Cambirela, Fragmentos de sua história.

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O Cambirela sempre despertou a atenção daqueles que por aqui passaram ou permaneceram nas terras firmes da Ilha de Santa Catarina ou do continente. Os primeiros habitantes destas terras, os Carijós, pertencentes à nação Tupi – Guarani, o chamavam de “Cambir- reya” – que significa “muitos seios ou dorsos empolados. Por dominar imponentemente a paisagem continental o Cambirela foi muitas vezes utilizado como referencia geográfica durante as navegações costeiras, ou de cabotagem pelos primeiros navegadores que chegaram à Ilha de Santa Catarina no século XVI. Não foi diferente com os primeiros aviadores no inicio da década de 20, que aqui amerrisaram em seus frágeis hidroaviões, (desprovidos dos modernos equipamentos de navegação) procedentes de grandes capitais como Rio de Janeiro ou Buenos Aires. Em ambos os casos, tanto na navegação marítima ou aérea, o Cambirela representava a certeza, e o alivio para os exaustos viajantes, pois sabiam eles que se aproximavam da Ilha de Santa Catarina, e que em breve estariam seguros nas águas tranquilas das baias sul e norte.

Em seu artigo “Primórdios do Montanhismo em Santa Catarina ”, Reginaldo Carvalho, montanhista e geógrafo, descreve que “também com os europeus, houveram os primeiros relatos e registros de ascensões, muitas vezes exploratórias e outras já com cunho montanhístico em Santa Catarina”. Neste contexto, não é difícil imaginar que o Cambirela foi visitado por grandes exploradores, certamente acompanhados pelos índios que habitavam estas terras (e eram profundos conhecedores das matas e das serras da região) com objetivo de mapear com mais detalhes a Ilha de Santa Catarina e seu entorno. É evidente que não é de hoje que o morro do Cambirela desperta curiosidades, atrai olhares, encanta e surpreende por sua imponência e beleza. Muitos exploradores e pesquisadores fizeram importantes registros de sua fauna e flora e grandes artistas plásticos eternizaram o Cambirela e as montanhas que o circundam em suas obras. Podemos citar: George Anson com a obra: Entrada Norte da Ilha de Santa Catarina (1740), Charles Landseer – Vista da Baia Sul da Ilha de Santa Catarina cidade de Desterro (1824), Jean-Baptiste Debret – Panorama de São José e Cambirela (1826), Joseph Bruggemann – Vista da Antiga cidade de Desterro (1868), Louis Choris, e Victor Meirelles – Vista Parcial da Cidade de Nossa Senhora do Desterro, Atual Florianópolis (1847), entre outros.

Vista Parcial Cidade de Desterro (1847). Fonte: http://museuvictormeirelles.museus.gov.br

Sobre a obra de Victor Meirelles, Vista Parcial da Cidade de Nossa Senhora do Desterro, Atual Florianópolis (1847), o professor do Departamento de Expressão Gráfica na UFSC, Mário César Coelho, Mestre e doutor em História Cultural- UFSC, descreve: “A obra tem uma estranha relação com a perspectiva, pois, apesar de ter um ponto de fuga principal encaminhado pelas linhas da Rua Trajano, no centro do quadro, o ponto de fuga do adro da Igreja Nossa Senhora do Rosário não obedece ao resto da composição, acentuando a verticalidade e o olhar para as montanhas. É como se o olhar do pintor pudesse também estar muito acima do horizonte”. […] O Morro do Cambirela, um dos pontos mais altos da região, acabou se destacando como o ápice de um triângulo.[…] O ponto de fuga em ”Vista do Desterro”, mais do que “erro”, pode indicar um significado de espiritualidade, como evocação de um ponto mais alto, acima de todos, trindade, composição triangular que teve importância na obra de Meirelles, velho ou menino”.

