Viagem Filosófica

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Um dia romperam-se as esferas celestes perfeitas em que repousava o mundo medieval e surgiu o universo infinito de Galileu e de Newton. Essa revolução científica do século XVII gerou no seguinte o Iluminismo, um movimento social e político que abalou os poderes da monarquia e os dogmas da Igreja.

Baseado no conhecimento racional como fonte da autoridade, o Iluminismo estabeleceu os ideais de liberdade e de progresso. O liberalismo condenou a intervenção do Estado na economia e censurou o mercantilismo no comércio. A tirania e o absolutismo foram substituídos na política, ainda que de forma violenta, pela representação democrática, e os monopólios e privilégios foram expulsos pela nova dinâmica capitalista.

E surgiu uma sociedade mais instruída, mais próspera e mais otimista. O espírito libertário do Iluminismo fomentou a Independência Americana, a Revolução Francesa, a Inconfidência Mineira e a Independência das Colônias Espanholas.

Esse novo pensamento foi capaz de alcançar até mesmo uma nação atrasada como Portugal. Seu auge tinha ocorrido durante o longo governo de Dom João V (1689-1750), quando o ouro brasileiro tinha pago pelo luxo, mas não pelo progresso português. À medida que terminavam a segunda parte do século e as derradeiras jazidas do minério, era preciso criar novas riquezas para a Colônia, que já perdera há muito a primazia da cana de açúcar para os holandeses.

Pintura de van Loo e Vernet do Marques de Pombal aos 67 anos.

Quando Dom José I (1714-1777) assumiu, era imperioso modernizar o Reino, desenvolver a manufatura e reduzir a dependência da Inglaterra. Escolheu para tal um dos homens mais inflexíveis e controversos de Portugal, Sebastião José de Carvalho, o Marquês de Pombal (1699-1782). Durante quase trinta anos, Pombal comandou seu país como Secretário de Estado com ferro e com sangue, diante de um Rei omisso.

Tendo sido embaixador na Inglaterra por longo tempo, bem pôde avaliar o progresso inglês e a penúria portuguesa. E constatar que seu país empobrecido era um mero dependente e não um verdadeiro aliado dos ingleses (tradicionalmente Portugal se aliava à Inglaterra contra a França).

Pombal reformou o Estado, racionalizando a administração, criando associações e companhias comerciais, colocando a Inquisição sob a autoridade real, modernizando o Exército e a Marinha, eliminando a discriminação contra os judeus, confiscando e expulsando os jesuítas, obrigando a nobreza a se miscigenar – e, ao longo do caminho, torturando e matando muita gente.

O Iluminismo teve um impacto enorme na ciência. Em especial, nas novas terras descobertas. Já se disse que os sábios europeus desejaram realizar um inventário do mundo. Nas suas expedições, recolhiam plantas, animais, fósseis, minerais – conservados e embarcados, autopsiados ou embalsamados, catalogados e mais tarde aclimatados e reproduzidos. Com algum atraso, Portugal considerou também preparar tais expedições.

Vista de Coimbra no século XVI.

Mas a expulsão dos jesuítas foi desastrosa para a educação do país, pois cabia a eles toda a instrução básica, prévia à universidade, e de forma gratuita. Só no século XX, com o dobro da população, Portugal voltaria a ter os vinte mil alunos de então. Pombal extinguiu a Universidade de Évora e reformou a de Coimbra – o resultado foi a queda no total de 4.500 para meros 500 alunos. Porém seu currículo foi modernizado, com ajuda de mestres europeus.

Cerca de dez anos depois, foi criado o curso de Filosofia, que formou naturalistas, sob a orientação do italiano Domenico Vandelli. Ele lecionava Botânica e dirigia o Jardim d´Ajuda, o principal do país. Os procedimentos para manuseio de espécimes obedeceriam às instruções dos técnicos do Jardim.

Seriam finalmente lançadas as expedições filosóficas ou viagens científicas – a primeira tentativa da Coroa em realizar um estudo sistemático da variada natureza colonial sob seu comando.

Quatro ex-alunos de Vandelli foram encarregados das viagens a Angola, Moçambique, Cabo Verde e, por fim, Brasil. Alexandre Ferreira (1756-1815), era baiano mas em Coimbra estudara Leis, Filosofia Natural e Matemática. Foi o único entre todos que se dedicou exclusivamente à tarefa, os demais tendo também sido administradores coloniais na África. Após cinco anos de espera, Alexandre partiu finalmente em 1783 para o Norte do Brasil.

