O Espinhaço: Serra do Cipó

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Depois de atingir seu ponto culminante, o Espinhaço abre-se em elevados campos rupestres. Falo agora sobre o Cipó, um espaço privilegiado, com sua natureza suave, diversa e grandiosa. Esta que, a meu ver, é a mais bela paisagem mineira irá acompanhá-lo ao longo desta coluna.

O Cipó começa a menos de 100 km de Belo Horizonte. Seus campos ondulados prestam-se a uma longa penetração, uma vez superadas as escarpas de contorno. Por esta razão, sempre foram visitados, motivando o movimento para conservá-los (ver mapa).

Mapa do PN Serra do Cipó

Como Minas não dispunha de recursos para um PE, a União assumiu a iniciativa, surgindo então o PN da Serra do Cipó. Na ocasião, estava 40% indenizado – ouço dizer que este percentual chegou hoje ao dobro. Foi depois criada uma APA para circundá-lo e protegê-lo.

Diz-se que a região toda do Cipó ultrapassa os 100 mil ha. Ela se estende por 80 km, desde Itabira ao sul até Congonhas ao norte, abarcando cerca de dez municípios mineiros, em especial Santana do Riacho e Jaboticatubas, todos pobres e despovoados. Neles existem o PN da Serra do Cipó (33.800 ha), o PE da Serra do Intendente (13.500 ha) e a APA do Morro da Pedreira (66.200 ha).

Conheço o Cipó desde os anos de 1980, lá tendo feito três ou quatro travessias e outras tantas visitas. A via de acesso MG-10 está hoje asfaltada, sem a horrenda nuvem de pó da subida até o Alto do Palácio – parecia que todo o solo do Espinhaço estava virando fumaça. É impressionante como a modesta vila da entrada cresceu para mais de três mil habitantes, tendo trocado seu nome de Cardeal Mota para Serra do Cipó, algo desnecessária e infeliz.

Interior do PN Serra do Cipó, MG

O Cipó era originalmente ocupado pelos índios bororos, que acabaram eliminados depois que os sertanistas começaram a percorrê-lo a partir do século XVII. Foram eles que fundaram as primeiras fazendas no século seguinte. A Estrada Real, que subia até Diamantina, passava por muitos dos seus municípios. Nesta ocasião, surgiu a Fazenda do Cipó da Família Moraes, o nome resultando das muitas curvas do rio.

O ouro na região era escasso, diferentemente do que ocorria ao norte, e as populações passaram então a dedicar-se à agricultura de subsistência. Já os campos altos eram utilizados para a criação de gado durante as estações secas. Foi esta região alta e vazia que começou então a surgir para o ecoturismo a partir do último quarto do século XX.

Caminhando pelo Cipó, com o Pico do Breu ao Fundo, MG

Mais do que qualquer outra, a cadeia do Espinhaço possui grande complexidade geológica, com sequências sucessivas (e às vezes dramáticas) de rochas e solos distintos entre si, num relevo muito movimentado. O Cipó é relativamente elevado, variando de 800m das várzeas até os quase os 1.700m dos picos mais elevados. Sua rocha básica é o quartzito, havendo ocorrência de calcário.

A variação geológica do Espinhaço favoreceu a diversidade da flora – e a pobreza dos solos causou sua especialização. Seus campos rupestres são tidos como os mais biodiversos do Brasil. No Cipó eles ocupam 65% da área total. A paisagem natural se completa com a mata atlântica e as manchas de cerrado. Você encontrará bromélias, sempre vivas e orquídeas nos primeiros, árvores de monjolo e jequitibá na segunda e pequizeiros e paus terra no terceiro.

Vista do Pico Montes Claros, Serra do Cipó, MG (Fonte: Divulgação)

Embora esta vegetação seja típica, não há no Espinhaço campos tão formosos como os do Cipó. Eles são tidos como os mais biodiversos do Brasil. Talvez seja a ondulação, o colorido e a predominância de gramíneas, ou ainda a graciosa disposição das corcovas e a generosa insolação, que fazem deles panoramas únicos.

A fauna do Cipó sempre foi variada – mas é bem pouco endêmica, dada sua mobilidade. Entretanto, a caça e a destruição dos habitats tornaram extintos entre outros a onça pintada, a anta, o cervo do pantanal e o tamanduá bandeira. Mas ainda sobrevivem a jaguatirica, a paca e o lobo guará, junto com inúmeras aves, répteis e peixes.

Travessia na Serra do Cipó, MG

O Cipó está situado no divisor entre as bacias do Doce e do São Francisco. A vertente leste abastece o primeiro, com os Rios Preto (um nome bem comum na região), Tanque (no rumo da Serra dos Alves) e Peixe (que passa pelo Travessão). Os cursos da encosta oeste correm para o São Francisco, em especial o Rio Cipó, afluente do Rio das Velhas, junto com suas inúmeras lagoas. O Cipó é formado pela confluência dos ribeirões Mascates e Bocaina, é inicialmente muito sinuoso e sua foz no Paraúna acontece junto a paredões.

Região da Serra do Intendente, Serra do Cipó, MG

A extremidade norte do Cipó termina em impressionantes paredões, que parecem esculpidos por um absurdo cataclismo. São abrangidos pelo PE criado para conter a Serra do Intendente e as cachoeiras que se precipitam lá de cima. Seu nome homenageia o Intendente Câmara, que instalou a primeira siderurgia brasileira em Morro do Pilar. Como é usual nos Parques do Espinhaço, este tem um formato estreito e retangular.

Parede da Serra, PE Serra do Intendente, Conceição do Mato Dentro, MG

Pertence ao município de Conceição do Mato Dentro, fundado pela busca do minério de ouro e está agora passando por um preocupante surto de exploração do minério de ferro. É assustador observar lá de cima a Serra da Ferrugem, sabendo que será desmontada para abastecer um gigantesco mineroduto para exportação.

Na coluna seguinte, vou comentar sobre os muitos atrativos do Cipó.

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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

1 comentário

  1. Avatar
    Viejito Mochilero em

    Uno de los lugares más hermosos de Brasil.
    Paisajes inolvidables.
    Pueblo acogedor y humilde.

    Mi sueño es un día poder vivir en la Sierra do espinhaço.

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