Outro interessante registro de como as nossas belezas naturais – principalmente as montanhas- encantavam os viajantes que por aqui chegavam, é a bela descrição de Affonso d’Escragnolle Taunay, que escreveu o que viu quando o vapor “Almirante Alvin” em viagem de regresso a Florianópolis, começou a navegar nas águas mansas da Baia Norte. Ao se deparar com a bela paisagem emoldurada pelas montanhas – com destaque para a Serra do Cambirela e Tabuleiro. No texto: “Revendo a terra Natal”, publicado no jornal Republica, em 9 de outubro de 1928, Taunay registrou: […] “Íamos lentamente avançando as largas bahias e as abaras aprazíveis se enfileiravam em uma e outra margem daquele estreito defrontando as mansas collinas da ilha as grandes montanhas cerradamente verdes do Continente. […] Para o Sul, iam se elevando as montanhas da Terra Firme e as da Ilha, em direccao aos mássiços imponentes do Ribeirao do Taboleiro e da Cambirella”. […] “Esbate-se-lhe o perfil esgalgado a direita do observador, sobre o massiço grandioso do Serra do Mar que aqui tem raríssima imponência, digna de se comparar as mais alterosas paisagens de nossa costa, mesmo na região guanabarina. O aspecto do massiço do Cambirella e o Taboleiro, plano como um cesto de gávea, cobertos de densa floresta com suas bases quase beijadas pelo mar, ostenta a magnificência dos scenarios de Magaratiba de Angra dos Reis, de São Sebastião, de que tanto se aproxima”.

O registro mais antigo de uma subida ao Cambirela até agora encontrado, data de 1934, e foi publicado na edicão quinzenal de “O Apóstolo” de 1º de outubro de 1937*. O trecho do artigo intitulado “Devagar se vai ao longe”, assinado pelo Padre Arnoldo Bruxei, S.J . destaca:[…] “e altura – nao te assustes – de 1553 mts – de cinco e meia vezes o Morro da Cruz, ou quasi duas vezes as primeiras cumiadas do Cambirella…desde o espelho liso da bahia ao pico escalavrado e requeimado, vestido agora de gravatás e arbustos garranchentos, donde descortinamos (em 1934 e 1936) a Ilha como um brinquedo aos nossos pés e no oeste alem da christa serrilhada das Eruptivas, as lombas suaves da Geral escorando o interior planitico de S. Catharina”.

Crista Face Sul Cambirela 1941 (Fonte: Biblioteca Central – Padre Aloísio Kolberg do Colégio Catarinense- Florianópolis/SC

Da década de 40, existem outros relatos muito interessantes de Padres que subiram o Cambirela, entre eles o do incansável Padre Roberto Rambo, S.J. Existem dois registros das suas subidas ao topo do Cambirela (ou a Cambirela, como era citado naquela época em varias publicações), sempre na companhia de outros Padres e alunos do Colégio Catarinense. (antigo Ginásio Catarinense). É evidente que as subidas tinham caráter educativo, extra-classe, oportunidade em que os alunos podiam aprender principalmente sobre geografia, filosofia e ciências naturais, alem vivenciar os verdadeiros valores que só o montanhismo pode proporcionar como; espírito de equipe, senso de preservação, superação pessoal e principalmente; instigar nos jovens alunos a se questionarem pelo real sentido da vida. As subidas dos alunos eram sempre acompanhadas de Padres Na edição de “O Apóstolo” de 1º de janeiro de 1942, Padre Roberto Rambo publicou: “A subida ao Cambirela” onde se destacam as seguintes passagens: […] Dia 23 de junho de 1941, as 4.30 da madrugada. 16 rapazes corajosos e 5 escolásticos embarcam no ônibus do Ginásio. Noite cerrada. Céu estrelado. Em rápida corrida, entre gritos e cantigas alegres que alarmavam cães e gatos e talvez estorvavam o sono abençoado da gente, passam os 21 por João Pessoa** , São José, Palhoça, Aririú, e chegam a ponte do Cubatão e ao pé do Cambirela. Noite ainda. Acordamos o” guia-vaqueano” que deveria mostrarnos o caminho – digo mal – abrir-nos uma picada pelo mato e a alta capoeira até o tope. […]Gastamos na subida quatro horas batidinhas. Seria impossível chegar ao alto, sem o vaqueano que ia adiante com um “baita” dum facão abrindo brecha. Depois do mato entramos na Capoeira alta com samambaias de 2 a 3 metros de altura, emaranhados de cipós capins, troncos derrubados, pedras, penhascos. Existe lá um capim”danado”, muito cortante que se gruda á pele, corta uma lasca e -decerto- depois a come! (Já não é novidade que há plantas carnívoras!). […] A crista do monte 2º mede em certos trechos só 6 a 8 metros de largura. De ambos os lados abismos horrendos. Mudos e extasiados admiramos o panorama indizivelmente belo; qual imenso mapa em alto relevo espraiava-se diante do nosso olhar uma das mais lindas regiões do nosso lindo Brasil: as baias do norte e do sul, a Ilha de Santa Catarina toda com seus 50 kms de extensão, desde a barra do sul, a ponta dos Naufragados, o farol, Pântano do Sul, a planície da Armação, Campeche com o campo de aviação, a base naval com seus hangares, a pitoresca Capital e a majestosa Ponte Hercílio Luz, montes, vales, até a ponta norte da Ilha com Canavieiras e o ancoradouro dos navios transatlânticos. Ao pé do Cambirela serpeia o Cubatão que pela pouca queda descreve figuras bem esquisitas. São José, Palhoça, Santo Amaro, a “Pedra branca” com sua rocha a pique de 400 metros, todo este grandioso cenário se fecha pela serra de Angelina que alcança quase 1.000 metros de altura.

