Crônica da Temporada do Karakoram de 2010 Parte 3 - AltaMontanha.com - Portal de Montanhismo, Escalada e Aventuras
Estatísticas 2010

Crônica da Temporada do Karakoram de 2010 Parte 3


Categoria: Estatística

Notas preliminares: a) As informações abaixo refletem a opinião pessoal do autor, e não são a posição oficial do website. b) Os dados apresentados são referentes à temporada de escalada do Karakoram (verão 2010), compiladas até 6 de Setembro de 2010. Os cumes e eventos ocorridos após não fazem parte dessa crônica.

Rodrigo Granzotto Peron

13 - TRAVESSIA DO BROAD PEAK

O que faria um alpinista após completar todos os 14 picos 8000? Aposentar e curtir o status? Não Alberto Iñurrategi; ele é “o cara”. Aqui vai a lista de maravilhas nas quais esteve envolvido após completar os 14:

2004 - Gasherbrum III (cume)
2006 - Everest - Rota Supercouloir (tentativa)
2006 - Shivling (cume)
2008 - Gasherbrum IV (antecima)
2009 - Makalu - Pilar Oeste (tentativa)
2009 - Everest - Rota Supercouloir (tentativa)

Fomos testemunhas em 2010 de outra demonstração de força de Alberto. Com os parceiros de cordada Mikel Zabalza e Juan Vallejo LLamos, eles fizeram em estilo alpino a terceira travessia completa dos três cumes do Broad Peak (Norte, Central e Principal). Essa foi, com certeza, a realização mais importante da temporada.

Primeiro os espanhóis desenharam uma nova rota nas difíceis encostas da Face Oeste do Broad Peak Norte (7500m). Todavia, a planejada travessia teve de ser abortada naquela ocasião por conta dos fortes ventos. Na descida, Alberto alertou que a nova rota era apenas um aperitivo.

Uma semana mais tarde, eles fizeram cume novamente no Broad Peak Norte e prosseguiram até o Broad Peak Central (8016m). O cume desse 8000 subsidiário foi alcançado após uma batalhada dificílima de 15 horas contra neve profunda e condições climáticas severas. Essas dificuldades levaram Mikel e Juan a dar meia-volta sem complementar a travessia. Mas Iñurrategi, mostrando sua resistência legendária, prosseguiu e fez cume também no Broad Peak I (8047m), arrebanhando os três picos do maciço do Broad Peak.

Essa foi a terceira travessia completa de toda a aresta do Broad Peak, após os polacos (1984 - Jerzy Kukuckza e Wojciech Kurtyka) e os japoneses (1995 - Toru Hattori, Toshiyuki Kitamura e Masafumi Tokada). Importante mencionar que todas as três travessias ocorreram do norte para o sul; todo mundo começou com o BP Norte.

Uma curiosidade é que os espanhóis fizeram cume no Broad Peak Central quase no 35º aniversário (a primeira ascensão deu-se em 28 de Julho de 1975).

14 - AS SOMBRAS DO DARTH K2

K2 é um puro-sangue difícil de cavalgar. Nas últimas 13 temporadas (1998-2010), o cume foi atingido em apenas seis ocasiões (2000, 2001, 2004, 2006, 2007 e 2008). As outras 7 temporadas acabaram em branco. A mais bem sucedida foi 2004, com 51 cumes. Outras boas temporadas: 2000 e 2007. Por outro lado, em 1998, 1999, 2002, 2003, 2005, 2009 e 2010 o K2 se vingou e não deixou nenhum alpinista passar sua guarda.

Em conclusão, quando as expedições chegam ao campo-base há apenas 45% de chance de que algum montanhista irá culminar o K2 naquela temporada (a taxa mais baixa em todos os 8000).

Segue abaixo a lista do que aconteceu nos anos mais recentes:

1998 - zero
1999 - zero
2000 - 25
2001 - 9
2002 - zero
2003 - zero
2004 - 51
2005 - zero
2006 - 4
2007 - 31
2008 - 18
2009 - zero
2010 - zero

A temporada de 2010 esteve iluminada com a presence de uma grande quantidade de top climbers: Ralf Dujmovits, Maxut Zhumayev, Vassili Pivtsov, Fredrik Ericsson, Gheorge Dijmarescu, Luis Benitez, e outros.

Outro relevante aspecto no K2 foi a massiva presença feminina, com Anna Czerwinska, Gerlinde Kaltenbrunner, Kinga Baranowska, Leila Esfandiari, Meagan McGrath, Tamara Stys, Patrycja Jonetzko e Lakpa Sherpani.

Na primeira metade da estação, os únicos eventos dignos de nota foram as descidas parciais de ski do Fredrik Ericsson (SUE). O primeiro round foi com Trey Cook (UK), na Rota Cesen, de 6500 metros ao base. Após, em 26 de julho, uma segunda descida, do campo IV (8000m) ao base. Após esses warm-ups, Fredrik iria tentar a primeira descida completa de ski do K2, mas na subida ao cume, com Gerlinde, uma queda fatal abreviou a carreira desse grande alpinista e grande esquiador.

Com o K2 de mau humor e após a morte de Fredrik, quase todas as expedições foram embora, deixando o Darth Chogori para trás. A viagem para casa, contudo, foi uma aventura e tanto para os escaladores. Chuvas pesadas e enchentes gigantescas devastaram o Paquistão, afetando diretamente mais de 20 milhões de pessoas, numa área do tamanho do estado da Flórida (“a pior enchente que já vi na vida”, Karrar Haidri, correspondente do ExplorersWeb comentou). As enchentes e os deslizamentos destruíram as rodovias entre Gilgit, Skardu e Askole (“a carona para Scardu foi terrível”, de acordo com alguns alpinistas). Vários vôos foram adiados ou cancelados, e as maiores cidades viraram um caos.

