Pico dos Marins: Reconstituição do trajeto do escoteiro desaparecido Marco Aurélio Bezerra Bosaja Simon em 1985.

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Artigo escrito por: Daniel Iozzi Sperandelli e Erasmo Henrique Belmar Arrivabene

  1. HIPÓTESE DO TRAJETO MAIS PROVÁVEL

    • Sequência dos fatos de acordo com os depoimentos

No dia 07 de junho de 1985, o grupo de escoteiros liderado por Juan Bernabeu Céspedes (chefe), Marco Aurélio Bezerra Bosaja Simon, Ricardo Ferraz Salvioni, Osvaldo da Silva Lobeiro Machado e Ramatis Röhm chegou ao sítio do Sr. Afonso Egídio Inácio Xavier, na base do Pico dos Marins. Eles pretendiam subir a montanha no dia seguinte.

No mesmo dia, outras pessoas também chegaram ao sítio do Sr. Afonso Xavier, com o mesmo objetivo de subir o Pico dos Marins: José Wilson Martimiano, sua esposa e seu amigo Simon Armendariz Moriones (conhecido como “Espanhol”), que vieram de Lorena em uma Rural Willys verde.

José Wilson convidou os escoteiros para subirem juntos o Pico dos Marins no dia seguinte (08/06/1985), mas o chefe Juan declinou, alegando que eles subiriam mais tarde. José Wilson e seu grupo acamparam no Morro Careca, ponto intermediário entre o sítio do Sr. Afonso Xavier e o Pico dos Marins, mas deixaram a Rural Willys verde estacionada nas proximidades da casa do Sr. Afonso Xavier.

No dia 08 de junho de 1985, José Wilson e seu grupo saíram por volta das 08h30 do acampamento no Morro Careca para subir o Pico dos Marins, juntamente com outras pessoas vindas de Lorena e Piquete naquela manhã, que se juntaram ao grupo de José Wilson (o grupo todo somava cerca de quinze ou vinte pessoas).

No mesmo dia, vindos de Piquete, chegaram à base, por volta das 07h30, Mario Lúcio Alves Magalhães, seu irmão Gláucio Luiz Alves Magalhães (10 anos) e seu primo Cláudio Roberto Alves Peixoto (15 anos). Mario e seu grupo saíram por volta das 08h00 do sítio do Sr. Afonso Xavier para subir o Pico dos Marins; eles convidaram Juan e os escoteiros para subirem com eles, mas novamente Juan declinou, sob a mesma justificativa de que subiriam depois.

Juan e os escoteiros saíram por volta das 09h00 do sítio do Sr. Afonso Xavier para subir o Pico dos Marins. Eles se perderam um pouco na própria estradinha do Morro Careca, e demoraram mais para chegar à trilha principal.

Durante todo o trajeto de subida e descida do Pico dos Marins, nenhum dos grupos avistou ou encontrou os escoteiros. José Wilson e seu grupo retornaram ao Morro Careca por volta das 15h00. “Espanhol” desceu até o sítio do Sr. Afonso Xavier, pegou a Rural verde e subiu até o Morro Careca, onde desmontaram a barraca e retornaram a Lorena. Mario e seu grupo retornaram ao sítio do Sr. Afonso Xavier por volta das 16h30.

Todavia, em algum momento no início da tarde (há imprecisão neste ponto), o escoteiro Osvaldo Lobeiro machucou a perna na base do paredão rochoso onde realmente começam os trechos de “escalaminhada” da trilha para o Pico dos Marins (Figura 1).

O acidente com Osvaldo – evento que abortaria a tentativa dos escoteiros de chegar ao Pico dos Marins -, ocorreu imediatamente após a “sela topográfica”, logo depois do maciço da Cruz de Ferro (ou “Morro do Cruzeiro”).

Figura 1 – Local onde Osvaldo feriu-se. Fonte: Inquérito Policial nº 30/85

Os escoteiros iniciaram a descida rumo ao sítio do Sr. Afonso Xavier aproximadamente às 14h00 (esse horário não é preciso, e o único membro do grupo que possuía relógio era o chefe Juan). Eles então se separaram: Marco Aurélio se voluntariou para ir na frente, instruído a marcar as pedras com giz com uma seta indicando a direção tomada e o número 240 (número do Grupo Escoteiro Olivetanos), e os outros quatro seguiram mais atrás, mais lentamente (Juan e Ricardo Salvioni amparando Osvaldo, e Ramatis Röhm carregando as mochilas), procurando seguir as marcas de giz. Após a separação, consta que eles teriam encontrado três ou quatro dessas marcações feitas por Marco Aurélio.

Porém, logo após uma grande e íngreme rampa rochosa, e próximo a um ponto ínfimo de água intermitente (onde de fato há um estreitamento da trilha, entre duas pedras), os quatro deixaram de seguir as marcas e desceram por outro caminho (Figura 2), que os levou para o Norte, descendo a vertente mineira da montanha; Juan teria dito aos demais que não haveria problema, porque “depois as trilhas se encontrariam mais à frente”. Após horas e horas de caminhada excruciante, e às cegas depois da noite cair, eles acabaram chegando, em plena madrugada, na Fazenda do Filinho (Bairro do Ronda, Marmelópolis – MG), e de lá seguiram a pé para o sítio do Sr. Afonso Xavier.

