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Ricardo - Rato - Baltazar na Patagônia

Primeiro round com o Cerro Torre

O escalador Ricardo Rato Baltazar manda suas primeiras notícias de Chaltén em 2012. Desta vez, ele voltou sua atenção para o mítico Cerro Torre, um dos cumes mais conhecidos e almejados por montanhistas de todo o mundo. Ele e o argentino Gastón Carlos fizeram uma primeira tentativa na tradicional Via do Compressor (1100 m, 5.10+, A1+), na crista sudeste, tendo sido repelidos por uma virada inesperada no tempo, que contrariou as previsões metereológicas.

Fonte:

Texto: Ricardo Baltazar                               Introdução: Eduardo Prestes

O Cerro Torre é uma montanha famosa não só por sua forma desafiadora, mas também pelas histórias e polêmicas que tiveram como palco suas paredes vertiginosas. No início, recebeu a alcunha de "montanha impossível". Em 1958, o italiano Cesare Maestri fez uma séria tentativa na faces leste e norte, juntamente com Cesarino Fava e Toni Egger, a qual custou a vida deste último. Apesar das alegações de Maestri de ter alcançado o cume com Egger, hoje em dia é consenso entre aqueles que estudaram o caso que o ponto mais alto atingido pela equipe foi um platô a cerca de 400 metros do glaciar. Depois de ser saudado como autor de um dos maiores feitos da história do montanhismo, Maestri pouco a pouco acabou envolvido em uma crescente aura de descrédito, até que em 1968 a revista inglesa “Mountain” referiu-se ao Cerro Torre como um cume ainda virgem. Desafiado em sua honra, Maestri retorna à Patagônia em 1970, para estabelecer a Via do Compressor, ao longo da crista sudeste da montanha. A escalada começa no inverno e acaba somente em janeiro do ano seguinte. Com o apoio de uma equipe e de uma furadeira acionada por um compressor de ar, Maestri colocou mais de 350 grampos na montanha, subindo até cerca de 60 metros do topo, onde deu por encerrada a empreitada, refugando as cordadas finais, em gelo. Se no início da via há um uso até criterioso das proteções fixas, nas partes altas fica evidente a crescente obstinação de Maestri em alcançar o cume a qualquer custo, com longos trechos de artificial fixo.

A primeira ascensão ao cume do Cerro Torre aconteceria apenas em 1974, com a Via Ragni, nas paredes geladas da face oeste. Em 1978, um trio de americanos repete a Via do Compressor, completando em seguida a escalada até o cume. O incrível drama de Maestri foi sendo revelado aos poucos, na medida em que mais escaladores percorriam as paredes da montanha. Mesmo depois de esforços descomunais, o cenário mais provável é que o italiano nunca tenha alcançado o cogumelo de gelo, que marca o cume verdadeiro do Cerro Torre.

Em justiça a Maestri, no entanto, é preciso que se diga que a maior parte da Via do Compressor consiste em escalada de considerável dificuldade técnica e alta qualidade, em agarras naturais. Apesar dos grampos, trata-se de uma escalada comprometida e muito além do trivial. É a via mais frequentada da montanha e o único acesso ao cume a partir das faces sul e leste. Todas as demais vias nestes setores, em algum momento, convergem para os grampos de Maestri no headwall. Até aqui, o único outro acesso existente ao cume é a Via Ragni, na face oeste. Há alguns anos, um grupo de escaladores americanos sugeriu a retirada dos grampos da Via do Compressor, o que causou uma reação negativa por parte de muitos escaladores, especialmente argentinos. Mesmo estando claro de que é um exemplo a não ser repetido, o fato é que a via acabou incorporada à história do montanhismo, sendo um dos objetivos mais buscados a cada temporada na Patagônia.

Na madrugada do dia 06/01, Rato e Gaston cruzaram o traiçoeiro glaciar na base da face leste, até o início da Via do Compressor. O primeiro trecho, com cerca de 300 metros e composto por 5 cordadas de escalada mixta (gelo e rocha), até o Colo da Paciência, no chamado "Ombro do Torre", foi superado ainda à noite. Deste ponto, a escalada segue por mais 800 metros na rocha limpa da crista sudeste. A dupla ainda escalou cerca de 3 cordadas acima do Ombro, quando então o tempo deteriorou. Com cerca de 25 cordadas ainda por fazer, não restou outra opção exceto a retirada, à espera de uma nova janela de bom tempo, longa o suficiente para uma escalada desta magnitude. No seu estilo inconfundível, Rato comenta esta sua primeira investida nas encostas legendárias do Cerro Torre.  

Buenas !

Pues, tivemos um primeiro round com o monstrengo, e o resultado não foi dos melhores: Cerro Torre 1, Maloqueros 0 !!!

