O Vão da Babilônia

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Começo aqui uma série de três comentários sobre uma região que considero espetacular, mas que me parece mais visitada por jipeiros do que por andarilhos: a Canastra. Esta minha primeira coluna vai abordar a região onde primeiro lá estive, chamada de Babilônia. Não me pergunte de onde veio este nome, mas ele passa uma ideia de grandes espaços e de antigos passados, que me parecem bem adequados ao belo chapadão que lá existe.

Durante anos a fio, apesar de fértil, este foi um vale fechado, sem comunicação com as regiões vizinhas. Uma tarde, lá encontrei uma moça à sombra de uma árvore, tomando notas. Era uma pesquisadora, estava estudando a genealogia local.

Disse-me que muitos dos moradores eram descendentes de um mesmo povoador, chamado Custódio. Tão poucas eram as trocas com a vizinhança, que você poderia reconhecer seus descendentes pelo aspecto comum: gente clara e magra, de belos olhos azuis.

Não estou falando de tempos tão antigos nem de regiões tão remotas. O Vão da Babilônia fica em Minas, integrando um chapadão de mesmo nome, fronteiriço ao Rio Grande. A maior cidade próxima é a mineira Passos, do outro lado do rio. Existem acessos até mesmo asfaltados e razoáveis estradas de terra.

Vista Frontal do Vão da Babilônia, MG (Fonte: Divulgação)

Minha primeira visita quase foi traumática: só era possível atravessar por balsa o Rio Grande (como ainda hoje). Chegamos bem de noite, junto com um ônibus que levava uma banda, dessas que tocam instrumentos de sopro em desfiles.

Ao iniciarmos a travessia, a balsa começou a perigosamente adernar. Toca pra não afundar! alguém gritou. Foi muito estranho ouvir aqueles sopros graves ecoando no meio da noite. E funcionou, pois a balsa encostou e depois endireitou. Mas é uma travessia linda, o rio tem uma mansa amplidão azul onde você parece parado para sempre na água.

Vão da Babilônia, São João Batista do Glória, MG

Voltei lá algumas vezes, hospedando-me na casa de um casal idoso, bem no meio do vale. Para minha surpresa, na última vez tinham construído uma casa parecida bem ao lado, a outra estando vazia. Entrei para cumprimentá-los, mas estavam tão caducos que nem me reconheceram, nem me responderam. Mas os olhos da velhinha tinham o mesmo azul bonito de sempre. Acho que algum progresso chegou lá, pois ouço falar de duas pousadas, uma em cada extremidade do Vão.

Região do Vão da Babilônia, MG (Fonte: André Dib)

Mas porque chamar de Vão? Como mostram as fotos, ele é um vale estreito e retilíneo, encaixado entre duas paredes paralelas. Você só poderá entrar e sair contornando serras nas duas extremidades – a do Quilombo, que leva às terras mais planas no rumo do rio, e a Branca, que ao contrário sobe para os infinitos chapadões elevados.

Nos Altos do Chapadão da Babilônia, MG (Fonte: Evandro Oliveira)

Suas paisagens são deslumbrantes, devido à perspectiva das paredes alinhadas, à beleza rude da vegetação e ao colorido entre palha, verde e azul do ambiente. O aspecto é bem diferente conforme a estação, árido no inverno e verdejante no verão. Nas proximidades, existem cachoeiras, em especial a monumental queda do Quilombo.

Penso que um dos aspectos desta região que mais me atrai é sua permanência. Ela é tão distante e despovoada que pouco mudou ao longo dos tantos anos em que a conheço, apesar de ser um local agrícola, com áreas até bastante produtivas.

Vista do Alto da Serra da Guarita, Canastra, MG

Mesmo que construam uma cerca ou um retiro nos altos da serra, ou troquem um pasto por uma lavoura no vale, acredito que ela não será descaracterizada, ao contrário do que acontece com tantos outros locais de beleza natural. A cada vez que retornei, pareceu que eu nunca tinha ido embora.

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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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