Figura 2 – Sr. Afonso Ribeiro de Freitas na fenda por onde não foi possível transpor Osvaldo (coordenadas -22 29 47.7, -45 07 45.2). Notar a seta indicativa para evitar desorientação, numa dessas pedras Marco Aurélio gravou a terceira marcação 240 com giz. Fonte: Autores (18/03/2023).

Aparentemente, Marco Aurélio continuou descendo pela trilha correta, pela crista da montanha, costeando o maciço da Cruz de Ferro (ou “Morro do Cruzeiro”), provavelmente passando pela Pedra do Golfinho, até que em algum momento ele também saiu da trilha, inadvertidamente, e começou a descer para o Sul, justamente pela vertente do Vale do Palmital/Cânion dos Marins, um lugar perigosíssimo, extremamente íngreme e sem caminhos (Figura 3).

Figura 3 – Hipótese do ponto onde Marco Aurélio adentrou o Cânion

 

  • O “xis” da questão na hipótese da desorientação

Considerando que no dia 08 de junho de 1985 – dia do desaparecimento de Marco Aurélio -, dois grupos de pessoas, sendo um deles bastante numeroso, com cerca de quinze a vinte pessoas, de Lorena e Piquete, e outro com dois rapazes e uma criança de 10 anos, de Piquete, subiram e desceram o Pico dos Marins entre uma faixa de horário compreendida entre as 08h00 / 08h30 (início da caminhada) e as 15h00 / 16h30 (término, retorno), é evidente que houve um sério desencontro entre esses grupos, que, indubitavelmente, também “estavam em cena” na montanha, na data dos fatos, e o grupo de escoteiros capitaneado por Juan.

O momento exato em que isso pode ter ocorrido, a precisa “janela do desencontro” na dinâmica dos fatos ao longo daquele dia fatídico, é questão que permanecerá objeto de muita especulação. Não obstante, parece ser correto fixar esse momento, muito aproximadamente, entre as 13h00 – 14h00, o que implicaria reconhecer que o acidente com Osvaldo na base do paredão de pedra teria ocorrido em algum momento antes das 14h00.

Todavia, parece óbvio que se Marco Aurélio estivesse descendo a trilha correta, exatamente pela crista, no rumo Oeste, na direção do Morro Careca, é praticamente certo que ele seria alcançado por alguém. Deve-se lembrar sempre que ele estava tentando descer por uma trilha de montanha onde nunca havia estado antes, e estava usando um giz para fazer marcações nas pedras com setas e o número do grupo escoteiro, o 240, como foi instruído a fazer; seus colegas declararam que chegaram a avistar três ou quatro dessas marcações, mas logo após Juan decidiu “descer por outro caminho” e todos foram parar em Minas Gerais. Ninguém mais viu nenhuma dessas marcações de giz, nem os dois grupos que juntos somavam de 18 (dezoito) a 23 (vinte e três) pessoas que estavam descendo o Pico dos Marins naquela mesma tarde, nem os grupos de buscas mobilizados após o sumiço de Marco Aurélio (lembrando que na primeira noite após o desaparecimento, a densa umidade registrada na Mantiqueira naqueles dias teria se encarregado de apagar essas tênues marcações de giz).

Isso leva à especulação de que Marco Aurélio, descendo a crista rumo ao Morro Careca, também acabou saindo rapidamente da trilha correta, adiante do “ponto da separação”, e depois de passar pela “Pedra do Golfinho”.

O estudo de campo meticuloso dessa área – delimitada entre a base do maciço da Cruz de Ferro (ou “Morro do Cruzeiro”) e a Pedra do Urubu -, demonstrou claramente que tal local seria o mais propício para alguém sem experiência na trilha do Pico dos Marins se equivocar e descer inadvertidamente rumo ao Vale do Palmital. Em outras palavras, é o lugar com maior probabilidade de alguém errar a trilha, naquele trecho da montanha, e naquela dinâmica específica dos acontecimentos registrada no dia do desaparecimento (Figura 4).

Figura 4 – Esquemático da hipótese do ponto onde Marco Aurélio adentrou o Cânion

  • Fatores de adversidade

À parte os problemas de visão que Marco Aurélio sofria, com sensível diminuição da acuidade visual, em percentuais diferenciados em ambos os olhos, é importante destacar os seguintes fatores de adversidade:

  • Os sapatos

Marco Aurélio estava usando sapatos notoriamente inadequados para a trilha, que poderiam prejudicar a sua aderência e estabilidade nas pedras. Como ele também estava concentrado na tarefa de fazer as marcações nas pedras (setas e nº 240), e estava certo de que o grupo chefiado por Juan estava vindo logo atrás, ele possivelmente não se adiantou de forma atabalhoada ou “desesperada”.

  • A neblina

O Vale do Palmital funciona como um “tobogã” que joga toda a umidade vinda do Oceano Atlântico/Vale do Paraíba Paulista para cima, para a crista da Mantiqueira, ocasionando o chamado nevoeiro orográfico, que ocorre nas vertentes de barlavento das montanhas (de onde o vento está vindo), onde o ar úmido é forçado a ascender a encosta e, por resfriamento adiabático (sem troca de calor/energia), ocorre a condensação. É quase certo que Marco Aurélio se viu surpreendido por denso nevoeiro na crista ou em algum ponto da vertente do vale, após deixar a trilha correta da crista. Esse denso nevoeiro provavelmente ocorreu a partir das 16h00, ou até um pouco antes, coincidindo com a baixa pressão atmosférica diária da chamada “maré barométrica” (baixas pressões às 04h00 e às 16h00).