Alguns alpinistas tiveram paciência para esperar uma nova janela de tempo bom e no meio de agosto ocorreu uma segunda onda de ataque ao cume, que resultou numa das maiores polêmicas dos últimos anos. Um dos capítulos mais sombrios da história do montanhismo foi escrito pelo austríaco Christian Stangl. Ele persegue a conquista dos “Segundos 7 Cumes”, que consiste na ascensão da segunda montanha mais alta de cada continente. No K2, Stangl retornou do ataque ao cume com alegações incríveis: a conquista extremamente rápida do Esporão dos Abruzzos, em 41 horas (70 horas no total, contando a descida). Se confirmada, essa seria a segunda subida mais rápida do K2. Na chegada ao base, Stangl mencionou: “Se escalar montanhas fosse o que eu passei nas últimas 70 horas no K2, eu desistiria imediatamente”.

A história do austríaco, entretanto, não convenceu os outros alpinistas. Georghe Dijmarescu imediatamente replicou: “não houve cumes este ano, garantido. Quando vocês escutarem a história toda, vão rir”. O top climber kazaque Maxut Zhumayev também duvidou da conquista. E Zsolt Torok narrou que seus Sherpas encontraram o equipamento do austríaco (incluindo uma tenda, um piolet, um livro e comida) escondido embaixo de rochas próximo ao Esporão dos Abruzzos (perto do campo III, a 7500 metros). A pergunta que não queria calar é por que o material estava escondido lá? Era uma clara indicação de que o alpinista não fora até o cume, e tentou “esconder as evidências embaixo do tapete”.

As suspeitas aumentaram na internet. O site k2bottleneck apresentou mais argumentos contra Christian Stangl, incluindo a análise da única “prova” do cume. A foto que foi liberada teria sido enviada sem o EXIF (nota: o EXIF mostra a data da foto e outras informações técnicas). Teria a foto sido alterada no Photoshop? Mais tarde, ExplorersWeb descobriu que a foto foi tirada do campo III, e não do cimo.

A princípio, o alpinista negou as acusações: “Até mesmo publicar fotos não ajuda, sempre há alguém que duvida da conquista. Vou parar de publicar mais detalhes ou fotos”. Mais tarde, ele não conseguiu agüentar a pressão e confessou para o site orf.at que a “prova” fora fabricada e que ele “apenas imaginou” a vitória. Na sua versão, “na última tentativa, eu entrei num estado de consciência similar a um transe e acabei convencido de que havia chegado no ponto mais alto”. Depois disso, o que vem à mente é Pinóquio, Barão de Munschausen ou Dom Quixote.

Não quero ser rude, mas a versão de Stangl é ridícula! Ele orquestrou essa farsa desde o princípio. O equipamento foi escondido. A foto foi alterada. Ele tentou enganar seus colegas no campo base. Ele insistiu em suas mentiras, publicando notas falsas no seu website. Isso tudo é muito sério!

O único comentário correto por parte dele foi: “Se escalar cumes 8000 (e apenas eles) inclui experimentar todos os comentários maldosos eu tive que agüentar após o K2, eu não quero mais ser um membro dessa “comunidade de alpinismo” (comentário postado em 30 de agosto). Christian, você está certo! Após toda essa vergonha, você não é mais um membro da comunidade...

Por sorte, a verdade prevaleceu no final, um tributo às palavras de Abraham Lincoln: “Você pode enganar todas as pessoas por algum tempo, e algumas pessoas por todo o tempo, mas você não consegue enganar todas as pessoas por todo o tempo”.

E, no fim, outra temporada no K2 terminou, sem cume e com duas mortes. Taxa de periculosidade: extrema.

15 - A GIGANTESCA PAREDE LESTE DO GASHERBRUM I

Por questões logísticas, os campos-bases de todos os quatro 8000 do Baltoro estão localizados no flanco sul desses gigantes. É natural que praticamente todas as ascensões registradas sejam pelo sul. Cumes vindos do norte são muito raros:

K2 - seis temporadas (1982, 1983, 1990, 1994, 1996 e 2007)
G1 - nada
BP - três temporadas (1984, 1995 e 2010)
G2 - uma temporada (2007)

Os italianos têm se tornado os grande experts nas encostas boreais dos 8000 do Paquistão. Em 2007, Daniele Bernasconi, Michele Compagnoni e Karl Unterkircher completaram a primeira subida da Face Norte do Gasherbrum II. Em 2008, Karl Unterkircher, Walter Nones e Simon Kehar experimentaram uma linha central direta na Face Norte (Flanco Rakhiot) do Nanga Parbat, mas Karl infelizmente morreu após cair em uma crevasse.

Na presente temporada, outro grupo muito experiente, incluindo Herve Bermasse, Mario Panzeri e Daniele Bernasconi, foi ao Paquistão determinado a desafiar a Face Leste no Gasherbrum I. O líder da expedição foi o legendário Agostino Da Polenza. Enfrentaram problemas burocráticos que atrasaram a chegada ao campo base em quase 20 dias. Para piorar, o excesso de neves nas partes mais altas fizeram da rota uma armadilha de avalanches, perigosa demais para ser tentada.

E assim a expedição foi cancelada, mas os italianos não voltaram para casa de mãos vazias. Eles realizaram a primeira escalada de um 6000 vizinho (Venere Peak, vide tópico mais abaixo).


*A presente crônica é baseada em dados preliminares e ainda sujeitos a análise. Alguns números poderão ser corrigidos ou modificados nos próximos meses.




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