O guia e os alunos. Crista face Leste do Cambirela. 1941. (Fonte: Biblioteca Central – Padre Aloísio Kolberg do Colégio Catarinense- Florianópolis/SC)

Outro interessante relato da subida do Padre Roberto Rambo e seus alunos ao Cambirela, esta publicado na edição de “O Apóstolo” de 15 de julho de 1942 com o titulo; “A subida ao Cambirela” Algumas passagens do texto merecem destaque: […] Duas vezes subi em junho proximo passado com 26 ginasianos. Os musculos resistiram mais ou menos; sim, pernas bambas, joelhos rebeldes, membros esfolados, mas aguentaram. […] O primeiro pico esta tomado, AH! Que vista deslumbrante sobre as baias, Florianopolis, a Ilha, o oceano! Alguns querem ai ficar duma vez, mesmo como os Apostolos no Monte Tabor: “Mestre, aqui estamos bem”! Nao pode ser! Avante ate o topo do Cambirela! E..Vitoria! Vencemos!. […] A descida foi vertiginosa, numa nuvem de poeira e terra, por imprevistas “curvas da morte”.[…] Graças a Deus e aos anjos da Guarda chegamos todos bem e contentes ao pé do monte. Só um ou outro comentou, o Cambirela me pegou uma vez, mas nunca mais!”. […] Para os 26 valorosos jovens,o Cambirela nao é mais aquele gigante de granito mudo e misterioso, mas o monte com panorama indescritivelmente lindo da parte mais pitoresca da Terra Catarinense!

Crista Face Sul com vista para a ponta sul da Ilha de Santa Catarina e Continente. 1942. (Fonte: Biblioteca Central – Padre Aloísio Kolberg do Colégio Catarinense- Florianópolis/SC)

Em 1949, mais precisamente na tarde chuvosa do dia 06 de junho, o avião Douglas, DC-3 C-47, do 2º Grupo de Transporte (2º GT) da Força Aérea Brasileira, o FAB matricula 2023, procedente do Rio de Janeiro com destino a Uruguaiana no Rio grande do Sul, depois de fazer escalas em São Paulo, Curitiba e Florianópolis, colidiu com a Serra do Cambirela, explodindo e matando os vinte e oito ocupantes (seis tripulantes e vinte e dois passageiros). Na época foi considerado o maior Desastre aeronáutico do Brasil. As equipes de busca levaram três dias para resgatar todos os corpos. Esta historia será contada com muitos detalhes no livro, “O Último Vôo do FAB 2023”, previsto para ser lançado em 2019, ano em que se completam 70 anos do acidente.

Acidente aéreo no Cambirela. (Fonte: Biblioteca Central – Padre Aloísio Kolberg do Colégio Catarinense- Florianópolis/SC)

Reportagem do jornal Correio da Manhã -RJ noticiando a queda do avião no morro do Cambirela