  • O pôr do Sol

Na região do desaparecimento, todos os dias 08 de junho, o Sol se põe às 17h23, a 295º WNW (fonte: https://www.timeanddate.com/sun). Essa posição do pôr do Sol já projetaria uma extensa sombra sobre o Vale do Palmital e sua vertente NNW, antecipando bastante o lusco-fusco do crepúsculo nessa localização, ou seja, reduzindo drasticamente a visibilidade, graças à diminuição significava da luz natural disponível no fim de tarde. Projeções de sombra no local utilizando o recurso “Sol” do Google Earth indicam que, em junho, o local poderia estar consideravelmente escuro já às 16h30 (Figura 5).

Figura 5 – Projeções de sombra no Cânion

 

  • O frio absurdamente intenso na Mantiqueira

Fato meteorológico de extrema importância, mas pouco lembrado até pelos estudiosos mais dedicados do caso Marco Aurélio, foi a intensa onda de frio que atingiu todo o arco da Mantiqueira nos dias 08 e 09 de junho de 1985 (Figura 6).

O relatório do guia veterano Carlos Vieira Soares, de Piquete, que participou intensamente das buscas desde o início, explica de forma bem clara quais as condições meteorológicas observadas na ocasião (dia 08/06/1985 – sábado):

“(lembre-se que naquele sábado havia garoa e muita neblina)”

Não apenas o relatório do guia Carlos Soares confirma isso, mas também o testemunho ocular fidedigno de pessoas da região, que também participaram das buscas, na época. Se no sábado, dia 08 de junho de 1985 (dia do desaparecimento de Marco Aurélio), garoou e teve muita neblina, toda essa umidade do ar saturada foi o que resultou na queda de neve em toda a região da Mantiqueira (até o Planalto do Itatiaia), pois a queda de neve é justamente a precipitação (chuva) somada à temperatura atmosférica inferior a 0°C, que pode ocorrer nas áreas situadas a partir de 2.000 m de altitude, mesmo na região do Trópico de Capricórnio.

Figura 6 – Neve no Itatiaia. Fonte: Blog do acervo “O Globo”.

Esse frio intenso, que resultou numa rara “nevasca” na região, foi amplamente documentado na época (Figura 7).

Figura 7 – Neve na Mantiqueira. Fonte: pesquisa de imagens do “Google”.

No cenário delineado, a hipótese sobre o que aconteceu com o escoteiro Marco Aurélio Simon naquele dia é baseada nas seguintes premissas:

  • Ao se separar do grupo de escoteiros, Marco Aurélio estava carregando um facão, um apito e uma bússola, mas não carregava lanterna (aliás, nenhum outro membro do grupo escoteiro portava lanterna, o que sempre causa perplexidade).
  • Ao iniciar a descida rumo ao Morro Careca, Marco Aurélio chegou a fazer algumas marcações nas pedras, com giz, de setas direcionais e o número 240, cujo propósito era indicar o seu caminho, o que também possibilitaria ser encontrado pelos outros.
  • Marco Aurélio tinha certeza de que os outros escoteiros estavam vindo logo atrás dele, porém lentamente, seguindo as suas marcações de giz.
  • Marco Aurélio não tinha experiência ou conhecimento sobre a trilha do Pico dos Marins, pois era a primeira vez que estava ali, e poderia facilmente ter se confundido ou se enganado sobre a direção correta, optando por algo como “descer sempre é a melhor escolha”.
  • Uma vez descendo inadvertidamente a vertente do Vale do Palmital, Marco Aurélio pode ter sido surpreendido por um denso nevoeiro que subia pelo citado vale naquela tarde, reduzindo drasticamente sua visibilidade e orientação.
  • Somado a isso, Marco Aurélio pode ter sido afetado pelo crepúsculo antecipado causado pela sombra projetada pelo pôr do sol na vertente do vale, diminuindo ainda mais a luminosidade, sua orientação e, consequentemente, sua segurança.
  • Como resultado de tantas adversidades, Marco Aurélio pode ter sido vítima de um acidente súbito e fatal, como uma queda em um buraco profundo ou uma fenda, ou, com o cair da noite, pode ter interrompido seu deslocamento, por prudência, e buscado abrigo em algum lugar escondido para tentar se proteger do frio, e morrido de hipotermia.

A partir dessas premissas, é possível construir a seguinte hipótese: Após a separação, Marco Aurélio conseguiu, inicialmente, seguir pela trilha correta, descendo a grande rampa rochosa íngreme, passando pela aguinha incipiente (e marcando com giz o ponto de estreitamento de pedras, onde Juan optou por “se desviar”), continuou margeando o maciço da Cruz de Ferro (ou “Morro do Cruzeiro”), até passar pela Pedra do Golfinho, e, logo adiante, nas proximidades da Pedra do Urubu, ele se confundiu e saiu da trilha, indo à esquerda para quem está descendo a trilha (ou seja, descendo rumo Sul), começando a descer pelo Vale do Palmital/Cânion dos Marins. Ele pode ter feito isso por engano, por curiosidade (improvável), ou por achar que era um atalho, “já que era uma descida”, e que acabaria chegando no Morro Careca. A partir daí, ele continuou descendo pela vertente do vale.

