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Um pouco de história

O Desflorestamento


Colunista:

Nas colunas anteriores, comentei sobre extinções de espécies individuais, terrestres ou marítimas. Mas não é muito viável aplicar isso à flora - não tenho tanta informação sobre linhagens específicas (se é que conheço algo) e nem acho que despertaria o interesse dos leitores (se é que vocês existem). Então, escolhi falar da flora como um todo e, dado que felizmente não está ainda desaparecida, escrevo a seguir apenas sobre seus riscos de extinção.

O Carbonífero foi um período geológico há 360 milhões de anos, quando grandes florestas e pântanos se formaram, cobrindo quase toda a terra. Exuberantes matas tropicais cresceram nas bordas de mares interiores, com plantas que atingiam 40 m de altura. Samambaias rasteiras e arbustivas eram comuns, bem como as primeiras coníferas, como por exemplo pinheiros e sequoias. 
 
Estas formações floresceram na Euroamérica, quando essas duas regiões estavam ligadas. Foi neste período que as placas continentais de Gondwana e Laurásia colidiram, formando o supercontinente Pangeia. As terras no seu interior não eram mais alcançadas pelos ventos úmidos dos mares e viraram desertos colossais (como ocorre hoje com a Austrália).
 
Muitas das florestas foram sendo reduzidas a savanas, mas as coníferas e as palmáceas sobreviveram mesmo assim. O mundo tornou-se mais pobre e árido, e toda a opulência vegetal do Carbonífero foi perdida.
 
Faço esta introdução para ilustrar a transformação de grandes florestas nativas no passado, a exemplo do que ocorre hoje, porém por outras razões. As florestas preservam as águas, impedem a erosão, produzem o oxigênio, reciclam o gás carbônico e regulam o clima - sem elas seria impossível nosso equilíbrio ecológico. Além disso, as florestas (em especial, as tropicais) são os ecossistemas mais ricos da terra, junto com os corais.
    
Elas são compostas não apenas por árvores, são sistemas complexos, com trepadeiras e epífitas como bromélias e orquídeas, com fungos e vermes, com flores e insetos e toda uma variedade de répteis, aves e mamíferos que delas se alimenta ou nelas se refugia. Mas o mundo vem sofrendo por séculos com o desflorestamento sistemático.  Apesar de as florestas ainda cobrirem 30% da terra, é possível que metade delas já tenha desaparecido.
 
O Brasil é o maior desflorestador do planeta, junto principalmente com o Canadá e a Indonésia. As causas são principalmente três: o avanço da agropecuária, a retirada de madeira e a urbanização crescente. Mas existem muitos outros vilões – desde as guerras e as migrações, a existência de incêndios e de minerações, a caça e a coleta predatórias, até a introdução de espécies invasoras e a fragmentação dos remanescentes florestais. 
 
Algumas tabelas que acompanham este texto ilustram o assunto. Gostaria de comentar que sete das dez florestas mais desmatadas mundialmente (ver quadro) são tropicais, pela simples razão de que as temperadas sucumbiram muito antes – já na Idade Média, metade das matas europeias tinha desaparecido. 
 
Você pode conferir na tabela ao lado uma perda na Mata Atlântica durante as últimas três décadas de quase 2 milhões de ha, igual a um enorme parque brasileiro. Das florestas de araucárias do sul, restam menos de 2%. A Amazônia, cujos 4 milhões de km² a tornam a maior floresta tropical do planeta, teve destruídos 1/6 de sua cobertura, ou inacreditáveis 70 milhões de ha.
 
Uma das mais terríveis realidades de empobrecimento ecológico é a desertificação. Os desertos ocupam impressionantes 20% da superfície terrestre. Algumas vezes a desertificação não resultou da ação humana. Por exemplo, até apenas 10 mil anos atrás o Saara era recoberto por uma floresta tropical. Então, uma mudança no eixo de rotação da terra alterou violentamente o clima local, tornando-o árido e trocando as plantas pela areia. 
 
Mas são vários e tristes os exemplos de ação predatória do homem. A agricultura começou no chamado Crescente Fértil, à volta da Mesopotâmia. O esgotamento dos recursos naturais desertificou o que chamamos de Oriente Médio. A Austrália é hoje um grande deserto, assim como a região subsaariana do Sahel. O Deserto de Gobi contribui para a desertificação da China, que não deverá ser salva pelos seus projetos de reflorestamento. O sul da Ásia e o sudoeste americano são outros exemplos.      
 
Quero comentar que o desflorestamento é uma verificação quantitativa, medida pela área florestal perdida. Mas existe ainda a degradação das florestas, que talvez seja ainda mais cruel, por ser pouco mensurável. É um dano qualitativo, a perda da biodiversidade, que esvazia o ambiente ao romper as cadeias da natureza e contribuir para arruinar o solo, a água, o clima e a vida.
 
Quando uma área é desmatada, resulta uma borda, ou seja, uma linha de separação entre o fragmento da floresta e a área agora ocupada com pasto, plantação ou moradia. As condições nesta borda são diferentes daquelas no interior da mata: há mais vento, luz e calor, menos umidade, distintas quantidade e variedade de plantas e uma exposição a uma dada orientação, por exemplo norte ou sul, que antes não havia, dentro da cobertura florestal.
 
Os efeitos de borda são nocivos e cumulativos, pela dificuldade de adaptação das plantas, invasão de parasitas e exposição a agrotóxicos – e também pela resultante escassez dos mananciais e erosão dos solos. As vegetações de borda acabam perecendo, acarretando alteração em toda a cadeia vegetal e animal – estes últimos costumam definhar, fugir ou morrer. 
 
Os efeitos são tão mais nocivos quanto menores são os fragmentos e maiores são as áreas desmatadas. Este processo em cascata reduz drasticamente a biodiversidade. E numa relação bem mais do que linear com os percentuais desflorestados. É por isto que se procuram criar corredores biológicos, para conexão entre áreas fragmentadas, evitando o seu isolamento e empobrecimento. E aumentar as áreas protegidas, através dos parques naturais. 
 
Não sei se eles vão nos salvar, junto com tantas leis, estudos, programas e tecnologias. Mas, se as florestas perecerem, todos nós morreremos juntos.  
 



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