Talvez você não fique muito impressionado com os resultados dessa iniciativa tão longamente aguardada. Seria interessante saber de algumas das limitações que Alexandre Ferreira teve de superar.

Alexandre Rodrigues Ferreira.

Primeiro, de sua viagem deveriam constar quatro naturalistas, mas ficou reduzida apenas a ele mesmo. Incluía também dois desenhistas e um jardineiro botânico. Destes, só Alexandre e um dos desenhistas sobreviveram. Devo lembrar que as imagens em aquarela ou nanquim da viagem foram feitas em estampas que permitiam a sua reprodução em chapas de metal, o que favoreceu sua divulgação na Europa.

Mas a expedição parece ter se valido sistematicamente de uma centena de homens locais. Guias, mateiros e caçadores, pilotos, barqueiros e carregadores, fornecedores, coletadores e preparadores. É curioso como não achei nenhuma menção à logística de tão longa expedição, e tampouco aos perigos e dificuldades superados.

Segundo, houve severos cortes nos materiais e equipamentos. E, terceiro, os relatos de Alexandre (chamados de memórias) eram de uso restrito, só devendo ser divulgados aos governantes e só se tornando públicos décadas depois. Ou seja, sua obra já nascia censurada.

Mas há outra restrição grave, na própria natureza do empreendimento. Dona Maria I (1734-1816), que sucedera a Dom José e era mãe do futuro Dom João VI, pretendia ter o nosso Centro-Oeste explorado, para regular os possíveis conflitos de fronteira com a Espanha e conhecer as potencialidades econômicas desta região tão vasta.

Assim, muitas das tarefas da expedição tinham menos a ver com a ciência do que com a colonização – seria preciso investigar mapas populacionais, produções agrícolas, proteções das fortalezas, povoamentos nativos, traçados cartográficos.

Quer dizer, os objetivos eram também administrativos e burocráticos, bem como econômicos e estratégicos. Em poucas ocasiões, Alexandre Ferreira  observou a natureza como um naturalista, mas antes como um leal funcionário da Coroa … Seus escritos identificavam-se mais com obras de agricultura prática, relatórios administrativos ou de delimitação cartográfica, afastando-se dos minuciosos estudos sobre plantas e animais no âmbito da história natural (resumido).

Igreja N. S. Mercês, construída em Belém no século XVIII.

Talvez a nobre filosofia tivesse fornecido um disfarce para mascarar a preocupação sobretudo geopolítica e utilitarista da expedição de Alexandre Ferreira. Mas esta não é mais do que uma parte da nossa história.

A outra metade é a gigantesca tarefa a que Alexandre Ferreira se propôs, ao longo dos nove anos em que aqui permaneceu, sem ter, apesar de seus pedidos, jamais deixado o Brasil.

Chegado no Pará com apenas 27 anos, conheceu Marajó e subiu o Rio Negro até seus limites com Colômbia e Venezuela. Na época, a província do Amazonas era chamada de Rio Negro e Alexandre permaneceu na sua capital Barcelos, antes de subir em 1788 os perigosos Madeira e Guaporé, já na divisa com a Bolívia.

Visitou Vila Bela, a capital de Mato Grosso, que era então uma província 2/3 maior do que hoje. Apesar de ter contraído malária, chegou em 1789 em Cuiabá – afinal transpôs a floresta a alcançou o cerrado. Desceu a seguir os rios do Pantanal, como São Lourenço e Paraguai. Retornou no começo do ano de 1792 a Belém, de onde por fim rumou para Portugal.

Esse percurso chega a ser inacreditável, pois abarcou 39 mil km através de quatro capitanias. Cerca de 1½ séculos antes, o bandeirante Raposo Tavares percorrera 10 mil km em três anos, entre Brasil, Peru e Bolívia – chegou de volta tão desfigurado que sua família não o reconheceu. Mas, antes disso, deve ter caminhado por vinte anos em nossos sertões. Acredito que só o Marechal Rondon terá atravessado no século XX um Brasil maior – ao todo, 77 mil km!

Roteiro da Expedição Filosófica.

