Travessia e Acidente no Vale da Ilusão - AltaMontanha.com - Portal de Montanhismo, Escalada e Aventuras
Jorge Soto

Travessia e Acidente no Vale da Ilusão


Aventura de:

Conhecido por seu vasto conjunto espeleológico, engana-se quem acha que o Petar vive exclusivamente da exploração de cavernas.

A enorme área que abrange o parque também oferece inúmeras caminhadas, e uma delas leva por terreno hostil e acidentado ao espetacular Vale da Ilusão, região menos conhecida do Vale do Ribeira (sul de SP) e que não consta em nenhum mapa por não existir oficialmente. Procure no Google e chegará apenas neste relato.

É justamente a travessia deste cânion resultante de desmoronamentos milenares que encaramos no feriado último, entrando pela Caverna Temimina e emergindo na Caverna Desmoronada. Pernada árdua e selvagem com direito ao acidente deste que vos escreve, que teve como combustível adicional a série de notícias pouco animadoras referentes ao futuro do parque, cada vez mais incerto.

Chegando ao Núcleo dos Caboclos

Parece que havíamos saído da "zona de conforto" com antecedência, quando não era o chororô estridente de um bebê ou a zona de "pé-vermeios" de cara cheia voltando das baladas de Guapiara, a falta involuntária de descanso no interestadual da Transpen rumo Apiaí deve ser incluída nos "porém" de viajar ao Petar de busão. No entanto, a própria indefinição do parque com relação a sua abertura inviabilizava qualquer planejamento prévio de visita com carro.

Não há escolha. Dessa forma, as 3:45 da madrugada saltamos do busão no cruzamento da SP-250 e a Estrada Mineradora Espírito Santo, ainda distantes 27km de Apiaí, para onde as luzes do coletivo se perderam na curva seguinte. Sob fina garoa, eu e o Felix percorremos os 10km seguintes de meandros da sinuosa e precária estrada que nos levaria ao nosso destino, naquela região montanhosa que faz parte do Maciço da Serra de Paranapiacaba. Entre um papo e outro, a mata à nossa volta se adensava mais, assim como o lama e o cascalho no caminho.

Vara-mato até as "temiminas"

Após a ponte sobre o rio Temimina, as 5:10 (e 8km do asfalto) chegamos na portaria do parque, que estava fechada e sem sinal de vida naquele horário. Continuamos ainda por mais 2km ate o início da trilha para o conjunto de Cavernas Temimina, que sai à esquerda da estrada, anunciado por uma discreta placa escondida pelo mato. Eram quase 6hrs e já amanhecia, portanto demos uma breve descansada ali no chão, alem de beliscar alguma coisa como café-da-manhã providencial.

As 6:20 começamos de fato a andar na trilha, por sinal muito mal conservada! Diferente da ultima vez que ali estivera, parecia que estava em total desuso: o mato alto tomava conta da picada quase que integralmente, e se fechava ainda mais quando esbarrávamos com voçorocas ou vegetação caída das encostas! Felizmente minha memória ajudou a tomar a direção certa e assim avançamos em meio à densa e úmida mata, alternando facão a alguns trechos mais roçados. Assim, contornamos em suave desnível a 1ª montanha ate alcançar um descampado com alto capinzal salpicado de palmeiras solitárias. Aqui, uma bifurcação sinalizada nos leva intuitivamente para direita. Entretanto, o alto capinzal nos força a varar boa parte desse trecho ate alcançar uma minúscula pinguelinha que ajuda a transpor um pequeno córrego que marulha placidamente.

Entramos novamente na mata fechada, primeiro bordejando com leve inclinação a encosta esquerda da enorme serra ate alcançar o topo da mesma. Em seguida vem uma suave descida pela encosta direita, ao mesmo tempo em que a chuva torna a cair, embora já estivéssemos ensopados pela vegetação úmida. A trilha, que até então estava roçada outra vez se fecha, o que nos obrigou a farejá-la repetidas vezes! Troncos tombados e queda de barreiras apenas foram obstáculos naturais a transpor durante um bom tempo, mas por sorte logo adiante encontrávamos vestígios da picada.

