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Um ano de realizações no montanhismo

2016 um ano de muito montanhismo


Colunista:

Os últimos anos foram ano que me dediquei bastante ao montanhismo e 2016 não foi diferente.

Mesmo dentro de um refúgio de pedra escoramos o chão com madeira e montamos as barracas para passar a noite. O motivo disso não foi o forte vento que castigava a paisagem lá fora e nem mesmo o frio dos 4500 metros de altitude, mas sim a poeira insalubre daquela construção rústica de mais de 150 anos abandonada ao tempo no meio da Puna do Atacama na Província de La Rioja, no Norte da Argentina.
 
Apesar do abrigo nada luxuoso, passei meu quarto réveillon seguido nos Andes, o que por si já é um motivo de comemorar, além do que a própria data simbólica do renascimento de um novo ciclo que parar mim se repetiria, ter um ano repleto de escaladas!
 
Nem eu e nem meus amigos, Vini, Paulinha e Greissy pudemos beber muito naquela noite negra recheada de estrelas no céu. O motivo é que estávamos nos aclimatando para escalar 3 montanhas andinas em uma expedição cheia de significados: Escalamos o Bonete Chico, que no alto de seus 6759 metros é quarta montanha mais alta dos Andes e nunca havia sido escalada por brasileiros. Ela era a montanha mais alta da cordilheira ainda inédita para montanhistas de nosso país.
 
A expedição, no entanto, não limitou apenas a escalar o Bonete. Escalamos também o desconhecido Cerro Baboso de 6080 metros, que de tão isolado só havia sido conquistado, ou seja, escalado pela primeira vez, no ano de 2001 pela equipe do inglês John Biggar, que antes que a gente começasse a escalar tantas montanhas era a maior referência e o recordista de ascensões a montanhas acima dos 6 mil metros nos Andes. Não que estejamos competindo com ele, mas foi uma consequência de tanta dedicação à exploração das montanhas andinas.
 
Ao longo de minha história no montanhismo em 2016, várias vezes citarei montanhas pouco frequentadas. No entanto não dá para ignorar outro fato que verificamos na terceira montanha daquela viagem, o Veladero, de 6430 metros. No seu elevadíssimo cume encontramos uma ruína incaica composta por uma plataforma aplainada, o que demonstra que há 500 anos atrás muitas das montanhas que hoje achamos remotas eram bastante frequentadas.
 
Passei o mês inteiro de janeiro na Argentina e só não viajei mais na sequência, pois as sucessivas expedições que realizei com meu carro nos Andes (conta também a expedição exploratório de 2 meses que realizei no final de 2015), cobrou seu preço. Sem ter feito uma manutenção direito, deixei acumular problemas no carro e no carnaval ele acabou quebrando feio e nessa quase que eu acabei quebrando também. 
 
Tenho um acordo na loja AltaMontanha que eu não recebo quando viajo e por isso comecei o ano sem reservas. Com a quebra do carro fiquei zerado e não pude também trabalhar na expedição do Ojos del Salado, que seria uma forma de melhorar minhas finanças. Com o fim da temporada da Puna do Atacama, fiquei em Curitiba trabalhando até Julho, quando comecei uma série de novas viagens, desta vez para trabalhar e aproveitar a temporada da Bolívia e Peru.
 
Diferente das demais expedições, na Bolívia e Peru a facilidade no acesso às montanhas permite que a gente não precise ir de carro. Deixei o Conway (minha caminhonete), para o Jovani Blume dar um trato em sua oficina mecânica no Rio Grande do Sul e fui de avião à La Paz trabalhar em mais um tradicional curso de escalada e gelo e alta montanha que ministro junto com Maximo Kausch pelo GenteDeMontanha.
 
E eis que este ano a turma foi maravilhosa e o curso fluiu de maneira muito boa, com muita camaradagem e os alunos se desenvolvendo rapidamente. No ataque ao cume, que é fim do curso, liderei uma cordada com o Victor Vaz de Belo Horizonte, que é um estudante de medicina e o Luís, arquiteto de São Paulo. Fizemos cume logo após o nascer do sol, num dia espetacular onde quase todos alunos fizeram cume. Destaque para o Dr. Roberto Mendoza, que fez o curso de escalada em rocha comigo e também havia sido aluno no curso de gelo um ano antes. Também a Thaís Tovar do “Mochilando com Elas” do Espírio Santo. Ela estava na base da última parede da montanha quando me chamou no rádio perguntando se dava para chegar no cume. De princípio disse que não, mas vendo que isso motivou ela a escalar mais rápido, permiti que extrapolasse o horário e assim ele foi voando até o cume.
 
Ao término do curso de gelo, Maximo e eu pegamos um voo para Lima e de lá fomos até Huaraz de ônibus. Fazia 15 anos que eu não ia para o Peru e nunca tinha escalado na Cordilheira Blanca
 
Tive uma ótima impressão de Huaraz, que me pareceu ser uma Bolívia melhorada, com ótima gastronomia e bons preços. No horizonte da cidade se enxerga as montanhas nevadas e seus cumes pontiagudos e escarpados. A cordilheira Blanca é o oposto da Puna, onde o acesso às montanhas é extremamente difícil e perigoso e a escalada fácil. No Peru, a gente foi para as montanhas de táxi. Porém escala-las é algo bem complicado e técnico.
 
