A caminho do campo base do Everest

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Estou no quarto dia de trekking ao campo base do Everest guiando meu quadragésimo quarto grupo, desta vez um grupo grande, 24 pessoas que estão nos dando o prazer de acompanhar-nos para nossa escalada ao Everest.

Estou no quarto dia de trekking ao campo base do Everest guiando meu quadragésimo quarto grupo, desta vez um grupo grande, 24 pessoas que estão nos dando o prazer de acompanhar-nos para nossa escalada ao Everest.

Estes dias tem sido cheios de emoção, não só por mais uma vez estar no lugar deste planeta que mais eu posso chamar de minha casa, mas pelas demonstrações de afeto que temos recebido de nossos muitos amigos aqui no Khumbu.

Logo que chegamos a Lukla, Dawa, o dono do lodge que frequentamos há muitos anos, nos chamou em seu escritório e nos ofereceu um cordão abençoado por um importante lama para que nossa escalada seja bem sucedida e que possamos voltar sãos e salvos. Também nos deu um pequeno pacote com grãos de medicina tibetana preparados também por um lama para usarmos caso fiquemos doentes na montanha. E como carinho final nos ofereceu um copo de vinho australiano branco para brindar ao nosso sucesso apesar de ser 9 da manhã. Iniciei o trekking com lágrimas nos olhos.

Ontem visitamos o pequeno monastério de Laudo onde moram nossos amigos Ani e Lama, os dois monges que há 20 anos são os únicos moradores deste lugar abençoado. Como sempre nos receberam com muito carinho, muita comida e deliciosos sorrisos.

Como sempre faço com os grupos, aproveitei as horas que passamos lá para conversar um pouco mais sobre budismo, depois os levei para a sala de cerimônias e conduzi uma pequena meditação para que tenham a experiência de uma prática budista tibetana. Claro que não sou qualificado para isso, mas creio que esta pequena experiência pode plantar uma pequena semente que mais tarde pode levar aos nossos clientes buscar entrar em contato com esta maravilhosa filosofia e então sim, aprender com um mestre.

Na saída, mais lágrimas. Pedi a Ani que pensasse em nós enquanto estivessemos escalando e ela disse que iria rezar muito por nós, mas que isso era somente o que ela podia fazer, nós tínhamos que ajudar tomando muito cuidado. Nos presenteou então com uma kata, uma echarpe de seda com mantras budistas enquanto sussurrava long life, long life (longa vida).

Como tem acontecido nos últimos dias, logo após cruzar o portão do monastério rumo ao vilarejo onde iríamos dormir, olhei para trás e vi meus dois amigos dando tchau e pensei se esta não será a última vez que os estarei vendo. Mais e mais o perigo que estarei enfrentando muito em breve começa a tornar-se mais palpável.

Durante o trekking algumas vezes tive esse mesmo pensamento como que de despedida de algumas coisas que acho particularmente tocantes. Não são omens ruins, não são pensamentos premonitórios e eles não me abalam muito. Sinto que é simplesmente a constatação, a realização de que existe um risco real em escalar uma montanha como o Everest.

A caminho encontrei com um neo zelandês de quem já tinha ouvido falar muito. Anos atrás, escalando o Monte Cook na Nova Zelândia, ele foi pego por uma tempestade e acabou ficando onze dias preso em uma pequena caverna na neve que ele construiu para se abrigar até que finalmente o tempo melhorou e ele foi resgatado. Saiu com vida, mas sem as duas pernas.

Anos depois, já com duas próteses, ele voltou a escalar o Mt Cook e em 2006 o Everest. Conversamos sobre o Cho Oyu e o Everest e ele disse que os 650 metros que separam essas duas montanhas em termos de altitude fazem uma diferença extraordinária. De acordo com ele que escalou ambas, o Everest é dez vezes mais difícil do que o Cho Oyu. Também esta conversa me abalou um pouco.

Apesar disso tudo, sinto que o sentimento predominante não é medo ou receio e sim felicidade por estar embracando em uma experiência tão esperada e tenho certeza tão intensa. Não há maneira de sair de uma escalada dessas sem que isso de alguma forma me transforme. Por tudo o que o Everest significa, pela duração de minha preparação, pela duração da escalada, pelos riscos envolvidos, pela dificuldade, sofrimento, alegrias, mais e mais sinto que chamar tudo isso de uma aventura, de uma escalada apenas é reduzir essa experiência em algo muito menor do que é na realidade. Se aproxima muito mais de uma peregrinação em busca de auto conhecimento, de buscar estar em um lugar que desperta em mim o melhor que sou.

Outro lado muito gostoso desses dias tem sido acompanhar o descobrimento desta região, da sua cultura, de sua beleza através dos olhos do meu grupo. A cada dia sinto as pessoas mais relaxadas, mais contentes, mais se vendo como parte de um grupo que está dividindo uma experiência extraordinária. Já não são as mesmas pessoas que chegaram em Katmandu. Já ouvi de dois que esta está sendo a melhor viagem de suas vidas e isso que estamos apenas no quarto dia de trekking. Temos mais onze dias de caminhada pela frente.

A cada dia chegamos cansados ao nosso lodge, mas tudo que vejo e sinto ao meu redor é a alegria de todos, as risadas, as histórias, os sentimentos de cada descoberta. Para muitos, a maioria, este é o primeiro trekking de mais de dois dias. A mais nova tem quinze anos, o mais velho tem 63. São cariocas, paulistas, brazilienses, gauchos, mineiros e guatemaltecos.  Juntos nos deslumbramos com a paisagem, contamos nossas vidas, dançamos nas duas festas que já surgiram espontaneamente. Ja não somos um grupo de pessoas desconhecidas, mas amigos de longa data.

Mal comecamos esta caminhada e já se fala em fazer uma outra no próximo ano. Como é o Kilimanjaro? Será que o Elbrus é muito difícil? Gostaria de ir ao Aconcagua. Alguns adoeceram com diarreia e as últimas duas noites passei em claro tratando dos doentes

. Me sinto cansado fisicamente, mas tudo isso não tem importância frente ao que recebo deles. A troca de energia é fantástica. Não creio que pudesse ter escolhido uma forma melhor de chegar frente a frente ao Chomolongma. Sinto que nunca estarei sozinho escalando. Uma imensidão de amigos feitos nesses 20 anos de profissão como guia estarão me acompanhando, me empurrando, me apoiando. Não posso pedir mais…

Dedico tudo o que estou sentindo a todas as pessoas que sonham em fazer algo extraordinário. Que eles, assim como eu, possam ter oportunidade de realizá-los.

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Sobre o autor

Manoel Morgado - Colunista

Manoel Morgado é médico de formação, mas trabalha como guia de montanha há 20 anos, atuando em vários países ao redor do mundo. Há 15 anos é montanhista, tendo como ápice de sua carreira a conquista do Everest e também a realização do projeto 7 cumes. Ele nasceu no Rio Grande do Sul, se criou em São Paulo e dede 1989 não tem casa.

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