Carajo loco, se eu pudesse, eu matava um por aqui ou fazia um chá com o cogumelo do cume do mardito !!! Primeira derrota ! A pancadaria foi tanta lá no Torre que eu nem tirei foto alguma ! Mas não dá nada, eu volto, quem sabe ainda tiro umas fotos lá de cima ! O clima nos pregou uma peça, estávamos preparando o bote na Via do Compressor, mas aí, no momento crítico, descambou água. maluco !!! Era para ser uma boa janela, mas a previsão furou. Saiu um monte de escaladores para todos os lados e acho que ninguém fez cume.

Antes disso, tivemos Natal e Ano Novo, foi tudo tranquilo: festejos, bebidas, comilanças, whisky, chicas, sexo, delírios e medo do tempo melhorar de repente, a coisa foi mais ou menos nesta ordem. Chaltén anda abarrotada de gente, não param de chegar mortais de todos os lados da esfera. Acho que a grande queimada que rolou no Torres del Paine acabou trazendo um pessoal a mais para cá. Parece que a coisa foi grande, uma boa parte do Parque queimou, algo como uns 17.000 hectares, uma pena !

Há vários brasileiros em Chaltén. Cruzei com uns paranenses, o Irivan Burda e o Bonga, troquei uma idéia com eles, são sossegados e têm bastante experiência. Fizeram um assado no camping deles, me convidaram e eu fui, levei um vinho barato meio cabuloso que comprei a preço de banana numa birosca, tomamos um foguete e conversamos até tarde. Uma cordada de brasileiros (de Minas Gerais) subiu a Aguja de la S na quinta-feira, dia 05/01, antes de entrar a chuva.

Os italianos, para quem porteamos umas cargas lá para a Face Oeste da Torre Egger, baixaram ontem por aqui, no caminho para Calafate. Eles vão comprar uma escada de alumínio, para facilitar a travessia de uma rimaia enorme que impede o acesso até a parede. Parece que amanhã os caras já voltam lá para aqueles cafundó que é o Círculo dos Altares, atrás das montanhas e no meio do gelo, o projeto deles está meio complicado. Tomara que eles consigam, são uns caras obstinados e falaram até em deixar algum equipamento para a gente, se conseguirem completar a via.

Mas entonces, o pelotudo da vez é o Cerro Torre !

Estávamos de bobeira em Chaltén quando pintou a previsão: sexta-feira de tempo bom, uma madrugada melhor ainda e um sabadão ensolarado e quente. Parecia ser a condição perfeita para atacar o cabeçudo !  Foi isso que eu e meu amigo argentino Gastón pensamos, assim como todos que se arrancaram nesta malfadada brecha de merda !!

Arrumamos as coisas na quinta, dia 05, e fizemos a já costumeira caminhada até o Vale da Torre, desta vez em direção ao bivaque Noruegos. Descansamos um pouco e lá pela uma da manhã de sexta, saímos em direção da crista sudeste do Torre. O tempo estava bom, com céu estrelado, e não fazia frio. Isso às vezes é meio preocupante, porque o glaciar derrete igual a um sorvete ao sol, e aí a coisa vira um ninho de ratos, todo bagunçado e instável. De noite, na travessia do glaciar, acabamos nos perdendo em alguns momentos e foi meio sinistro.

Depois de algumas cabeçadas, achamos a base e iniciamos a escalada até o ombro da Via do Compressor, ainda no meio da madrugada. O primeiro terço da subida até o ombro tem vários escalões verticais em gelo, é uma escalada mixta, tivemos que assegurar com parafusos de gelo. Depois nos metemos num labirinto de fauno na alta madrugada patagônica, umas formações estranhas, estava difícil seguir a linha da via, mas não paramos para nada e pau na máquina. Lá pelas 7 da manhã, amanhecendo, havíamos ganho o ombro do Torre, junto com mais 2 cordadas gringas. Nem respiramos e já nos atracamos nos largos de rocha. Trocamos as botas, crampons e piquetas pela sapatilha e magnésio, voltei ao meu ambiente e o pau pegou valendo.

Escalamos bem rápido 3 cordadas na rocha, meio embolados com uns noruegueses. Estava um tanto absorvido pela escalada, quando de repente senti uma escorrida gelada na paleta e percebi que já estava todo empapado por dentro da roupa. Maluco, a parede estava muito molhada e havia começado a chover. O vento também estava acelerando.  Nisso, surgem outros dois gringos rapelando, eles passam do meu lado dando risada e dizendo "this is putagonia !", o que é um mantra por aqui. Eles deram a entender que para cima as condições estavam ainda piores. Como eles não entendiam nada mesmo, e eu já estava com um pouco de raiva por pressentir um desfecho inglório para nossa investida, mandei um "que merda isso, seu gringo azarado pau no cu dos inferno", em bom brasileirês, com aquele sorriso no rosto, o cara riu também e deve ter dito uma coisa pior ainda na língua dele. Ventão na orelha, cueca molhada, a gente se diverte do jeito que dá.