No fim do ano letivo de 1949, outro relato interessante sobre a subida de padres e alunos ao pico do Cambirela foi publicado no Relatório do Colégio Catarinense (Ginásio Catarinense). O passeio ocorreu alguns meses após o acidente com o C-47 FAB 2023. “Passeio ao Cambirela” assinado pelo Padre Urbano Salles Filho e Bento Ernesto Krueger do Curso Médio. “Uma turma de alunos do ginásio comandada pelos padres Marocco, Antonio e Lino, realizou um agradável passeio ao elevado do morro do Cambirela. Seguimos de caminhão até o trecho onde se inicia a picada que dá acesso ao morro. A subida foi difícil e penosa; os componentes da caravana eram obrigados a usar um bastão para facilitar a subida. Se não fosse o P. Lino, que me puxou com um bastão, acho que não teria chegado ate em cima. Após algumas horas de caminhada chegamos até o local onde se acha o avião sinistrado a poucos meses atrás, cujo desastre enlutou a aviação brasileira. O avião esta espatifado, pois ele esbarrou numa grande rocha. Depois disso almoçamos muito bem e fomos ao pico do morro onde existe uma bandeira de pano esfarrapado. As duas da tarde regressamos radiantes. […] Durante toda a descida, vinha procurando alguma fonte de água para matar a sede que me secava a garganta. Ao chegar num lugar onde os soldados tinham feito um acampamento, a turma que vinha na frente nos disse que um pouco mais abaixo havia um regato de água gelada. Fui La com vontade de secar o arroio. Quando chegamos embaixo o caminhão já estava nos esperando. Embarcamos e fomos até o Cubatão tomar água Mineral. Depois rumamos em direção ao colégio. As 15 horas, púnhamos ponto final no lindo passeio do Cambirela”.

Foi na década de 70 que o PEST- Parque Estadual da Serra do Tabuleiro foi criado através da lei N 1.260 de 1 de novembro de 1975. O PEST é a maior unidade de conservação de proteção integral do Estado de Santa Catarina com 84.130 hectares e foi criado tendo como base os estudos dos botânicos Pe. Raulino Reitz e Roberto Miguel Klein, com o objetivo de proteger a rica biodiversidade da região e os mananciais hídricos que abastecem as cidades da Grande Florianópolis e do Sul do Estado. Por abrigar uma rica diversidade de Fauna e Flora, alem de inúmeras nascentes e por localizar-se em um local privilegiado entre o litoral ao leste e as serras ao oeste, o Cambirela ficou situado dentro dos limites do PEST. É o ponto mais elevado do município de Palhoça, com altitude estimada em 913 metros (o seu ponto mais elevado, esta situado no interior do Maciço do Cambirela, chegando a 1.040 metros de altitude). O Cambirela não é o ponto culminante do Parque Estadual da Serra do Tabuleiro (que possui picos com mais de 1.400 metros), porém domina a paisagem das Serras avistadas desde a Ilha de Santa Catarina. O PEST abriga varias espécies da fauna e da flora ameaçadas de extinção. A floresta ombrófila densa, riquíssima em plantas epífitas, cobre a serra Cambirela e ocupa a maior parte da área do Parque.

Se no passado as ascensões ao Cambirela tinham caráter exploratório e estudos científicos, a partir da década de 80, começam a aparecer os primeiros registros de caráter preservacionista e com fins de recreação. No livro; “O morro do Cambirela” do Palhocence Giancarlo Phillippi Zacchi, o autor relata passagens de subidas no morro com seus amigos do G.E.C – Grupo Ecológico Cambirela, e faz comentários sobre a flora e as degradações resultantes da extração de saibro na base do Cambirela e da madeira de suas encostas; “As transgressões são as mais diversificadas. Enquanto se da a exploração de saibro, as madeireiras clandestinas desmatam imensas regiões de arvores e plantas centenárias.”[…] Também no podemos nos omitir do majestoso Cambirela, um verdadeiro símbolo vivo de nossa natureza “virgem e selvagem”, (não tão virgem e selvagem atualmente devido as explosões existentes diariamente em seu sopé”. Em 1981, a Lei Municipal n. 413/81, autorizava a Mineradora Saibrita a explorar o saibro (britas), na Comunidade da Guarda do Cubatão na base do Morro do Cambirela por 20 anos. Em 2000 foi prorrogado o tempo de exploração e até os dias de hoje a mineradora luta na justiça pelo direito de continuar a explorar a base do Cambirela.

Entre as décadas de 70 e 80 a escalada – e conseqüentemente o montanhismo – começaram a ganhar força na região da Grande Florianópolis com a chegada de Antônio Carlos “Bito” Meyer – considerado uma das lendas do montanhismo brasileiro – que morou em Florianópolis nos anos 80 e que abriu vários campos escolas de escalada na Ilha e no continente. No final da década de 80, mais precisamente no dia 01 de novembro de 1989 (passados quarenta anos após o acidente com o FAB 2023) tive o privilegio de subir o Cambirela pela primeira vez e desde então, nunca mais parei. Já foram inúmeras as vezes que eu coloquei os pés nos cimos desta bela montanha, e não pretendo parar de subir tão cedo. Cada vez que eu subo, encontro um novo olhar para o Cambirela e para a bela paisagem que o cerca, desde o nível do mar até as montanhas mais elevadas.