É o mau tempo parecia estar em uníssono com o estado precário da trilha tomada pela vegetação que ao longo dos anos retomou seu aspecto e muito dificultou nosso avanço, provando também que não havia trabalho algum de conservação da mesma nos últimos meses! Apesar da ampla visão à nossa direita, o mau tempo impedia qualquer visual, e apenas nos reservava uma vista parcial das montanhas forradas de verde envoltas em espesso nevoeiro. Mas o cansaço dos músculos não impede que a Mata Atlântica mexa com nossos sentidos, e o Felix didaticamente atenta ao cheiro de cânfora exalado por algumas plantas invadindo nossas narinas, assim como vistosos jurubebas e palmitos pedindo para serem degustados, ou até um curioso inseto com odor de carbureto, o Opilião!

Na seqüencia veio a descida final que bordejando a encosta direita aos ziguezagues, torna-se cada vez mais íngreme e demanda cautela devido ao chão molhado e escorregadio. Este trecho nos tomou um tempo considerável de avanço por motivos diversos: voçorocas de bambus e capim navalha obstruindo caminho, carrapichos e mato espinhento se agarrando ao corpo e, principalmente nuvens de vorazes pernilongos que não nos permitiam momentos de descanso, mas mesmo assim seguimos em frente, decididos em alcançar nosso destino cavernoso!

A nebulosidade já havia se dispersado quando chegamos no fundo do vale, dominado por um descampado de alto capinzal. Cruzamos com a trilha que vem da casa do Seu Gastão, transpomos vários córregos até que a picada deriva para a direita, se enfiando entre palmas e bananeiras para depois subir a encosta esquerda da montanha seguinte. Passamos por enormes blocos de rocha até finalmente alcançar uma pequena clareira em meio à mata. Aqui há uma "trifurcação", na qual a picada do meio é a que nos levaria a nosso destino.

Assim, apos uma curta e íngreme descida, bordejamos pela esquerda um enorme paredão rochoso até chegar, as 12:45, na entrada da Temimina 1, na qual adentramos ao seu interior contornando rochas besuntadas de limo e um chão ardiloso. Logo após a entrada temos um salão com paredões de quase 100m de altura e um jardim interno belíssimo, iluminado naturalmente por uma enorme clarabóia, formada pelo desmoronamento do teto da caverna e de onde pende muita vegetação que lhe confere aspecto de jardim suspenso num castelo medieval. Mais adiante, temos outro salão colossal também iluminado naturalmente com amplo chão plano e seco, e restos de fogueira recente, onde jogamos as mochilas. A caverna termina num barranco íngreme q dá acesso a um rio subterrâneo, logo abaixo, em meio à visão da exuberante Mata Atlântica do entorno.

Devidamente instalados, ficamos pasmos com o tempo gasto para chegar ali (5hrs), também por conta do estado precário da trilha! Como nosso destino final não era ali, ficamos apenas o suficiente para fotos e comer algo! Voltamos então à trilha para continuar descendo forte através da densa mata, ardilosas pedras e muita lama. As 14:30 atingimos o fundo do vale, e após breve sobe-desce alcançamos o chão plano que sinaliza a entrada da Temimina 2, onde há um amplo salão e um local plano ideal pra bivaque, além de enormes estalagmites, estalactites, cortinas e colunas que tornam o local majestoso.

Jogamos as mochilas ao chão e saímos para explorar o interior da curta caverna. Após algumas escalaminhadas por pedras lisas, alcançamos terreno menos acidentado, indo por uma galeria larga e alta com traços de arquitetura gótica até finalmente dar num trecho que culmina num enorme e perigoso abismo, de onde temos o 1º contato visual do Vale da Ilusão. Do lado do penhasco, muitas cavernas adjacentes que provavelmente devem dar nas mais incríveis galerias subterrâneas são convite certo à aventura, mas ficam para uma próxima ocasião.

Assim, retornamos à larga entrada da caverna, buscamos água 30m abaixo descendo um barranco, onde o Rio Temimina ressurge após serpentear as entranhas da montanha. A vontade do Felix era adentrar (como eu já fizera uma década atrás) pelo rio subterrâneo, com água na coxa e seguir adiante, passar pelo "chuveirinho" e alcançar a saída justamente na base do barranco da Temimina 1. Porém, o volume de água agora é maior e a possibilidade iminente de chuva desestimula qualquer visita mais íntima à montanha.

