 1½ dias!).

Como o PNSD não possui estrutura ou sinalização, você dependerá dos moradores locais para conhecer os atrativos. Evidentemente, a floresta amazônica não é um ambiente propício para treks ou travessias.

Só conheci o ambiente do Moa, um rio de talvez 200 km com um curso terrivelmente sinuoso. Você encontrará alojamento na comunidade chamada Pé da Serra, próxima aos atrativos descritos abaixo.

Cachoeira Formosa, PN Serra do Divisor, AC (Fonte: Thalita Figueiredo)

Os principais pontos de interesse me parecem ser três. O Mirante é uma íngreme rampa de 1¼ km dentro da mata, com uma ampla vista da serra, descortinada na altitude de 410m. A Cachoeira Formosa é alcançada por uma trilha irregular de 15 km, parcialmente dentro de um igarapé. São três quedas, na altura de talvez 20m. Esta caminhada em geral é feita em dois dias. E a bonita e pequena Cachoeira Pirapora, que flui docemente de um lajeado á beira do rio.

Cachoeira Pirapora, PN Serra do Divisor, AC

O PNSD acompanha aproximadamente a Serra de mesmo nome (também conhecida por seu nome peruano de Contamana), ao longo de cerca de 350 km. Estão nela os locais mais elevados do Estado, a exemplo do seu ponto culminante no entorno de 610m.

Este é uma região peculiar, pois as movimentações do relevo foram afetadas pelo soerguimento dos Andes. Ele inclinou a região para o leste, invertendo o sentido anterior, que era ocidental. Os dobramentos e falhamentos originaram a Serra do Divisor, que foi recoberta por sedimentos areníticos relativamente recentes.

Considere que o Escudo das Guianas a norte da depressão amazônica tem uma origem antiquíssima, de talvez 3 bilhões de anos, tendo sido suas rochas retrabalhadas a partir de 2½ bilhões de anos. Já o Parque apresenta um substrato datado de menos de ½ bilhão de anos, retrabalhado a partir de 200 milhões de anos.

Serra do Divisor, PN Serra do Divisor, AC (Fonte: Jezaflu Jesus)

A Serra não é contínua, como você poderá observar se subir a curta e íngreme trilha do Mirante da Serra do Moa, que é um contraforte do Divisor. Ela se dispõe numa série de blocos separados, os três maiores a norte e a seguir uma formação pequena no centro. Acredito que não haja elevações ao sul. O ponto culminante é o pontão que você observará à sua direita. Fica na divisa com o Peru e é localmente chamado de Peito de Moça.

A serra não possui um visual interessante, devido aos pequenos desníveis e à limitada presença de paredes rochosas. As encostas serranas costumam, ao contrário, ser recobertas pela floresta. Seu relevo se apresenta um tanto confusamente sob a forma de espigões, colinas e tabuleiros. A leste da Serra aparecem os terraços, os vales e as planícies.

Floresta Densa, PN Serra do Divisor, AC (Fonte: Divulgação)

A vegetação é peculiar, pela existência de espécies andinas. Cerca de 80% da área é recoberta pela floresta aberta, com muita presença de palmáceas e de bambus. Existe uma variedade inacreditável de diferentes palmeiras (como paxiubas, bacabas, caranais e jauaris), de tabocas gigantes e de altas árvores como as samaúmas e os tauaris. É somente nas partes altas que ocorre a floresta densa. Mas o visual não é exuberante, talvez pelo espaçamento e pela altura das árvores.

A fauna é abundante, especialmente na sua variedade. Mas não é propriamente endêmica, a não ser talvez em espécies de tamanho reduzido – aves ou anfíbios, aranhas ou morcegos. É dificil avistá-la, mas é composta por felinos e veados, antas e pacas, muitos macacos (alguns dos quais raros), raposas e catetos, araras e gaviões, jacaré e sucuris. Na maior parte das vezes, você poderá comer deliciosos surubins.

O clima é tropical úmido, com chuvas torrenciais durante o chamado inverno, que vai de outubro a junho. Mesmo durante a estação seca, a precipitação mensal chega a 60mm. A parte sul do PNSD é mais úmida, com até 2.750mm anuais; na norte, num ano mais seco chove 2.250mm. Então, é quase impossível você não se molhar.

Os principais rios são o Juruá, com seu afluente Juruá Mirim, e o Moa, com seu afluente Azul. Exceto o Juruá e o Moa, são cursos curtos, não ultrapassando 150 km. O Moa apresenta várias cachoeiras pequenas à sua volta. O Juruá tem algumas corredeiras. A vazão destes rios é fortemente variável na estação úmida – cresce de 2 para 6 km/h. Alguns deles não são navegáveis na seca.

As nascentes do Moa estão em nosso ponto extremo oeste – assim, será a última localidade brasileira a enxergar o sol nascente. Ou também a última a observar o poente.

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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

1 comentário

  1. Avatar
    Marcelo Baptista em

    Excelente texto! Obrigado pelas informações, tenho como meta de vida conhecer todos os PN brasileiros – ja foram quatorze da listinha abençoada. Grande abraço!

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