Por volta das 16h00, ele foi surpreendido por um denso nevoeiro que subiu pelo vale, dificultando muito a sua visão (já deficiente) e a sua orientação (que já estava totalmente errada ao sair da trilha correta, pela crista). Não muito depois das 16h30, a sombra do pôr do Sol naquela área naquela época do ano antecipou a escuridão do crepúsculo, dificultando absurdamente uma situação que já se poderia considerar desesperadora.

Provavelmente Marco Aurélio tentou usar seu apito para chamar a atenção dos outros escoteiros, mas eles já estavam muito longe, do outro lado da montanha, descendo a vertente mineira. Ele também não foi ouvido por nenhuma das outras pessoas que estavam descendo o Pico dos Marins naquela tarde, pois elas já tinham passado pela crista antes dele sair da trilha.

Por volta das 17h00, seu deslocamento errático foi irremediavelmente afetado pela neblina e pelo crepúsculo antecipado causado pela sombra projetada pelo pôr do Sol na vertente do Vale do Palmital, diminuindo a luminosidade e senso de orientação. Ele sequer conseguia ver mais “por onde estava vindo”; também não conseguia mais ver a crista ou o fundo do vale. Ele deve ter se dado conta de que estava em um lugar escuro, frio e muito perigoso.

A partir desse momento dramático – e especulativo, de acordo com a hipótese delineada – Marco Aurélio pode ter sofrido algum acidente, como uma queda em um buraco profundo ou uma fenda estreita (e profunda), que o teria matado instantaneamente ou o deixado gravemente ferido, mas inacessível (nesse caso, o seu corpo ou os seus objetos poderiam estar escondidos em algum lugar inacessível ou insondável, que não foi alcançado ou detectado pelas equipes de busca). Ou ele pode ter buscado abrigo em algum lugar pequeno e bem escondido, para tentar se proteger do frio, como uma toca ou uma lapa. Nesse caso, ele pode ter coberto a entrada do esconderijo com capim ou vegetação, para tentar se isolar dos elementos (algo ensinado na teoria mateira dos escoteiros). Nessas circunstâncias, ele pode ter morrido de hipotermia durante a noite (já que não estava vestido adequadamente para passar uma noite gelada a cerca de 2.000 metros de altitude); nesse caso, o seu corpo ou os seus objetos poderiam estar ocultos em algum lugar muito discreto ou camuflado, que não foi percebido ou investigado pelas equipes de busca.

 

  •  Afinal, onde Marco Aurélio poderia estar?

Diante da notícia de jornal “Luta Democrática” (RJ), de 17/06/1985 (Figura 8), dando conta de que o Major Edmundo Zaborski e 6 patrulhas percorreram o Vale do Palmital, sem êxito, supõe-se que todo o esforço deles tenha sido em percorrer justamente o fundo do vale, seguindo a linha do curso d’água; é de se supor, ainda, que se Marco Aurélio tivesse caído de um dos penhascos rochosos, seu corpo poderia ter sido localizado pela patrulhas que percorreram o vale, na vegetação ao pé dos penhascos (imagina-se que a estratégia dos bombeiros tenha sido essa). Não está claro, até o presente momento, se as equipes de busca realizaram incursões na vertente do vale entre o córrego e a crista da trilha-mestra Morro Careca – Pico dos Marins. Marco Aurélio pode ter caído em alguma fenda ou greta nessa vertente, OU, ter se escondido em algum ponto dessa vertente. O Major Zaborski chegou a afirmar: “só se o menino tivesse completamente desesperado viria para esses lados”, mas talvez Marco Aurélio não tenha se desesperado nesse sentido: no final da tarde, ao se dar conta de que não conseguiria prosseguir rumo ao fundo do vale (onde achava que existiria uma “saída”), nem voltar para a crista (caminho correto), com o frio intenso aumentando, resolveu se abrigar da melhor forma que pôde. É altamente improvável (mas não impossível, evidentemente), que Marco Aurélio tenha conseguido chegar bem no fundo do Vale do Palmital, descendo às apalpadelas por uma vertente íngreme, sem nenhum caminho estabelecido ou trilhável, em curto espaço de tempo (menos de 3 horas), com sapatos ruins, com visibilidade ruim (e piorando cada vez)…

Figura 8 – (Extrato do jornal “Luta Democrática”-RJ, de 17 de junho de 1985)

Há notícia da época em que teriam sido avistadas pegadas do tipo de sapato usado pelos escoteiros, e vegetação partida. Não há exatidão de que local seria esse, mas se foi possível avistar pegadas, certamente não foi em local rochoso. Poderia perfeitamente ser em algum local coberto de capim e arbustos, já descendo a vertente do vale, em algum ponto entre a área próxima à Pedra do Golfinho e a Pedra do Urubu.

