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Como melhorar a escalada no Brasil?

Inglês promove pesquisa sobre a escalada brasileira

O escalador inglês, residente em Porto Alegre, Andrew Sykes, está realizando uma pesquisa com o objetivo de melhorar a escalada brasileira. Tal pesquisa já foi realizada na Grã Bretanha no passado. Andrew diz que a organização da escalada no Brasil se assemelha com a de seu país há 25 anos e afirma que apesar de ter vários aspectos positivos, a desunião dos escaladores por aqui e a falta de atitudes coletivas prejudicam o esporte.

Fonte:

Como você começou na escalada?
Eu sempre gostei de escaladas, desde criança, e comecei a escalar em pedra aos 11 anos, nos escoteiros. Aos 17, comecei a escalar com mais dedicação, num muro a uma hora de distância da minha cidade, Huddersfield, no norte da Inglaterra. Naquela época, 1987, só havia dois muros de escalada a menos de 100 quilômetros da minha casa. Felizmente, na minha região (Yorkshire) há muitas paredes naturais e boulders, alguns a não mais de 15 minutos de carro. Primeiro comecei com escalada esportiva e logo estava escalando 7ª francês, mas uma queda mais séria, ao chão, me fez parar a esportiva e me concentrar em bouldering e em escalada tradicional. Só voltei a fazer escalada esportiva uns 15 anos depois do acidente. Na verdade, a mudança foi boa: bouldering é uma modalidade que se mostrou perfeita ao meu tipo físico e, na época em que comecei, ela também despontava na Grã-Bretanha. Assim, tive a sorte de conhecer e escalar com alguns dos melhores escaladores do país na época. Ao longo destes anos em que tenho escalado, o número de muros na Grã-Bretanha cresceu enormemente, assim como o número de escaladores. Eu sou formado em engenharia, mas trabalhei como instrutor de escalada enquanto estava na universidade. Também fui um dos primeiros a confeccionar e comercializar fingerboards de madeira na Inglaterra. Cheguei a produzir e a vender também no Brasil.

Porque saiu da Inglaterra e porque veio parar no Brasil, onde mora atualmente?
Casei com uma brasileira e venho ao Brasil há dez anos. Há quatro anos, com o nascimento de nossa filha, resolvemos nos mudar para Porto Alegre, onde moramos até hoje.

O que você acha da qualidade dos locais de escalada no Brasil?
Nos lugares onde tenho escalado no Brasil as vias são de alta qualidade e muito diversas. Mas, como engenheiro, eu me preocupo muito com a idade e a qualidade de algumas chapeletas. Como já sofri um acidente sério, na Inglaterra, me preocupo muito com a segurança. Um velho escalador uma vez me disse: “there are old climbers and there are bold climbers but there are no old bold climbers” (algo como “existem escaladores velhos e existem escaladores ousados, mas não existem velhos escaladores ousados”). É sempre bom lembrar. Pessoalmente, eu acredito que na escalada esportiva não deveria ser possível atingir o chão numa queda e, se você cair, não deveria se chocar contra obstáculos, como árvores e bordas das rochas. Quase sempre, na minha experiência, escaladas tradicionais são mais seguras que escaladas esportivas se você souber como usar bem o equipamento, mesmo que, na verdade, devesse ser o contrário.

Qual você acha ser a maior diferença entre a escalada praticada no Brasil e na Europa? Você acha que o Brasil tem uma identidade própria na escalada?
Acho que o Brasil é um lugar incrível para escalar. É difícil comparar com outros países, porque é do tamanho de um continente. Fazendo uma comparação rápida, as vias mais difíceis no Brasil estão no mesmo nível das mais difíceis na Europa. Em relação à organização do esporte, o Brasil me lembra a Inglaterra 25 anos atrás. Há hoje, aqui, as mesmas discordâncias entre grupos e associações de escalada que havia na Inglaterra naquela época. Mas este é um ótimo momento para ser escalador no Brasil. Há muitas coisas para serem feitas e lugares para serem descobertos.
Os escaladores são pessoas muito diversas e me parece que, onde quer que você vá, há sempre escaladores acolhedores. Na primeira vez que vim ao Brasil, lembro que só precisei mandar alguns emails para achar parceiros de escalada. Fora daqui, não é sempre assim: por exemplo, vou para os EUA no mês que vem e ainda não consegui parceiros para escalar no Central Park de NY, onde existe uma grande comunidade de escaladores. A escalada brasileira tem sua própria personalidade, o que é ótimo. Se todo mundo fosse igual seria muito chato.

O que o Brasil tem que fazer para se despontar na escalada?
O Brasil tem alguns dos melhores escaladores que eu conheço, e os mais amigáveis também. Para avançar na escalada, me parece que deve haver mais conhecimento sobre segurança. Outra coisa é pensar coletivamente. Dou um exemplo: se a sua altura é 2 metros e você bota as chapeletas em uma via, você alcança longe para clipar, e a distância entre chapeletas parece menor. Se você é uma escaladora de 1m50cm seu alcance é pelo menos 50cm menor, mesmo que você seja uma ótima escaladora. A maioria dos escaladores que abre novas vias é experiente e tende a esquecer que os iniciantes tem “disco leg” (tremor involuntário na perna) quando estão tentando clipar. Assim, se você abre uma BR5, precisa pensar mais no escalador iniciante do que se abre uma BR11a. Quem faz escaladas mais difíceis e perigosas sabe no que está se metendo, quem faz as mais fáceis ainda está aprendendo.
 
Do que se trata sua pesquisa? Qual é o objetivo dela?
Este questionário é baseado num questionário britânico, do conselho britânico de montanhismo. Eu acho que, para avançar, a escalada brasileira tem que saber em que pé está. Eu tentei fazer um questionário que é completo, mas fácil de responder. E quanto mais pessoas responderem, mais precisos serão os resultados. Os resultados são analisados de modo a que se obtenham informações precisas e úteis. Por exemplo: a distribuição do nível de escalada no Brasil, o percentual de pessoas que escalam num determinado nível em todo o país. Além disso, a idéia é mostrar os pontos que ainda devem ser desenvolvidos para melhorar a situação da escalada no Brasil. Pessoalmente, eu gostaria de saber onde há oportunidades de trabalhar com escalada no Brasil. Eu confeccionei fingerboards de madeira durante muitos anos, comercializados na Inglaterra. No Brasil ainda não vejo um bom mercado para isso.
 
Pesquisa:

Para ter acesso à pesquisa, clique no link abaixo:

https://sites.google.com/site/pesquisaescaladabrasil/

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