Neste ano de 2016 as condições das montanhas no Peru e na Bolívia não estavam nada favoráveis. O verão, que é a época de chuvas nestes países, foi mais seco que o normal e não houve acúmulo de neve nas montanhas. Na temporada de estiagem, que é a época boa para escalar, no meio do ano, havia muito gelo vítreo de má qualidade e penitentes, resultados do degelo.
 
Nossa primeira montanha na cordilheira Blanca foi o Tocllaraju de 6032 metros. Fizemos a aproximação pela belíssima quebrada de Ishinca e após estabelecermos um acampamento alto, realizamos o ataque ao cume saindo de madrugada. A escalada passou por diversos trechos técnicos com paredes mais inclinadas que estava mais difícil devido ao gelo de má qualidade. Isso fez que nossa ascensão se tornasse mais lenta. Chegamos na base da última parede relativamente tarde e após um trecho confuso e técnico chegamos ao topo do cogumelo de gelo. Dali até o cume a gente teve que atravessar uma greta muito grande para enfim chegar no cume e ter uma vista privilegiada de outras montanhas da região.
 
Após esta montanha, fomos ao Nevado Copa de 6188 metros. Porém lá chegamos bem baixo. O motivo disso foi uma estratégia errada de ter acampado muito baixo e achar que poderíamos ganhar altura rápido na madrugada, o que não aconteceu devido ao gelo ruim. No entanto até este fracasso serviu para aprender alguma coisa e voltamos para Huaraz no mesmo dia de táxi.
 
A última montanha do Peru foi o Chopicalqui, de 6357 metros. Lá acordamos mais cedo e tivemos o cuidado de acampar mais alto. Saímos de madrugada com o tempo fechado e fomos quase o tempo todo seguindo um guia peruano que levava dois clientes espanhóis. A escalada novamente foi técnica como a do Toclla. Uma ascensão exigente fisicamente e técnica também, com muitos rapeis na descida onde que tivemos que pôr em prática tudo o que ensinamos em nosso curso de gelo e usar equipamentos técnicos de escalada em gelo.
 
Com o fim de nosso tempo livre, regressei à Bolívia para ministrar outro curso de escalada em gelo, desta vez com uma turma mais restrita de apenas 3 pessoas. Maximo voltou ao Brasil e minha namorada Maria Tereza foi ao país andino me ajudar.
 
Foi um curso personalizado e por isso foi também os alunos tiveram melhor desempenho. Fizemos cume super rápido e a Maria, que tinha tentado sem sucesso escalar o Huayna Potosi em 2014, conseguiu fazer cume este ano. Foi a quinta vez que cheguei ao cume desta montanha tão importante.
 
Me despedindo dos alunos prodígio Alex Bonifácio, Pieter Clays e Maurício Anchovas, comecei a guiar junto com o argentino Angel Armesto e os bolivianos Don Carlos e Alex Tinta uma expedição multinacional com brasileiros, um russo, uma norueguesa e uma belga em diversas montanhas da Bolívia.
 
A primeira que escalamos foi o Cerro Áustria, um caminho normal para quem está se aclimatando na Bolívia. De lá, fomos para o Tarija e Pequeno Alpamayo, que devido ao degelo acelerado estava muito difícil. Mesmo assim eu e o Alex colocamos 4 clientes no cume. 
 
Após esta primeira etapa, fomos para o Oeste do país para escalar mais dois cumes. O primeiro dele foi o Acontango com 6052 metros. Foi uma montanha especial, tanto pela belíssima vista que esta montanha tem para outros 6 mil andinos, como pelo fato que ali dois clientes e amigos chegaram a fazer seu cume de 6 mil metros número 4, a Tatiana Batalha, Joair Batalha e também minha mulher, a Maria Tereza, que sozinha, dois dias mais tarde, escalaria também o Parinacota de 6348 metros.
 
Após toda essa preparação, partimos todos para o Sajama, a montanha mais alta da Bolívia que mesmo com a dificuldade imposta pelo degelo, chegamos no cume num dia belíssimo de céu azul e pouco vento.
 
Este segundo semestre de 2016 foi bastante intenso. Tive pouco tempo no Brasil antes de mais uma vez partir para nova expedição, desta vez mais uma etapa do Projeto Andes 6k+. Após o Conway passar por um trato com o Jovani, preparamos também uma moto parecida com a que Maximo escalou sozinho nos Andes em 2012 e junto com o Troller do Jovani fomos junto da pesquisadora Suzie Imber da Inglaterra, do fotógrafo Gabriel Tarso e da Maria Tereza para o norte da Argentina. 
 
No caminho, no entanto, fomos assaltados e perdemos todo o dinheiro que a gente tinha conseguido com patrocinadores, o que era uma novidade pra gente. Tínhamos dinheiro para fazer uma viagem tranquilo, porém, como um karma, tivemos novamente que economizar e gastar dinheiro do nosso bolso.
 