Então, é bastante provável que Marco Aurélio esteja em algum ponto da vertente NWN do Vale do Palmital, entre a crista da Mantiqueira e o fundo do vale, e entre a “Pedra do Urubu” e o maciço da Cruz de Ferro (Figura 9). Nesse exercício, é preciso tentar imaginar que ele seguiu o “caminho menos pior” num lugar onde não havia nenhum caminho para descer, quando teve seu deslocamento interrompido (por um acidente – queda), ou por se abrigar para passar a noite gélida, da qual não acordou mais. O paralelo com o que ocorreu com o brasileiro Gabriel Buchmann, em 2009, que permaneceu desaparecido por 19 dias, até ser encontrado morto por hipotermia no Pico Sapitwa, de 3.002 metros de altitude, no Malaui, África, pode ser bastante esclarecedor (ver https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2009/08/090806_autopsia_brasileiro_cq)

Figura 9 – Início do Vale do Palmital. Fonte: Acervo Daniel Iozzi Sperandelli, fotografia tirada por Carlos Wilmer Costa em 19/05/2008.

 Conclusão

A hipótese de desorientação na área apontada como a mais provável é a mais plausível e consistente com os fatos, a dinâmica dos acontecimentos e os depoimentos do caso: é a que melhor explica as inconsistências e os mistérios do caso do desaparecimento de Marco Aurélio, como a falta de sinais sonoros, visuais ou de quaisquer vestígios do escoteiro, a ausência de encontro ou contato com as outras pessoas que estavam na montanha no mesmo dia, e a impossibilidade de localização ou resgate do seu corpo ou dos seus objetos. A hipótese é coerente, por paralelismo, tanto com o caso do brasileiro Gabriel Buchmann, em 2009, que morreu por hipotermia no Pico Sapitwa, no Malaui, quanto com o caso do corredor de montanha francês Gilbert Eric Welterlin, ocorrido em 2018, justamente no Pico dos Marins, que demonstra cabalmente que é possível se perder na região do Vale do Palmital/Cânion dos Marins.

 

  1. EXPEDIÇÕES PARA TESTAR A HIPÓTESE

Com os pormenores do caso Marco Aurélio acima somados ao artigo “A hipótese de desorientação no Pico dos Marins: caso Marco Aurélio em 1985” logo percebemos que não adianta apenas teorizar a hipótese, é preciso colocá-la à prova, conforme preconiza o método científico. Ao longo do ano de 2023 organizamos quatro incursões no Pico dos Marins, mas permitam-nos chamá-las de expedições pelo esforço despendido.

 Primeira expedição, 18/03/2023

O pontapé inicial se focou em refazer o trajeto de subida dos escoteiros e encontrar a antiga trilha da cruz de ferro, a que fora fechada pelo guia Carlos Vieira em 1952 ou 1954. Fomos nós na companhia do experiente guia Afonso Ribeiro de Freitas (não é o Afonso Egídio Inácio Xavier, que faleceu nos anos 90).

Era nossa primeira ascensão no verão, além do calor percebi flores que nunca vira. Saímos do Sítio Bicho do Mato e pegamos o carro até a Base do Marins, embora pudéssemos ter cortado caminho do Sítio ao Careca à pé. A ideia era palmilhar os caminhos do grupo Olivetano. Ao nos depararmos com o morro do cruzeiro a trilha deflete à esquerda para contorna-lo, não dá para subir reto sem cordas pelo paredão, logo, a trilha antiga não poderia ser por ali. Passamos ao lado da Pedra do Golfinho e continuamos contornando o morro, breve avistamos à nossa direita um caminho possível, por onde rumamos entre vegetação e blocos de rocha (migmatitos do complexo Varginha-Guaxupé como posteriormente me elucidou meu ex-professor de geologia Marcelo Ribeiro Barison perguntando se eu ainda me lembrava das aulas…). Tivemos que nos agarrar e vencer muito capim no peito. Esperávamos encontrar a cruz de ferro, ou pelo menos algum resquício assinalando o local onde ela ficava. Não a encontramos, sequer um sinal., mas pudemos inferir sua localização comparando as fotos do inquérito policial. Era uma fenda de rocha onde fincaram a cruzeta de vergalhão e possivelmente assentaram argamassa na fenda para engastar a base. Este curto trecho da variante da cruz de ferro nos custou mais de uma hora ante os vinte minutos na trilha normal, os escoteiros da patrulha do gato poderiam ter demorado até mais.

Atingimos a sela topográfica, já na trilha principal, e ficou claro que por ali não se adentra o Cânion devido à vegetação, diferente do que escrevi no artigo de 2022. Tampouco Gilbert Eric Welterlin se derivou pela sela topográfica, mas um pouco acima.

Retornamos da sela topográfica para a Base pela trilha normal e localizamos o “ponto da separação” ou “ponto da derivação (coordenadas -22 29 47.7, -45 07 45.2) que é a pedra com uma passagem estreita por onde Juan e os demais não conseguiram conduzir Osvaldo machucado (Figura 2). Ao lado desta rocha existe uma trilha que desce a encosta rumando por um espigão corberto de candeias (Figura 10), trilha que sai numa propriedade particular no vale do Ribeirão Saiqui onde atrás de um morrote se localizava a Fazenda do Ronda, a casa do senhor Filinho (coordenadas -22 28 51.8, -45 08 15.5). Refizemos esta trilha em 08/09/2023 derrubando por terra a informação equivocada, constante no livro Operação Marins, de que foi na Pedra do Portal que os escoteiros não conseguiram transpor Osvaldo.