Com as condições piorando, não tive outra opção senão descer até onde estava o Gaston, ele estava meio entrincheirado numa saliência da rocha, batendo queixo. Deixamos as cordas passadas na ancoragem mais acima, e aguentamos um tempo ali, na esperança de que o cabeção estivesse pregando uma peça na gente. Bastaram umas poucas horas para nos convencer que a porra do NOAA tinha errado feio a previsão, algum nó cego lá no escritório bebeu ou fumou alguma coisa forte e interpretou mal os mapas climáticos. Foi difícil desistir, estávamos empenhados na investida e sentindo que poderíamos ir ao cume, se o tempo ajudasse. Mas a chuva não deu trégua e não sobrou outra saída exceto tocar para baixo.
 
E assim fomos, de rapel em rapel, sinistrêra, umas paradas de merda, maluco, é um quilombo a descida do ombro, tem lixo acumulado de gerações de tentativas de escalar o Torre. São cordas fixas por todos os lados, acho que desde o tempo do Maestri até o David Lama. Sendo um pouco demente, dá até para jumarear tudo até o ombro, o problema é que às vezes essas cordas estão só por um fio mais arriba, prontas para partir com o primeiro puxão, é como um campo minado, escolheu a corda premiada, já era. Mesmo assim, no sufoco e na loucura, voltando acabado da parede, acho que muita gente deve ter descido ou se agarrado nestas cordas.

Chegamos de volta a Noruegos lá pelas 2 da tarde, debaixo de um caldo grosso. Nos metemos dentro dos sacos de dormir, do jeito que chegamos, encharcados, e nem comemos nada. Choveu e ventou todo o resto do dia. Ficamos batendo queixo naquelas covas malditas do Noruegos, chão inclinado, pingando água na cabeça e sonhando com comida quente e roupa seca. Só fumamos uns cigarros e tomamos uns tragos de um whisky duvidoso que o Gaston trouxe. Choveu sem parar a noite inteira também. Desânimo total. Eu tentei dormir, já que a noite anterior a gente havia virado, mas foi complicado. Enfim, no final da manhã de sábado abriu um sol de rachar o côco, esquentou, e nós ali, abatidos na trincheira. O Gaston ainda passou um rádio para os guarda-parques, perguntando sobre o clima. Eles disseram então que o sábado ia ser bom, mas que no domingo já voltava a chover de novo. Aí bastou um olhar na cara do outro e começamos a secar e arrumar as coisas, tchau mesmo ! 

Pues, a primeira investida foi mais ou menos isso. Deixamos quase tudo lá no Vale do Torre e viemos a Chaltén, nos recompor um pouco. Mas já estamos programando mais um pega no bichano, parece que está vindo mais uma janela na próxima semana. Estou seguindo a previsão, espero que eles acertem desta vez.

Para falar a verdade, já estou meio que nas últimas das Rayovac, a energia vai baixando na medida em que passam os meses. Agora, tem que ser um tiro certeiro, para não se desgastar à toa. Queria resolver esse entrevero para depois pensar nos rumos da expedição. Por enquanto, sigo nessa vida, largadão, comendo rocha e me afogando em chuva, com um olho no céu e o outro nos cascateiros do NOAA.  

Bamooooooo ! Nóis reclama, mas tâmo firme no aguante ! Sangue nozóio e zás !

Ricardo "Rato" Baltazar


Notas:

1. A Via do Compressor foi estabelecida em 1970 por C.Maestri, C.Claus, E.Alimonta, P.Vidi, R.Valentini e C.Fava.
2. As ascensões de Maestri no Cerro Torre foram alvo de inúmeras matérias, artigos, livros e até mesmo filmes. Em 2004, o montanhista argentino Rolo Garibotti, profundo conhecedor das montanhas de Chaltén, escreveu o artigo “A Mountain Unveiled”, onde afirma que a primeira ascensão completa do Cerro Torre foi a Via Ragni, em 1974, estabelecida por uma equipe de 12 italianos liderados por Casimiro Ferrari. O artigo comemorava os 30 anos desta ascensão.
3. Sobre as características da Via do Compressor, um relato interessante está no livro “Enduring Patagônia”, escrito por Gregory Crouch. Este americano freqüentou a Patagônia por seguidas temporadas. Em umas delas, conseguiu escalar a Via do Compressor apenas na 14ª tentativa, após 2 meses de esforços e de luta contra as traiçoeiras condições climáticas.

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