O resto da tarde ficamos de bobeira para descansar e recuperar o sono perdido no busão. E antes que a noite caísse e nos envolvesse com seus ruídos peculiares nos recolhemos a nossos acolhedores sacos de dormir. O som hipnótico do rio, o gotejamento incessante sobre o calcário e os chiados de morcegos nos fez cair nos braços de Morpheus sem muito esforço, numa noite que se revelou fria e úmida. Naquele momento éramos verdadeiros "homens das cavernas", trazendo à tona os cinco sentidos em estado aguçadíssimos, além do instinto básico de milhares de anos de nossos antepassados pré-históricos, cozinhando e dormindo em abrigo sob pedra, próximo da boca rochosa da gruta. Uma sensação primal e fantástica!

Singrando Pelo Vale da Ilusão

Levantamos quando a luminosidade matinal estendeu seus raios difusos à entrada da caverna, as 6:30hrs. Tomamos um rápido café e arrumamos nossas mochilas, totalmente sujas de calcário molhado. As 8:15 descemos ate o Rio Temimina, cujo curso acompanhamos após atravessá-lo cautelosamente com água acima da coxa através do seu leito rochoso-arenoso. Este trecho é por dentro da montanha, uma parte ôca de uns 50m cavada pelo rio que é transposta sem maiores dificuldades ou auxílio de lanternas, já que a luz nos extremos permite andar sem dificuldade numa zona de penumbra, realçando mais as formações curiosas na rocha.

Para nosso alívio, não tarda muito e saímos do "buraco", emergindo no inicio do cânion do Vale da Ilusão, onde o rio mostra-se furioso, rugindo em meio às pedras e serpenteando vale abaixo. Ao mesmo tempo, somos recebidos pelo canto metálico de ruidosas arapongas, que ecoam em nossos ouvidos. Daqui em diante bastou tomar uma trilha que acompanha o rio na sua margem esquerda, em meio à mata densa e exuberante, com belos exemplares de samambaias, canelas, cedros, figueiras, jatobás e o cobiçado palmito-juçara, que ali finca suas raízes sem medo. Apesar da nebulosidade matinal, podemos vislumbrar sem dificuldade que caminhamos paralelamente no meio de duas muralhas gigantescas de calcário que ora se afastam ou aproximam entre si, o que confirma ser o Vale da Ilusão um enorme cânion resultante do desmoronamento de uma única gigantesca caverna a milhares de anos, e segue o rastro do Rio Temimina!

Logo a picada atravessa o rio e sobe a encosta direita do cânion em ritmo forte, onde algumas cordas dispostas estrategicamente ajudam a vencer o desnível. No alto encontramos uma bifurcação, mas consultando o mapa (e a bússola) optamos por tomar a opção à esquerda, que em meia hora nos levou à Casa do Seu Gastão!!! Trilha errada, claro! Voltamos até o rio novamente, as 10:30, agora cientes que do Seu Gastão se pode acessar diretamente o Vale da Ilusão.

Bem, parece que a partir daquele momento o lance era apenas acompanhar o rio abaixo onde melhor houvesse essa possibilidade, ora pelo seu leito pedregoso-arenoso, ora pelo meio do rio com água até os joelhos, ora pela mata bordejando a encosta. Este trecho é muito bonito porque o rio não é muito selvagem e do meio dele se vislumbra também o entorno, com verdejante mata ao nosso redor e enormes paredões emergindo na vertical, tal qual como se estivéssemos na base dos cânions de Aparados da Serra! No caminho, atravessamos pequenas lapas e grutinhas formadas por pedras colossais tombadas no rio! Mas ao meio-dia paramos num plácido remanso de uma bucólica prainha fluvial, onde lanchamos alguma coisa, sob protestos de nuvens de pernilongos!

Dando continuidade à pernada, o terreno ganha declividade considerável e o rio que até então se mostrou calmo e sereno ganhou força e selvageria incomuns, o que nos obrigou a sair dele e acompanhá-lo por cima das enormes rochas desmoronadas no caminho, ora apenas pulando ou escalaminhando as mesmas! Mas todo cuidado era pouco, porque a rocha de calcário além de escorregadia é afiada como navalha! Um trecho bem nervoso, por sinal! A paisagem daqui não deixa a desejar ao anterior e descortina muitas cachoeiras em meio à correnteza acompanhando o rio revolto, vale abaixo. Após este trecho, o rio se nivela ate "amansar" novamente, permitindo que se ande no meio dele outra vez, sem problemas.