Figura 10 – Início do caminho de descida percorrido pelos escoteiros sem Marco Aurélio rumo à Fazenda do Ronda, casa do senhor Filinho. Fonte: Autores (18/03/2023).

  • Segunda expedição, 07/04/2023

Embora prevista para o dia oito de abril, resolvemos antecipar esta expedição para a sexta-feira da Paixão devido ao clima chuvoso previsto. O objetivo desta expedição foi novamente encontrar a cruz de ferro, comparando com as fotos do inquérito policial. Estava nublado no sítio Bicho do Mato, sr. Afonso bom conhecedor da montanha preferiu não subir pois sabia que estava chovendo lá em cima. Pegamos primeiramente garoa e depois chuva com vento acima de 2.000 metros, a umidade entrou pelo pescoço encharcou até as botas impermeáveis, um frio de bater queixo nos obrigou a permanecer em movimento. Mais uma vez confirmamos a localização exata da cruz de ferro (coordenadas -22 29 49.7, -45 07 42.7) e regressamos para o sítio, encontrando alguns montanhistas abortando a subida que fariam no feriado de páscoa. Na volta, identificamos um local factível de desorientação (denominamos de ponto de “derivação”) para o Cânion dos Marins (vale do Ribeirão Passa Quatro), situa-se, descendo, logo após a Pedra do Golfinho (coordenadas -22 29 52.6, -45 07 46.8).

 

  • Terceira expedição, 08/06/2023

Esta ocorreu exatos 38 anos após o desaparecimento de Marco Aurélio, também num feriado de Corpus Christi. Novamente apenas os dois autores que aqui escrevem. Subimos do sítio até o ponto de derivação para explorar as possíveis rotas dali para o Cânion. Logo ao sair da trilha é fácil caminhar pelo platô, mas chega um momento em que a encosta se torna íngreme. Para nós seria até possível descermos sem cordas, se agarrando nos arbustos. Mas como voltar pelo mesmo caminho? Marco Aurélio, se desceu por ali, não retornou. Entretanto, tínhamos que retornar para nossas esposas e filhas. De uma rocha até onde avançamos, lançamos a corda com o imã de neodímio para pescar algo metálico. Descer para o Cânion e retornar pelo mesmo caminho era tarefa inexequível para nós. Uma sensação de frustração nos pegou, pois era junho e estávamos confiantes do sucesso na descida. Abortamos e fomos à cruz de ferro, depois passamos a sela topográfica, o Boulder do dado e subimos a encosta onde Osvaldo se contundiu. Ali pudemos detectar o local onde o corredor Gilbert Eric Welterlin saiu da trilha (coordenadas -22 29 47.6, -45 07 37.2) mas que não poderia ter sido percorrido por Marco Aurélio.

 

  • Quarta expedição, 08/09/2023

Havia uma esperança de se chegar ao Cânion! Se não deu certo descendo pelo platô (caminho provável de Marco Aurélio), lembramos da trilha que o senhor Afonso Ribeiro de Freitas abriu em 2012 para chegar aos cumes adjacentes do Marins, o Maria e o Mariana. Esta trilha fica mais a jusante, ou seja, mais próxima do morro do Careca, desce a encosta num trecho de mata e chega na água do Marins. Participaram o guia sr. Afonso, a amiga Vanessa Mariano Rosa e seu esposo Rafael Moranga Gonçalves. Fazia mais de uma década que a trilha não era percorrida e os olhos atentos do guia tentavam distinguir o caminho correto, perceber as marcas de facão cicatrizadas. Quando perguntado por que escolhera tal ponto para descer no Cânion lá em 2012, Afonso respondeu que após algumas explorações anteriores, somente esse local se mostrou factível. De volta a 2023 na trilha foram idas e vindas tentando encontrar o caminho antigo, passamos por algumas lapas onde alguém poderia se abrigar, cruzamos águas que desembocam no Passa Quatro. Chegamos ao fundo do vale mas não estávamos conseguindo chegar na água devido às íngremes encostas, já próximos de desistir encontramos uma passagem que deu na água do Marins. Caminhamos pelo leito rochoso, na verdade é uma cachoeira, vimos as marcas das enchentes nos arbustos. Afonso afirmou que aquele não foi o local que a trilha originalmente cruzou a água em 2012. Pudemos ver abaixo um grande poço de cachoeira (Figura 11), com enormes blocos parcialmente submersos, que merece exploração pois tudo que vem da bacia acima deve parar ali. Este poço se localiza próximo às coordenadas (-22 30 12.7, -45 07 56) e segundo o guia, pouco a jusante deste poço se inicia o Cânion propriamente dito. Aqui encontrarão uma série de 24 vídeos desta expedição. Logo retornamos do fundo do vale por onde viéramos. Ficará para uma próxima expedição descer ao fundo do vale e subir para o platô e o ponto de derivação, que seria o inverso do trajeto presumido de Marco Aurélio, mas fazendo assim teremos uma rota de fuga pela retaguarda para reduzir nossos riscos.

Figura 11 – Poço no fundo do Vale do Palmital/Água do Marins/Ribeirão Passa Quatro. Fonte: Autores 08/09/2023.

