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Chapada Gaúcha MG

O Maior Cânion do Brasil?


Colunista:

Estou viajando pelo norte de Minas: atravessei a região das cavernas do Peruaçu e percorri num rumo oeste uma infindável estrada de terra no território de Pandeiros. Enfim deixei a região calcária para encontrar o usual arenito avermelhado em Serra das Araras. Este é um pequeno distrito de Chapada Gaúcha, um município mineiro fundado décadas atrás por sulistas plantadores de soja.

Estou entre estas duas vilas e deixo a estrada à direita, descendo para a localidade de Buracos. É um visual novo, pois pela primeira vez me aproximo da altitude de 900m do chapadão dos gaúchos. Enxergo à distância um grande vão nos paredões avermelhados. Foi um curso de nome humilde e comum que o escavou: o Rio Pardo.
 
É este rio que limita nesta vasta região os territórios de calcário a leste e de arenito a oeste. Não se confunde com o curso próximo de mesmo nome, que atravessa Minas e Bahia e ao encontrar o mar, colore as suas águas de creme. O Rio Pardo de que falo é outro e mais modesto: nasce exatamente nesta região e logo deságua no São Francisco, pouco além de 100 km depois.
 
Do ponto em que observo o cânion, estou a cerca de 6 km da cidade de Chapada Gaúcha. Mas ele se afasta na direção oposta. Percorro a pé sua calha num trecho entre Buracos e Buraquinhos, outra comunidade com casas esparsas no meio de muito verde. Elson Barbosa, que me acompanha, diz que são 30 a 28 km entre elas.
 
Subo uma colina abrupta e, do alto de Buraquinhos, enxergo o curso do cânion na direção de Barro Vermelho, 14 km depois. Elson diz que a partir de algum ponto ele se dilui num vale largo. O vale irá se ampliando, perdendo a feição de uma garganta. É curioso como, ao longo de ¾ do cânion, o curso se mantém exatamente oeste-leste, até que o rio desvie rumo sul, para mergulhar no São Francisco.
 
É um panorama bonito, com o contraste entre os paredões vermelhos e o vale verdejante. Apesar de bem definido, não se apresenta, como você viu, na forma de um cânion perfeitamente contínuo. A razão são os abatimentos causados pelos córregos afluentes. Eles interrompem a parede do cânion, ao também escavarem o frágil arenito.  
 
A altura entre o fundo e a crista deve se aproximar de 150 m. Estou no outono e o rio está raso, correndo preguiçoso por areias fofas. É um cânion largo, sem a impressão de confinamento – talvez ½ km nos trechos mais estreitos e o dobro disto nos mais largos. Mas tem de fato a forma de uma garganta, como me confirma um amigo geógrafo que consultei logo em seguida.
 
Isto significa que atravessá-lo é uma prática inversa à dos cânions do Sul do Brasil. Lá as campinas do alto são geralmente planas e cobertas por gramíneas, sendo facilmente percorridas; ao contrário, o interior é repleto de pedras dispersas, escorregadias e irregulares. Já o manso Rio Pardo favorece a travessia por baixo, enquanto os paredões descontínuos e florestados tornam muito difícil o percurso pelo alto.    
 
A rigor, o cânion não é notável, a não ser por sua beleza tranquila. E pelo fato surpreendente de que, se estou certo, seria o mais longo cânion brasileiro. Nunca soube de nenhum maior do que os 32 km do Guartelá no Paraná. Mas ele teria mais de 40 km, espalhados por um trajeto sinuoso que disfarça toda essa grandeza - do mesmo jeito gentil de sua natureza acolhedora.
 



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