As 14:15 percebemos que o vale se afunila e, bem mais adiante, faz uma curva acentuada para a direita. Como também parecia que o rio logo entraria num sumidouro em meio a intermináveis voçorocas de espinhos, resolvemos cortar caminho subindo a encosta à nossa direita para depois descê-la e novamente continuar pelo vale até a resurgência do rio. Começamos assim a varar o mato espinhento sob vigorosas facoadas até vencer o primeiro e árduo degrau de encosta, que depois se mostrou menos hostil, bastando contornar a vegetação alta e o arvoredo no caminho.

Mas a medida que se ganhava altitude, paredões verticais começaram a exigir nossos dotes "simiescos" para serem vencidos. E da-lhe escalaminhada com cargueira nas costas, até alcançarmos o topo! Daí foi só descer pro outro lado, inicialmente através de valas e terreno não muito íngreme, mas depois as coisas começaram a mudar. E pra pior. Geralmente dávamos em barrancos quase verticais ou fendas rochosas enormes, onde tínhamos que descer sempre pela opção menos perigosa até a base da "desescalaminhada" de qualquer jeito, sem corda.

O Acidente e Queda no Paredão

A essa altura estávamos exaustos e já escurecia, mas mesmo assim teimamos em descer naquelas condições, até porque local decente pra bivaque ali era impensável. E a teimosia aliada ao cansaço gerou a desatenção que se seguiu. O Felix começou a descer um enorme paredão vertical de quase 40m e fui logo atrás, mas já de cara vi dificuldades em encontrar apoio decente para os pés enquanto minhas mãos se apoiavam numa raiz que me pareceu confiável. Foi então que liberei meus pés da última agarra e fiquei praticamente pendurado pelas mãos naquela raiz, enquanto meus pés tentavam desesperadamente buscar algum apoio! E nada. Detalhe: a inclinação tendia para negativo. Foi ai que senti a raiz ceder. "Fodeu!".

Gritei pro Felix que despencaria se não achasse apoio pros pés e para uma mão. Mas a raiz cedeu antes que concluísse a frase num sonoro palavrão. Tudo foi muito rápido. Apenas lembro-me do estampido da raiz quebrando e do meu peso me levar para o vazio abaixo, de costas. Lembro também de passar pelo Felix e do seu grito gutural a me ver cair. Só lamentei não ter dado um tchauzinho pra ele no caminho. Apenas fechei os olhos e deixei rolar. Lembro do ar passando velozmente por mim e do primeiro baque forte que senti nas costas ao bater nas árvores, de rodar e receber as pancadas seguintes pelo corpo todo.

Comportei-me como uma bola de fliperama, batendo de um lado pro outro enquanto caia, principalmente quando meti a cara num tronco que mandou meus óculos para o espaço. Apesar disso, foram as árvores que amorteceram aquela queda livre. Até que finalmente senti um ultimo baque, seco, e percebi que não caia mais, havia estacionado no pé daquele imponente paredão, numa estreita canaleta coberta de terra e folhas. Abaixo a pirambera continuava, mas bem menos íngreme. Por sorte ainda estava consciente e não quebrara nada, mas logo senti um ardor na mão que se revelou um corte bem fundo.

Passado o susto gritei para tranqüilizar o Felix que, desesperado, também gritava lá de cima. Desceu rapidamente e me examinou com receio que tivesse algum dano interno ou neural. Mas nada, ainda bem. Assim, à luz de lanternas, usou seus conhecimentos de primeiros socorros para cuidar da mão. Foi ai que percebi minha bermuda molhada e tingida de vermelho e que a mão não era a única machucada, principalmente quando meus dedos tatearam um belo, quente e macio naco de carne pendendo da minha bunda! Q situação, hein? E tome gaze, esparadrapo, ponto falso, etc. Mas que fique bem claro, o Felix cuidou do meu popô de forma profissional!

Ainda adrenados e tensos pelo ocorrido, não nos restou opção senão nos acomodar naquela canaleta inclinada da encosta e tentar relaxar, mas isso foi difícil porque eu ainda tremia pacas em função do choque. Nestas horas um bom whiski faria muito bem! Joguei o isolante e me cobri de bruços com um plástico, evitando que os pernilongos se banqueteassem comigo! Sem espaço para muita coisa, nos resignamos a comer pedaços de miojo cru quando começaram a cair os primeiros pingos de chuva!