Uma vez na trilha normal subimos até a pedra da não transposição de Osvaldo e descemos a mesma trilha que eles fizeram em 1985. Atualmente a trilha é bem fácil de ser percorrida e conta com degraus de madeira feitos pelo sr. Afonso, mas há 38 anos a trilha não era batida e à noite no frio deve ter sido desafiador chegar à Fazenda do Ronda, Pois Juan e os demais levaram das 14h à madrugada do dia seguinte, ou seja, mais de 10 horas para palmilhar o que fizemos em duas horas. A trilha hoje finda em uma propriedade particular cercada, e não pode ser percorrida sem autorização dos proprietários.

Como síntese deste artigo apresentamos um mapa do trajeto reconstituído de Marco Aurélio Bezerra Bosaja Simon em 08/06/1985 (Figura 12 e Figura 13). Em azul o trajeto documentado do escoteiro até a última marca de giz 240 no ponto da derivação. Em vermelho, a hipótese do trajeto do escoteiro para o Cânion/Vale do Palmital/Água do Marins/Ribeirão Passa Quatro.

Figura 12 – Visão geral do trajeto reconstituído do escoteiro Marco Aurélio Bezerra Bosaja Simon em 08/06/1985.

Figura 13 – Detalhe na região da cruz de ferro do trajeto reconstituído do escoteiro Marco Aurélio Bezerra Bosaja Simon em 08/06/1985.

 

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Sobre o autor

24 Comentários

  1. Triste o episódio. Não posso aquilatar a dor do irmão, e ainda menos a dos pais. Rogo que encontrem o conforto possível na certeza de que fizeram todo o possível, à época. Até hj se batem na tentativa de entender a tragédia.
    Excelente artigo, trabalho de anos de inquietação e, mais, de ação concreta no na busca de explicar o ocorrido. Desconhecia que o caminho de ida e volta (nos trechos documentados) fosse tão diferentes. Gostaria de entender melhor o ponto de saída da crista, hipótese que faz bastante sentido. Parabéns pelos esforços.

    • Daniel Iozzi Sperandelli em

      Olá Rogério, deixamos as coordenadas no texto. É um local que dá num platô, relativamente fácil de percorrer no começo.

  2. CARLOS WILMER COSTA em

    Hipótese muito plausível de ter acontecido, Marco Aurélio deve ter se perdido e também perdeu a vida. Belo relato dos autores, aliás muito bem comprovado com estudos bibliográficos e expedições à montanha para verificarem a verdade terrestre. Com certeza o frio que assolou a região na data do desaparecimento contribuiu para a morte de Marco Aurélio, fato muito bem amarrado pelos autores com recortes de jornais sobre a nevasca no Itatiaia. Sou montanhista, nativo da Mantiqueira, subi o Pico do Marins várias vezes com condições propícias e adversas, o que me dá segurança para parabenizar aos autores pelo belo artigo.

  3. Mais um artigo e causa certa agonia tanto pelo fato de 1985 como pelo o que é narrado sobre as expedições de 2023. Nessas áreas de pesquisa se atentando ao contexto de 1985, obviamente está a solução do caso.

  4. Artigo excelente Daniel! Parabéns pelo esforço, com certeza essa hipótese é a mais provável entre todas.

    Obs: Eu comentei no seu canal do YouTube sobre a questão do Marco Aurélio ter provavelmente acreditado que “descer sempre é a melhor escolha”, já que estava em um monte e queria chegar à base. Mas não imaginava que isso ia para um artigo kk

    Infelizmente, é provável que o Marco Aurélio realmente tenha usado uma lógica básica como referência mas que nessa situação não era a melhor escolha (que era impossível dele saber).

    • Daniel Iozzi Sperandelli em

      Olá Havakuk. Bem antes do seu comentário no YouTube o Erasmo já comentava esse pensamento “descer é a melhor escolha” por isso está no texto.

      • Com certeza não fui o primeiro a pensar nisso, apenas não tinha visto ninguém comentar antes kk mas Parabéns pelo empenho de ambos.

        Apenas uma dúvida, se o Marco Aurélio tivesse se derivado para MG ao invés do Cânion, ele teria ido parar no local onde hoje é o Sítio Bicho do Mato? Ele teria inevitavelmente achado a rodovia ou seria bem complicado?

        Eu pergunto porque era uma possibilidade do caminhoneiro que disse ter dado carona pra ele caso seja possível. Mas olhando pelo Maps, me parece que o trajeto de MG também não seria tão seguro.

        Mas posso estar errado.

        • Erasmo Arrivabene em

          Segundo informações do Sr. Afonso Ribeiro de Freitas (nascido em Marmelópolis, em 1962), guia veterano da região do maciço Marins – Itaguaré (sobe as montanhas da região desde os 7 anos de idade), e que em junho/julho de 1985 chegou a auxiliar bastante, como voluntário, nas buscas que se seguiram ao desaparecimento do escoteiro Marco Aurélio, e que também é o proprietário do “Sítio Bicho do Mato” (sítio que ele adquiriu mais recentemente, há alguns anos), toda a área situada entre a crista por onde segue a trilha para o Pico dos Marins e a estrada do Saiqui (Marmelópolis), ou seja, toda a vertente mineira daquele quadrante NW, desde a área da “sela topográfica”/bolder (local onde o Oswaldo se machucou), até o Morro Careca, foi campeada, ou seja, vasculhada, pois o raciocínio lógico que predominou durante as buscas era de que se Marco Aurélio saiu da trilha ainda na crista, ele teria se perdido justamente ali, nesse quadrante (lembrando que a vertente mineira do maciço dos Marins é mais “suave” e mais “seca” que a paulista, que é muito íngreme, abrupta, bem mais úmida e com vegetação mais fechada).

