Todos aqueles que percorrem a natureza acabam repetindo os próprios caminhos. Pensamos que isso seja uma banalidade ou uma tolice. Mas nem sempre é. Sem sabermos, pode ser algum ritual, escondido de nós mesmos, de renovação ou de agradecimento.
Quantas Vezes
Quantas vezes já não andei pela sombra desses matos, por esses gelos imemoriais, os mares que os ventos agitam, pelos grãos duros e rugosos dessas pedras?
Será que já não vi esta vista, com o sol nascente iluminando por detrás essas paredes expostas, nevadas ou florestadas, que sempre parecem intransponíveis?
Quem sabe um outro panorama, com colinas, serras e vales, clareado por um outro sol, agora ameno e tardio. Ou, ao invés, não terei enxergado com este sol o brilhante espelho do mar ou da lagoa, do rio ou da cachoeira.
Não imaginei nas últimas vezes o trajeto, estimei o tempo, relembrei o acesso e o caminho? Não escolhi a mochila, planejei e depois chequei seu conteúdo, reclamei de seu peso?

As paredes impossíveis de sempre,

florestadas, rochosas ou nevadas,

que parecem intransponíveis.
Ou então separei a bota, rígida ou flexível, procurei o casaco, quem sabe corta-vento ou anorak. Uma camiseta colorida ou uma escura segunda pele. Luvas grossas, óculos de neve ou uma simples bermuda, um repelente e uma horrorosa papette.
Quantas vezes parece uma repetição, um hábito ou costume. Mas não é assim. Pode ser uma busca, um reencontro, simplesmente um prazer. Retornar pode ser rememorar, reencontrar e também recuperar – ou simplesmente refazer.
Revisitar você mesmo, reconhecer o seu passado. Uma forma de enganar o tempo, de voltar, agora mais velho, a ser você mais novo novamente.
Ou, quem sabe, os lugares guardem a sua história. Se você possuir as senhas do encantamento, talvez possa acioná-las e reviver de graça os momentos em que você os viveu, naqueles lugares poderosos.
A gente lê e vê com tristeza que o mundo está mudando, nada mais é o mesmo, as paisagens não podem mais ser restauradas, as cidades já expulsaram as árvores, e os animais não mais se abrigam nelas.

O mundo à tarde –

todo o relevo pulsando junto com a luz e a maré marulhando nas ondas da praia.
Então, não é maravilhoso descer cansado da rocha áspera pelo caminho de sempre ou sair do caiaque na areia da praia, salgado pelo vento do mar e, lá de cima ou lá de fora, descortinar o mesmo panorama intocado e iluminado?
De repente, é uma visão tão bonita, todo o relevo pulsando junto com a luz, as longas encostas, as planícies tão verdes, as escuras silhuetas das arvores. Ou a maré movida pelo encanto da lua, ao fazer a água marulhar em tímidas ondas que parecem pedir desculpa.
É então que você olha a tarde contra o sol. Ela parece nebulosa, não porque seja enevoada, e sim ofuscada pela luz. Agora você dificilmente enxerga as coisas, mas pode senti-las no lugar de sempre, na calma do entardecer.
A vontade que você tem é a de não voltar, só ficar assistindo parado à tarde essa serra ou esse mar conhecidos. Existindo quieto, escondido nesse mundo que, para sua curta vida, parecerá enganosamente eterno.








