A Toca do Rato

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Uma escalada mista no inverno europeu.

A noite foi descansada até que pelas 7:30 da manhã o despertador soou. Na verdade, a noite foi descansada até um pouco mais tarde, pois ao primeiro estrondear electrónico, a minha mão instintivamente adiou o despertador para horas mais tardias.

A minha mão teve vontade própria para calar o pequeno aparelho umas quantas vezes, até que a horas impróprias (diga-se, impróprias para quem quer fazer uma actividade invernal!)…talvez quase às nove da manhã(?), nos decidimos a abandonar o calor do edredão que nos embrulhava.

As primeiras imagens que o nosso cérebro recolheu foram animadoras. Pela noite não tinha nevado tanto como o previsto e nas nuvens, surgiam aqui e ali pequenos buracos azuis. O vento soprava mas não à velocidade esperada. Mesmo com um mau tempo bem melhor do que o expectável, o frio mordia-nos o corpo já habituado a temperaturas mediterrâneas.

Foi com algum esforço que saímos dos Piornos a pé (como já vem sendo normal este ano…o que até é bom sinal!) e como quase meio dia estava perdido (começamos a caminhar a horas vergonhosas…11 da madrugada!), decidimos tentar a nossa sorte no Covão do Ferro, já que o entusiasmo para “passear” até à zona do Cântaro Magro era inexistente.

Devido às altas temperaturas da semana (qualquer coisa entre os 2 e 4/5º), não esperávamos escalar gelo…e não escalamos!

O nosso imaginário estava já formatado para uma qualquer linha de escalada mista, onde as pontas dos piolets bem afiados ganhassem um carácter algo arredondado de tantas “cóquinadas” nas pedras.

Mais uma vez (pelo menos para mim!), a entrada no Covão do Ferro pelas suas cotas mais baixas revelou-se trabalhosa. Sou constantemente tentada a seguir o caminho que parece mais curto! Como resultado, fizemos uma limpeza a 50% da neve que cobria os ramos das giestas, antes de atingirmos o primeiro esporão de rocha do Covão.

Como a vontade de caminhar era (muito) pouca, rapidamente visualizamos uma linha que nos possibilitaria enferrujar os piolets. Depois desta, mais outra e outra ainda mais ao lado. Aquele pequeno esporão coberto com uma fina camada de neve, oferecia várias possibilidades para os apreciadores do tipo de escalada mais elegante do planeta, a tradicional escalada ao velho e muuuuuuiiiito apreciado estilo Escocês.

Neste…famosíssimo estilo, as primeiras escaladas da época sofrem sempre do mesmo mal: escolhem-se vias que parecendo razoavelmente acessíveis…não o são!

Algures pelo meio-dia, quem sabe se um pouco mais tarde, estávamos equipados para iniciar a actividade.

A primeira fissura parecia estar logo ali, mas o “logo ali” implicava um gancheio que não era absolutamente confiável de piolets, em fissuras que ficavam um pouco acima da cabeça. Os crampons também não agarravam grande coisa e o único recanto para colocar um pequeno friend, oferecia uma daquelas protecções que não prevêem a elasticidade das cordas.

MAS…depois de umas quantas investidas, o Paulo lá conseguiu superar a sua mente…e aquele passo.

Vi-o progredir a bom ritmo…como quem diz, lentamente, caçando fissuras e tentando por diversas vezes recorrer à também já conhecida dos leitores “erva tracção”. Mas as altas temperaturas dos dias anteriores, não permitiram o congelamento dos vegetais que coloriam a via, pelo que a “erva tracção” deu origem à limpeza da terra de umas quantas fissuras…nããããão, não estragámos desta forma a toca do rato!

Como o material disponível para proteger era pouco e a escalada exigente, os largos foram obrigatoriamente curtos.

Ainda assim, quando o Paulo montou a primeira reunião, o meu corpo já tinha eliminado todos os vestígios de calor.

“Podes vir” disse o Paulo de uma pequena plataforma 20m mais acima.

Gancheei os piolets nas tais fendas, tentei que os crampons se fixassem em pequenos gratons de rocha e upa, perna arremessada para uma estreita plataforma. Entre escalada e reptansso, facilmente percebi o porque da demora do Paulo.

O largo seguinte, mais vertical, tornou-se mais trabalhoso, pois as possibilidades de reptar estavam francamente diminuídas. O recurso aos piolets e crampons nas fissuras foi uma constante (para os mais fortes, este largo está ainda por encadear, já que “azeramos” um passo…quem se atreve à FFA? Fica aqui o desafio…).

Nos restantes dois largos, a escalada mista revelou todo o seu potencial. Da minha parte, excepção feita a alguns excelentes gancheios, poucas vezes recorri aos piolets. Entre o encostar de joelhos, aos entalamentos de ombros e mãos…e de outras partes do corpo, oposições aqui e ali, valeu tudo…esta é a parte divertida deste tipo de escalada “NO RULES”!

Quando pouco tempo faltava para cair a noite, demos por terminada a via, saiu um M6 de 80m repartidos por 4 fantásticos larguinhos (porque como já referi, são pequeniiiiiinos).

E o rato?

Ou melhor, e o nome?

A primeira coisa que nos ocorreu foi “Reptovia”, mas esse nome pertence já a uma linha aberta em 2007. “Arrastadeira” também nos pareceu…algo deselegante!

Assim, sem nome para a via, abandonamos o esporão no Covão, com ideias de brevemente voltar para tentar abrir as linhas que por ali permanecessem inexploradas.

Quando o azul escuro pintou o céu, chegamos nós à toca do rato! Logo abaixo da barragem, existem umas construções que comentámos serem excelentes para bivacar, pois para além de tecto, uma delas tem uma plataforma que pode bem servir de mesa para organizar o material e inclusivamente cozinhar. MAS CUIDADO COM O QUEIJO!

O bivaque tem de ser obrigatoriamente partilhado com o Sr. Rato, cuja toca fica mesmo por baixo da mesa.

Este rato descarado saltitava entre a porta do bivaque e a entrada da sua toca, passeando ao nosso lado (à distância de 2 palmos!) para cá e para lá sem nos dar grande importância…”NO RULES”.

Publicado originalmente no Blog “Rocha Podre e Pedra Dura”

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Sobre o autor

Daniela e Paulo - Colunistas

Daniela Teixeira e Paulo Roxo é uma dupla portuguesa que pratica escalada (rocha, gelo e mista) e alpinismo. O que mais gostam? Explorar, abrir vias! A Daniela tem cerca de 10 anos de experiência nestas andanças e o Paulo cerca de 25. A sua melhor aventura juntos foi em 2010, onde na cordilheira de Garhwal (India - Himalaias), abriram uma via nova em estilo alpino puro na face norte da montanha Ekdante (6100m) e escalaram uma montanha virgem que nomearam de Kartik (5115m), também em estilo alpino puro. Daniela foi a primeira e única portuguesa a escalar um 8000 (Cho Oyu). O Paulo é o português com mais vias abertas (mais de 600 vias abertas, entre rocha, gelo e mistas). Daniela é geóloga e Paulo faz trabalhos verticais. Eles compartilham suas experiências do velho mundo e dos Himalaias no AltaMontanha.com desde 2008. Ambos também editam o blog Rocha Podre, Pedra Dura (rppd.blogspot.com.br)

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