Só torcíamos para que não fosse torrencial, porque aquela canaleta na qual estávamos aninhados logo viraria um rio. Mas por sorte a pancada foi passageira, e depois as frestas em meio ao arvoredo revelaram um céu totalmente limpo, com direito a uma lua cheia linda e maravilhosa! Apenas dormir foi algo meio complicado, o terreno estreito e inclinado não permitia maior conforto, nessa que provavelmente foi uma das noites mais longas de minha vida.

Do Vale da Ilusao Até a Desmoronada

Despertei ao romper do dia apenas para sentir o corpo todo dolorido, parecia que tinha sido mastigado e cuspido pelo tinhoso! No entanto, não tínhamos escolha e precisávamos descer! Tomamos um rápido lanche e demos continuidade à empreitada, claro que desta vez menos ágeis e com atenção redobrada! Da canaleta onde estávamos bastou seguir em ziguezagues pela encosta até dar novamente num trecho mais íngreme e escorregadio, que precisou ser vencido na desescalaminhada, no entanto, o Felix sempre ia na frente já ancorando bons lugares para que eu pudesse me firmar, tática que revelou-se bem eficaz e segura, embora vagarosa. Com o esforço e os movimentos senti escorrer filetes de sangue pela perna, sinal que a ferira reabrira. Paciência e vamos em frente, "menstruado" ou não! Até porque apenas eu conhecia a "trilha" para sair dali.

Ao chegar ao fundo do vale, após voçorocas de espinhos e muitos formigueiros, alcançamos outra vez o Rio Temimina, as 10:15, e lá tivemos um bom descanso, complementamos nosso precário café-da-manhã e o Felix enfaixou novamente meu rabo com os resquícios de esparadrapo e gaze que dispunha, de forma a que agüentassem até o final. Apesar da gravidade dos meus ferimentos, procurava me distrair com a paisagem do local que é digno de nota: o cânion quase empareda o rio que desce furiosamente vale abaixo em grande declividade em meio as pedras e muitas cachoeiras!
Ou seja, agora o jeito era seguir bordejando o rio pela íngreme encosta a esquerda, buscando não nos afastar muito dele a não ser que houvesse necessidade. Dito e feito. Já no inicio nos lançamos na encosta, nos firmando vigorosamente na vegetação disponível, para contornar paredões verticais à nossa frente. Na seqüência, desescalaminhamos a ardilosa encosta até ganhar o leito do rio outra vez, agora mais calminho e plácido.

O dia estava radiante e o vale despontava em todo seu esplendor, mas bastou acompanhar o rio que logo ele sumiu nas entranhas da terra. Daí nos orientou o mapa, a bússola e até os paredões do cânion indicavam que o sentido correto a ir a partir dali seria sempre sul/sudeste! Na verdade, agora palmilhávamos o leito pedregoso do que outrora fora um rio, agora tomado parcialmente pela mata, mas que não oferecia maiores problemas de ser transposto. Dessa forma alcançamos o selado onde as muralhas do cânion pareciam se encontrar, margeando o paredão direito assim como enormes grutas e fendas escondidas no caminho.

Do outro lado do selado e ainda rumando na direção apontada pela bússola, logo começamos a ouvir o som borbulhante de água. Descendo a piramba aos ziguezagues, logo tivemos contato visual com rio emergindo mansamente do interior da montanha, singrava o vale logo abaixo em meandros rumo sudoeste! Era o Rio Temimina novamente, que neste vale passa a se chamar de Pescaria, que só conseguimos alcançar as 16hrs, após um ultimo trecho de escalaminhada vertical em meio às pedras! Com água até a cintura, atravessamos o rio ate sua outra margem onde exultamos de felicidade por chegar até a clareira que nos levaria de volta, a mesma que dá acesso a curta trilha que leva ate a Caverna Desmoronada, que declinamos em visitar por conta do tempo e das circunstâncias!

A Volta Intermiável pro Núcleo dos Caboclos

Após um breve descanso e lanche merecidos, tomamos a trilha de volta acompanhando o rio durante um tempo. Mas logo a picada deixa o rio, subindo aos poucos a encosta da montanha à nossa direita, de onde nos despedimos do Vale do Pescaria. No entanto, deixar o vale nos tomou um tempão por conta do cansaço e do desnível de quase 350m ainda a ser vencido!

