A Serra da Guarita

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Na coluna anterior, descrevi o Vão da Babilônia. Escrevo agora sobre a cênica Serra da Guarita, que junto com a Babilônia, integra a deslumbrante região da Canastra.

Acho bom começar explicando a enorme geografia da região. Quem atravessa o Rio Grande vindo de São Paulo encontra uma série de serras longas e paralelas, correndo num sentido vagamente leste-oeste. Elas criam três dobras sucessivas, afastando-se do rio, cada qual um pouco mais alta do que a anterior:

Mapa da Região da Serra da Canastra, MG

A primeira ondulação é formada pelos 40 km das Serras Preta e Grande, alinhadas entre si e separadas pelo nervoso Ribeirão das Bateias. Neste sistema, frontal a quem cruza o Rio Grande, a linha do relevo é bem mais acidentada do que as demais, as altitudes máximas atingem 1.300m e a vegetação é predominantemente de cerrado.

A segunda, com extensão semelhante, inclui as Serras do Cemitério, Sete Voltas e Guarita. A vegetação é de campo e os pontos mais altos estão a 1.400m. As últimas duas serras convergem à frente do Chapadão da Babilônia, uma grande chapada que limita um vale encaixado e retilíneo. Repleta de belezas naturais, limita-se entre os vales dos Rios Grande e São Francisco, a partir do qual dilui-se em colinas esparsas.

O terceiro sistema é o maior deles, formado pelos 150 km de campos rupestres e reflorestamentos que correm da Canastra aos Chapadões próximos. Contém um parque nacional, as nascentes do São Francisco, sua impressionante queda na Casca D’Anta e o ponto culminante da região na Serra Brava, com 1.500m.

Mas existe uma formação correndo por 10 km no sentido norte-sul, que por assim dizer fecha o Chapadão da Babilônia: é a Serra de Santa Maria. Sua orientação e seu perfil acidentado contrastam com as cristas planas das serras paralelas. Como vocês podem perceber, toda esta geografia permite longas travessias de cristas, com fácil orientação e muitas vistas cênicas, embaixo de um céu que a altura torna imenso.

Travessia do Rio Grande para Delfinópolis, MG (Fonte: Divulgação)

Uma das mais belas travessias que fiz foi a da Serra da Guarita (ou Gurita, como dizem lá). Saímos de carro de Delfinópolis, passamos entre as Serras Preta e Grande e, após quase 50 km, deixamos o veículo. Cruzamos então a vau o Ribeirão da Babilônia, em frente à Fazenda Santa Rita.

Serra da Guarita, Canastra, MG

Daí para a frente, subimos os 400m da parede da Guarita e, lá em cima, encontramos a estradinha que corre rumo leste e que passaria a ser nossa companheira. Acampamos após 20 km de pura beleza, sem encontrar ninguém.

Serra da Guarita na Região da Babilônia, MG (Fonte: Divulgação)

No dia seguinte, descemos até o deslumbrante Vão da Babilônia (ver coluna anterior), que atravessamos após mais 25 km. No terceiro dia, foi necessário contornar os 10 km da Serra de Santa Maria, até os campos agrícolas da baixada do Rio Grande.

Provavelmente você conseguirá uma carona, para evitar os monótonos 15 km finais até a vila de São João Batista do Glória, onde nosso veículo nos esperava.

A Canastra Vista da Serra da Guarita, MG

Acho impressionante a sensação de espaço desta região. Por ser uma imensa crista plana, na Guarita é fácil percorrer grandes distâncias e avistar incríveis panoramas.

O Risco Distante da Casca D´Anta, Canastra, MG

É uma terra imensa e despovoada, num certo sentido silenciosa e acolhedora, que lhe deixará muita paz e saudade.

Região de São João Batista do Glória, MG (Foto Divulgação)

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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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