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Nos Andes

Argentinos abrem nova rota ao Pissis

Quatro argentinos abriram uma rota através do glaciar da pouca conhecida e inacessível face oeste do vulcão Pissis, a terceira montanha mais alta dos Andes, localizada na desértica região do Atacama.

Fonte:

A face oeste do Nevado Pissis é sem dúvida uma das mais selvagens dos Andes do Atacama. Como não há estradas ou cidades que possibilitem sua admiração, ela está relativamente oculta aos olhos dos menos ousados. Lá se abriga o Glaciar Oeste daquela montanha, sendo este o maior glaciar das zonas desérticas do mundo, e suas encostas jamais haviam sido superadas por alguma expedição até o topo.

Mas o desafio não está apenas na escalada. Chegar até a base da face Oeste do Pissis já é considerado uma grande aventura, pois requer mais de 200 quilômetros de viagem por rotas sem estrada alguma, onde é necessário cruzar diversos rios secos e grandes penhascos arenosos. Os vales que são necessários percorrer são tão grandes e estreitos que é impossível vê-los integralmente de baixo, sendo provável apenas do alto de alguma montanha vizinha.

E pela somatória de todas estas características é que esta face da montanha torna-se uma das mais inóspitas e selvagens desta parte dos Andes e se converte em um grande objetivo para qualquer montanhista deste século que possua ânsia por exploração.

O Vulcão Pissis é a terceira montanha mais alta dos Andes e possui 6795 metros sobre o nível do mar. Está localizado totalmente em território argentino, bem na divisa entre as pronvíncias de La Rioja e Catamarca.

Seu acesso normal é através do glaciar de Los Argentinos e a também conhecida face sul, através do glaciar de Los Italianos. Face que possibilitou a primeira escalada ao Pissi, ocorrida em 1937, por montanhistas poloneses. Depois disso muitos e muitos anos se passaram até que, em 1985, novamente pela face sul, outra vez uma expedição pisasse em seu cume.

Foi a partir de 1998, com a abertura da rota normal e a publicação de cartografia argentina que, num erro, o assegurou como a segunda maior montanha das Américas, o Pissis se converteu num objetivo mais popular entre os alpinistas.

Mas Guilhermo Almaraz resolveu mudar a história das ascensões àquela montanha. Sonhava com a conquista da face oeste desde 2006 e, foi ao tomar conhecimento de um depoimento da escaladora mexicana María Del Carmen Peña Monroy, que em 1994, após uma forte tormenta, acabou chegando sem querer a face oeste da montanha, desistindo da escalada, que Guilhermo notou que seu sonho poderia se tornar realidade.

Naquele mesmo ano, em setembro, participou de uma expedição que tentaria a primeira escalada invernal à montanha e decidiu tentar pela primeira vez seguir pela face oeste. Já na região do glaciar, açoitado por violentos temporais, decidiu abandonar a tentativa pela oeste e continuar por uma rota mais direta.

Realizou uma nova tentativa em 2007, mas acabou com o 4x4 quebrado e a mais de 60 quilômetros da base da face oeste, sem possibilidade de continuar.

Finalmente em março de 2009, e após duas noites a 3600 e 4000 metros, conseguiu estabelecer um acampamento a 4.600 metros, na região do vale do rio Salado.

O grupo era formado por três escaladores da cidade de Mar Del Plata: Eduardo Namur, Daniel Pontín e Guilhermo Almaraz, e contava ainda com Nicolás Pantaleón, de Salta. Após este primeiro acampamento, demoraram ainda mais alguns dias com a 4x4 para que conseguissem alcançar a base da face sul do Pissis, que fora visitada muito poucas vezes por escaladores.

Confira abaixo o depoimento de Guilhermo Almaraz sobre a escalada da face oeste do vulcão Pissis:

Foi num dia muito longo de caminhada no deserto que conseguimos chegar ao vale localizado a oeste do Pissis. Já nos era possível ver o glaciar oeste da montanha, bem ao final das ladeiras do vale onde estabelecemos o acampamento Oeste. Ali, a 5 mil metros, permanecemos duas noites para que aclimatássemos.

A vista de onde estávamos era preciosa. O horizonte era dominado pelo vulcão Três Picos e seus quase seis mil metros. Ao sul víamos o Altar do Pissis e seus cumes de 6.200 metros!

Continuamos a escalada por um vale recheado de penitentes e após 5 horas de marcha e 600 metros de desnível vencidos, estabelecemos o acampamento 1, a 5.600 metros, bem ao lado do glaciar.

Nesta noite fomos agraciados por uma bela nevasca, mudando toda a paisagem, e transformando toda a parte escura da montanha em uma face branca e brilhante.

No outro dia cruzamos o imenso glaciar, de mais de sete quilômetros de largura. O esforço foi muito grande, pois a neve acumulada transformava cada passo em dois, e ao final ganhamos muito pouco de altura. Acampamos ao entardecer, a 5950 metros.

Às 6 horas da manhã partimos pela ladeira nevada, e após duas horas chegamos a aresta principal. Por ela avançamos por muita neve até chegarmos pelo oeste ao topo do cume Gendameria Nacional, de 6675 metros.

Dalí continuamos pelo colo que o separava do cume principal e após mais uma hora de caminhada, exatamente às 14 horas do dia 14 de março de 2009, finalizamos nossa rota pela face oeste ao ponto mais alto do Vulcão Pissis!

Por Guilhermo Almaraz

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