Passada a boca da caverna Pescaria, a trilha parece inclinar mais enquanto nos "arrastamos" montanha acima, arfando à beça! Já quase escurece quando alcançamos o alto, marcado por enormes blocos de pedras, onde a picada começa a descer suavemente.

Apressamos o passo e o mato começava a tomar conta da trilha, e ficar perdidos no escuro - quase no final - não estava em nos nossos planos. Mas isso quase aconteceu, porque perdemos um tempão buscando o trecho final da trilha que nos levaria até a casinha abandonada, já visível de onde estávamos! Ao alcançar a dita cuja, bastou tomar a precária estradinha à esquerda que em 10min nos levou a estrada principal do parque, que nos recebeu com cintilantes vagalumes. Na dúvida entre ir pra portaria ou pro núcleo, fomos em direção deste segundo, crentes que a distancia fosse menor. No entanto, os quase 3km me pareceram o triplo por conta do meu estado de exaustão, já não andava e sim cambaleava, jogando meu peso para frente afim de avançar uns poucos centímetros.

Por fim, alcançamos a Sede do Núcleo Caboclos quase 20hrs, apenas para constatar que não havia ninguém! Eu, literalmente, desabei na varanda da casa principal, exaurido! Por mim, pernoitaríamos ali mesmo e no dia seguinte voltávamos para pegar o busão no asfalto, mas o Felix insistiu em que eu ficasse ali descansando enquanto ele voltava os quase 8km até a portaria p/ buscar ajuda. E foi o que fez, se lançando a caminhar em meio a escuridão enquanto eu me aninhava sobre o isolante e me cobria com um plástico naquela fria noite de terça, eventualmente sentido "formigas" nas pernas, que depois revelaram ser enormes carrapatos.

No Pronto Socorro de Apiaí e a Volta

Dormia quase confortavelmente quando fui acordado por veículos chegando, as 2 da madrugada. Era o resgate de bombeiros e uma saveiro do Ibama. Os primeiros me examinaram minuciosamente enquanto outros perguntavam do ocorrido, demonstrando preocupação enquanto fotografavam meu combalido "derriére". Rezo para que esse material não circule no YouTube.
Na verdade era o Fabio, o diretor do Petar em pessoa, cuidando de sua 1ª ocorrência nesse sentido, já que estava a poucos meses no cargo. Percebeu de cara que não éramos amadores porque até ele desconhecia esse tal "Vale da Ilusão", salientou que não havia nada de errado - afinal, o parque havia sido aberto a visitação - a não ser o fato de não termos notificado nossa entrada. Da mesma forma, nos também tivemos nossas considerações porque achamos estranho não haver ninguém na sede do núcleo (!?).

Enfim, me enfiaram de maca na van do resgate e fomos à Santa Casa de Apiaí, onde chegamos quase 40min sacolejantes depois. Lá, as jovens plantonistas - felizes da vida - deram um trato nos meus ferimentos, além de me enfaixarem até não poder mais. Agora só faltava a torcida do Corinthians também mexer no meu traseiro. Na seqüência, nos resignamos a passar a noite ali mesmo, na sala de recepção do pronto socorro. Assim que clareou não perdemos tempo em rumar num piscar de olhos para a rodoviária e tomamos o bus das 8hrs com destino à Terra da Garoa aonde chegamos após muitas paradas, quase as 14hrs!

E essa foi nossa pitoresca epopéia por essa região inóspita do Vale do Ribeira que apesar dos imprevistos, periga ser a última na região. A seqüência de noticias de embargo e fechamento do parque, de disputas burocráticas do governo federal e estadual no plano de manejo, e da recente notícia da construção da Hidrelétrica do Tijuco Alto tornam ainda mais nebuloso o futuro do Petar, ou pelo menos parte dele. Contudo, espera-se que também não passe de fogo de palha, e logo se alcance um consenso viável e sensato para todas as partes envolvidas.

Seria triste jogar todo este belo patrimônio natural, literalmente para baixo d’água. Assim, o desconhecido "Vale da Ilusão", que não consta em nenhum mapa por não existir em caráter oficial, quiçá venha a não existir mais de fato. E numa ótica para lá de pessimista, quando as águas futuramente tenham engolido seus fundos vales a simples menção do mesmo não passe de uma vaga lembrança. E a possibilidade de palmilhar este belo rincão do Petar realmente não passe de pura ilusão.

Jorge Soto
Fotos: Eduardo Felix



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