Escalamos o Acay e Tuzgle em Salta para aclimatar e de lá cruzamos a Puna até Catamarca para fazer o primeiro 6 mil da viagem, o Antofalla de 6440 metros, que eu há havia escalado em 2012 com o Waldemar Niclevicz. Para mim, no entanto, foi um prazer pois tive o privilégio de fazer o cume pela segunda vez e ainda levar a Maria até lá ver as ruínas incas que existe lá em cima.
 
Ainda fiz mais duas montanhas com a Maria Tereza, o Vulcão Vallecitos de 6170 metros e o Colorados de 6080. Estas são duas das mais remotas montanhas dos Andes e apesar de fáceis, deve ter tido menos de 5 expedições na história para ir até lá. Do cume delas, para até onde a vista enxerga, não se vê nenhum sinal humano a não ser as pegadas de nossos carros que atravessou o deserto da Puna para chegar lá.
 
Com estas montanhas, a Maria chegou a seu nono 6 mil andino e passou a ser a mulher brasileira com mais montanhas desta altitude nos Andes no curriculum e também na quarta pessoa do Brasil. Mais cumes que muita gente famosa. O Colorados, no entanto, foi o último cume dela na expedição, pois ela teve que voltar para colocar o GenteDeMontanha em ordem.
 
Nós, no entanto, continuamos nossa viagem, escalando também o desconhecido Cerro El Condór, que de tão remoto só foi conquistado em 2003. Lá apenas eu e Maximo fizemos cume. Não sei quantas pessoas já chegaram até o topo na história desta montanha, porém acredito que muito poucas dado a distância e a dificuldade da montanha.
 
Deixando o El Condór para trás, mudamos de paisagem para desta vez começar nossa série de ascensões nos Andes Centrais na Província de San Juan. Lá, escalamos o Cerro Majadita de 6280 metros, uma montanha também muito pouco frequentada e desconhecida. Nos Andes Centrais os carros têm um papel secundário, pois o acesso às montanhas se faz a pé, pelos vales profundos, o que faz das ascensões algo mais lento e difícil.
 
Ainda em San Juan, conseguimos uma permissão para escalar o Nevado El Toro, uma montanha que pelo lado chileno tem a aproximação mais distante dos Andes, 100km. Pela Argentina a gente economiza 85 km utilizando uma estrada particular pertencente à uma mineradora de ouro.
 
Foi um tanto que demorado conseguir esta permissão, mas com ela em mãos conseguimos em fim chegar até a base da montanha de 6168 metros, famosa por em seu cume ter sido encontrado uma múmia inca. Foi uma ascensão difícil até o topo por conta da inclinação das vertentes da montanha e o excesso de neve que nos fazia afundar até os joelhos, mas enfim conseguimos chegar no cume, o que não acontecia desde o ano de 2009.
 
Deixando a província de San Juan para trás, fomos para Santiago do Chile e de lá até a montanha que foi a mais fácil da expedição, o Cerro Marmolejo de 6108 metros. Apesar dos chilenos chamarem ela de “muy muy lejos” (muito muito distante), o Marmolejo foi fácil por que lá tem até trilha e locais delimitados de acampamento. Foi a única montanha da expedição onde encontramos gente (3 montanhistas chilenos) e todos fizemos cume, aliás um belíssimo cume numa belíssima montanha que eu achei fantástica e tenho vontade de repetir.
 
Após esta escalada, tanto eu quanto o Jovani tínhamos que voltar. Ele precisava começar a trabalhar em sua oficina no Rio Grande do Sul e eu dar uma força na loja. Passei o réveillon de 2016 para 17 em Roca Sales, no vale do Taquari, numa animada festa de colonos alemães e junto com a Maria que veio de Curitiba para me ver.
 
Após 4 anos, passei meu primeiro réveillon longe das montanhas e parece que 2017 vai ser um ano de outro ciclo. Tive anos maravilhosos nas montanhas, mas chega um tempo em que a vida cobra de outra maneira. Ou seja, precisamos de dinheiro para poder viver.
 
Neste ano me dedicarei muito mais à loja do que às expedições. No entanto, já em Curitiba trabalhando, recebi uma informação do Rodrigo Granzotto Peron, que faz uma estatística do montanhismo num trabalho parecido com o que a Miss Hawley faz no Himalaia. Ele me disse que sou quarto montanhista que mais escalou montanhas de 6 mil metros nos Andes. Tudo isso com muito pouco apoio, escalando por conta própria, muitas vezes tendo que trabalhar para pagar os gastos das expedições e sem os holofotes da mídia.  
 
Em 2016 escalei 20 montanhas nos Andes e cheguei a 85 cumes andinos, destes 46 em montanhas acima de 6 mil metros diferentes um feito superado apenas por outros três montanhistas no mundo. Ainda de acordo com Rodrigo Granzotto Peron, a maioria destas montanhas eu fui o primeiro brasileiro a escalar, o que me faz ser atualmente o brasileiro com o maior número de ascensões pioneiras nos Andes.
 
Apesar de tudo isso não significar nada (pois no fim as contas vem igual a todos), me enchem de orgulho. Um bom 2017 a todos!
 



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