          Se o Marco Aurélio tivesse conseguido descer por esse quadrante NW, varando mato (talvez seguindo a linha de algum curso d’água – todos ali deságuam no Ribeirão do Saiqui), finalmente alcançando a Estrada do Saiqui (onde está localizado o “Sítio Bicho do Mato”), acredito que ele teria conseguido chegar a alguma propriedade rural da região, ou teria sido avistado por pessoas trafegando por ali. Não acho que dali ele teria ido a pé ou de carona para Campos do Jordão.

          • Valeu pela resposta Erasmo.

            Uma coisa interessante seria alguém entrevistar o Senhor Afonso um dia, para ele comentar sobre a região, suas expedições no vale, apuros e etc.

            Não somente sobre o caso, mas imagino que ele tenha bastante coisa interessante pra falar das trilhas, de como era percorrer elas na década de 80 e por aí vai.

        • Daniel Iozzi Sperandelli em

          Se ele tivesse derivado para MG sairia no sítio bicho do mato, com dificuldade, mas nada comparado ao Cânion. Ele poderia ter perecido ali na vertente mineira, mas teria sido encontrado pois com certeza aquilo foi vasculhado pois é possível caminhar ali. E se tivesse atingido a estrada do Saiqui são muitos quilômetros até o asfalto em Delfim Moreira, um garoto de 15 anos magro no frio não conseguiria caminhar tanto. E cronologicamente ele não teve tempo de chegar na base do Marins.

  5. Alberto Ortenblad em

    É impressionante como até hoje se busca descobrir o percurso do infeliz menino Marco Aurélio. Quando fiz o Marins pela primeira vez (claro que seu Afonso e dona Maria eram vivos) já havia muita especulação e a trilha era considerada perigosa. Mas sempre achei que o pequeno escoteiro teria ao voltar derivado para a direita (sentido de MG) e não pela esquerda (sentido de SP), que é para mim contraintuitivo. Beleza, nossos montanhistas que se dedicaram com tanto afinco devem saber melhor do que eu. Impressionante a incompetência e mesmo arrogância do chefe Juan Céspedes. E parabéns a Daniel Sperandelli pela persistencia!

    • Daniel Iozzi Sperandelli em

      Grato Alberto, tudo isso foi possível devido ao empenho do Erasmo Henrique Belmar Arrivabene que é coautor do artigo e profundo estudioso do tema.

      • Não entendi uma coisa, vocês foram descendo em direção ao canion o mesmo trajeto que o Marco Aurélio poderia ter feito, mas chegaram a percorrer todos os espaços da descida dele ? Tipo e muito complicado chegar ao fundo do vale, eu sei, muito complexo, mas existem pontos da descida que vocês não conseguiram percorrer ainda ? Não sei se me fiz entender

        • Daniel Iozzi Sperandelli em

          Na terceira expedição fomos seguindo o caminho do Marco Aurélio segundo nossa hipótese. Porém, não passamos do platô pois seria difícil retornar. Sendo assim, nós não percorremos todo o caminho que ele percorreu, apenas a parte inicial a uns 100 metros da trilha principal. Na quarta expedição nós descemos o vale por outra trilha para interceptar o fundo do vale noutro ponto, inclusive passamos no mesmo lugar que o Gilbert Eric Welterlin passou segundo seu tracklog. Uma futura expedição deve descer até o vale por essa trilha e subir para montante fazendo o caminho inverso do Marco Aurélio. Pelo menos essa é a minha opinião, pois assim a pessoa sempre teria o caminho de retorno garantido se precisar abortar a missão.

  6. Parabéns, Daniel e Erasmo!
    A linha de raciocínio lógico e suas pesquisas de campo investigativas são admiráveis e fundamentadas.
    Se em junho de 1985 as autoridades, guias e mateiros envolvidos nas buscas seguissem essas premissas, percorrendo todos os possíveis pontos de erro na trilha Pico dos Marins (até o ponto do 4° registro 240 feito pelo jovem escoteiro Marco Aurélio) – Morro do Careca, até chegar ao fundo de vales, verificando atentamente pegadas humanas (naquela época), cavidades, fendas, locas, grotas, com a motivação e competência que vocês tiveram, e pretendem fazer novamente, talvez a história fosse diferente, né.
    Gratidão!

  7. Não é nada fácil.

    Essa história tem muitos “ruídos”, ecos do passado, que infelizmente não foram esclarecidos ou verificados na época, no momento oportuno, quando (em tese) seria possível esclarecer certos detalhes que até hoje ninguém consegue compreeender, e que perduram indefinidamente, sem explicação.

    O tempo corre, e a história fica cada vez mais mergulhada nas sombras. Que a partir disso seja possível lançar uma luz sobre esse mistério indecifrável.

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