Veja que, ¼ de século depois da Expedição Filosófica, os naturalistas europeus Saint-Hilaire e von Martius realizaram suas históricas viagens ao Brasil. Foram cerca de cinco anos e 8-10 mil km percorridos cada, com uma grande dispersão geográfica, desde o Sul e o Sudeste, até o Nordeste e o Norte. Levaram consigo para a Europa um acervo monumental, de 20-30 mil espécimes cada um. Imagine então qual possa ter sido o tamanho da coleta da Expedição Filosófica.

Alexandre não era, não quis ou não pôde ser um naturalista completo. Apesar de sua curiosidade (conheceu 60 tribos), sua visão acerca dos indígenas foi depreciativa, pois foram vistos como animais sem razão, sem história e sem futuro, desprovidos de lei e de culto, sem união dos homens com as mulheres ou de amor dos pais pelos filhos. Ele dizia que os índios apenas conservam a figura de homens, de razão obscurecida, embrutecida e sepultada na matéria.

Em relação à flora e fauna, Alexandre pareceu operar como um naturalista de gabinete, distante das espécies estudadas … a tradição dos antigos – cronistas e viajantes do passado – tendo prevalecido sobre a experiência (resumido).

Suas descrições foram sumárias, com falta de identificações, de autópsias, de estudos anatômicos e de detalhes zoológicos. O Brasil nem sempre o impressionou: O que se vê é um país selvagem e sombrio, uma terra bruta e abandonada a si mesma.

Entretanto, Alexandre Ferreira enxergava a vantagem em substituir a exploração das minas (ainda ativas no Centro-Oeste) e a coleta das drogas do sertão (desarticulada pelo afastamento dos jesuítas) por uma economia agropastoril, baseada em práticas racionais.

Pois ele pesquisou as culturas do arroz, café, cacau, milho e algodão, além do anil, cânhamo e tabaco. Talvez ele quisesse civilizar o índio por meio do desenvolvimento agrícola. E seu maior mérito tenha sido o amplo panorama esboçado sobre a agricultura da Amazonia.

Índios jurupixuna no traço de José Joaquim Freire e José Codina.

Durante todos os anos em que passou nos sertões brasileiros, Alexandre enviou sempre o material para a Corte. Porém descobriu que as despesas na realidade vinham sendo custeadas por um capitão. Ele havia gasto nisso o dote de sua filha. Alexandre então lhe disse: Isso não servirá de embaraço ao seu casamento; eu serei quem receba essa sua filha por mulher. E casou-se no ano da partida com Germana Pereira de Queiroz.

Quando retornou a Portugal ainda aos 36 anos, Napoleão já havia abalado as nações europeias e a ênfase no material coletado no Brasil havia mudado. Apesar de sua promoção para o Real Gabinete e o Jardim Botânico, Alexandre não pôde aperfeiçoar na década seguinte o relato da Expedição Filosófica. Não havia mais recursos para tal. A ciência portuguesa nunca saiu da sombra do Estado.

A submissão do naturalista torna-se mais evidente quando da sua chegada à Corte. Alexandre apresentou-se assim ao Ministro: e dirigindo-me imediatamente a S. Exa., que nada tardou em me falar: Aqui venho, disse eu, mais humilde e rasteiro que uma cobra, a receber o castigo das minhas omissões.

Alexandre preferiu permanecer no país, ao invés de migrar junto com a Corte de Dom João VI para o Brasil. Ele julgou que Napoleão haveria de favorecer a publicação de sua obra.

Mas, quando a invasão francesa chegou, uma parte da coleção de Alexandre foi ao contrário roubada como despojo de guerra. Parece que os fatos aconteceram cedo na sua vida – tinha então pouco mais de 50 anos. A tristeza, o álcool e a doença não lhe permitiram sequer chegar aos 60.

Viagem Filosófica de Alexandre Ferreira.

O seu era um acervo enorme, quase 1.200 desenhos e 200 textos. O material, que já chegara deteriorado em Portugal, foi transferido para a Academia Real de Ciências. Lá, ao invés de publicado, foi danificado e perdido.

Mas, no fim do nosso Império, a Biblioteca Nacional do Brasil conseguiu por compra e doação a transferência do acervo que restara (em parte também devolvido pelos franceses).

Em 1983, no segundo centenário da viagem, a Expedição Filosófica voltou a ser parcialmente publicada no Brasil. Talvez no futuro e agora reunida, ela possa conhecer toda junta a luz do dia – quem sabe no seu terceiro centenário.

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Sobre o autor

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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