O sol voltou, a cidade esquentou e aquela montanha no horizonte parece um ótimo programa. Mas o calor que convida a sair de casa também pode ajudar a formar a tempestade que ninguém gostaria de encontrar no cume. No montanhismo, tempo bom para passear na cidade e tempo bom para subir uma montanha nem sempre são a mesma coisa.
A equipe russa que recuou na Cascata de Khumbu e mudou de estratégia no Everest ajuda a entender essa diferença. No outono nepalês, fora da janela comercial principal, encontrou neve profunda e uma passagem difícil. No Brasil, a transição para os meses quentes traz outros desafios. O ponto em comum é que a mesma montanha pode exigir decisões diferentes conforme a época.
Em outubro, a janela tradicionalmente mais favorável de muitas montanhas do Paraná, de São Paulo e de Minas Gerais já ficou para trás ou está na transição para o período mais chuvoso. Isso não significa um fechamento automático das trilhas: significa que o planejamento precisa mudar.

O frio cabe no planejamento. A tempestade e o raio não.
Hilton Benke, montanhista e membro do AltaMontanha, fala que o “frio merece respeito, pois pode causar hipotermia, comprometer decisões e transformar um imprevisto em emergência. Ainda assim, previsão, vestuário e equipamentos adequados permitem preparar a proteção térmica para a temperatura esperada, com margem para mudanças”.
Ele relata ainda “já peguei uma tempestade elétrica, no topo da montanha Camapuã, na Serra do Mar do Paraná. Os raios e as trovoadas eram assustadores. No interior da barraca, eu dobrei quantas vezes consegui o isolante térmico, e com as botas, fiquei sobre ele, pensando em escapar da fúria de um raio que atingisse a barraca ou até mesmo algo próximo de mim. Estava tudo molhado e muito provavelmente a eletricidade correria pelo solo. Fiquei com muito medo.”
Uma tempestade elétrica exige outra resposta: evitar estar exposto. Pense: você consegue colocar uma camada de roupa extra na mochila, uma jaqueta de pluma ou até mesmo levar um aquecedor químico. Já um para-raios portátil para instalar no cume da montanha, convenhamos, ainda não entrou na lista de equipamentos.
A brincadeira ajuda a lembrar algo sério: nenhum equipamento pessoal torna seguro permanecer em uma crista durante uma tempestade. O INPE explica que calor e umidade favorecem tempestades com descargas elétricas e alerta que barracas não oferecem proteção adequada contra raios.
Assim, um dia quente e tempestuoso pode ser mais perigoso que um dia frio e seco no mesmo roteiro. Isso não estabelece um ranking universal: vento, chuva e exposição prolongada também podem tornar o inverno extremamente perigoso.
Por que o inverno é tão procurado no Brasil?
No Parque Estadual Pico Paraná, o plano de uso público do IAT identifica abril a setembro como período mais favorável, com menos precipitação. A Serra do Mar, entretanto, recebe chuva também no inverno.
Na Mantiqueira, entre São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, o padrão de inverno mais seco favorece muitas travessias. A Fundação Florestal aponta abril a setembro como janela tradicional; para a parte alta do Itatiaia, o ICMBio indica maio a setembro.
Primavera e verão acrescentam tempestades elétricas, chuva forte, trilhas escorregadias, perda de visibilidade e aumentos rápidos do nível de cursos d’água. O termo de riscos do Parque Nacional da Serra dos Órgãos destaca expressamente a frequência de tempestades elétricas no verão.
Cada montanha tem seu calendário
As referências abaixo ajudam a planejar. Não substituem previsão, condições da rota, autorização de acesso ou avaliação local.
| Montanha ou região | Janela de referência | O que observar |
|---|---|---|
| Pico Paraná, PR | Abril a setembro | Chuva e neblina continuam possíveis. |
| Mantiqueira: Serra Fina e Agulhas Negras | Outono e inverno; Itatiaia, maio a setembro | Frio intenso e geada; verão mais chuvoso. |
| Aconcágua, Argentina | Expedições concentradas no verão austral, sobretudo dezembro a fevereiro | Vento, neve e altitude; conferir o calendário oficial de cada temporada. |
| Everest, Nepal | Principal janela comercial na primavera, com cume frequentemente em maio | Outono tem dinâmica diferente; trekking e ascensão não compartilham as mesmas condições. |
| Mont Blanc, Alpes | Verão boreal; a referência de Chamonix vai de junho ao início de outubro | Condições variam conforme rota, neve e temperatura. |
| Denali, Alasca | Fim de abril a meados de julho, segundo o NPS | Frio e vento; degelo altera as passagens nos glaciares. |
O calendário orienta; a decisão é daquele dia
Confira previsão e alertas oficiais, consulte a administração da área e tenha margem para mudar o objetivo. Uma manhã ensolarada não garante uma tarde estável. Em uma rota exposta, esperar o temporal chegar para decidir pode eliminar as opções de recuo.
O que a experiência ensina
Para Hilton Benke, o montanhista deve “respeitar o calendário. Claro que tem dias que é possível uma caminhada nas montanhas, com análise criteriosa da condição, e respeito pelo clima, tudo é possível. Mas temos que evitar mochilas pesadas, para podermos nos deslocar sempre dentro do previsto.
Uma dica: As tempestades de verão geralmente são no período da tarde, após as 14 horas. Então, escalar uma montanha, iniciando bem cedo, no estilo ataque leve, é o melhor para épocas de verão.”
Ainda assim, vale a pena estar preparado e levar sempre lanternas e anoraques, além de saco estanque para evitar que uma chuva molhe seus equipamentos, principalmente eletrônicos.
O melhor mesmo, é escolher a época adequada, na temporada de montanhismo da montanha pretendida.
Lembre: A montanha continuará lá. O compromisso do dia é voltar para poder encontrá-la de novo.
Fontes: IAT; Fundação Florestal; ICMBio — Itatiaia; Parnaso; INPE; Nepal Tourism Board; Chamonix; NPS; INKA — calendário de expedições.










1 comentário
Esse negócio de temporada de montanhas é a maior piada pois sempre encontro todos na trilha o ano todo na verdade e só uma maneira de tentar diminuir o movimento os principais interessados são guias e empresas do ramo