Nos anos 90 surgem algumas das primeiras operadoras especializadas em Ecoturismo na região, uma delas foi a Recrearte, cujas operações de condução de grupos ficavam a cargo do Profissional de Educação Física Alberto Cesconetto e do Biólogo Jorge Freitas. A empresa iniciou suas atividades oferecendo Educação Ambiental para empresas e escolas através de saídas de campo (estudos do meio ambiente). Também prestava atividades de “Esportes e Lazer” para os sócios do Paula Ramos Esporte Clube. As operações comerciais (com grupos de até 10 pessoas) eram realizadas na Ilha de Santa Catarina, e logo se estenderam para o Cambirela e região. Não demorou muito para que o Cambirela se transformasse em um dos principais destinos para quem desejava praticar caminhadas e acampamentos.

“O Cambirela atrai os montanhistas, instiga com suas vertentes íngremes e revela como recompensa para os que conquistam seu cume, a vasta paisagem dos Maciços do Tabuleiro a Oeste, das planícies ao Norte até o Tijucas, na Baía de Zimbros, a vista das baías Norte e Sul e de toda a Ilha de Santa Catarina, da Ponta dos Naufragados ao Maciço da Brava e o Oceano Atlântico à Leste” ***.

Atualmente, principalmente entre os meses de maio a agosto -período considerado propicio para a temporada de montanhismo no Brasil – centenas de pessoas de diversos estados brasileiros e até do exterior, começaram a frequentar o topo do Cambirela, algumas vezes acompanhados de guias ou condutores locais experientes, outros menos experientes, muitas vezes ficam pelo caminho, se perdem e muitas vezes precisam de auxilo de bombeiros. No inicio de 2000, já eram evidentes os impactos ambientais causados pelos trilheiros. Segundo as certidões de ocorrências realizadas pelo Corpo de Bombeiros Militar de Palhoça, entre o período de 29 de março de 2007 a 15 de abril de 2017 (pouco mais de 10 anos foram registradas 42 ocorrências das quais quinze solicitaram resgate aéreo, vinte e três foram atendidas pelas equipes de busca e resgate terrestre e cinco foram resgates mistos (envolveram o resgate aéreo e terrestre).

Em 2006, Marcio Soldateli, Biólogo e MSc. em Engenharia Ambiental e Luiz Henrique Fragoas Pimenta, Geógrafo e MSc. em Engenharia Ambiental, publicaram um dos primeiros trabalhos acadêmicos alertando sobre os impactos negativos no Pico do Cambirela. O referido trabalho foi apresentado no Congresso Nacional de Planejamento e Manejo de Trilhas no Rio de Janeiro. O trabalho intitulado: Mapeamento das Trilhas e dos Impactos Ambientais negativos no Pico do Cambirela, Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, SC, Brasil, contribuiu para o esclarecimento de parte da população sobre a importância de preservar o Cambirela e entorno, alem de fazer uma breve descrição e mapeamento das trilhas com informações sobre distancias, altitudes, e uma descrição resumida de cada uma das três trilhas de acesso. Em janeiro de 2012, Anastácio da Silva Junior apresentou a tese de Doutorado Intitulada: A Educação Ambiental como um Instrumento para a Sustentabilidade do Morro do Cambirela: “Por ser relativamente perto dos centros urbanos, acesso fácil e nível difícil, toda a espécie de excursionista se aventura na escalada do morro. Pode-se verificar que as pessoas, em sua maioria, são de regiões bem próximas ao morro, mas com uma consciência ambiental muito baixa. A esse grupo se misturam os escaladores e praticantes de trekking, pessoas com uma compreensão ambiental mais desenvolvida e que se preocupam em recolher seus resíduos e o lixo que tem condições de retirar da montanha. Entretanto, esse grupo constitui uma minoria que não dá conta de limpar a montanha e nem consegue despertar uma mudança de atitude nas pessoas. Destaca-se que nesta montanha, apesar de se encontrar em uma Unidade de Conservação, não há qualquer controle ambiental ou de acesso, nem por parte do poder público nem da sociedade civil.”

O Cambirela voltou a ser notícia nacional, quando em 23 de julho de 2013 todo o maciço amanheceu coberto de neve. Na época o maciço do Cambirela chegou a ser chamado de “Alpes Catarinenses”. Um dos principais jornais do estado, o Diário Catarinense, escreveu: “O que aconteceu naquela terça-feira não é comum na Grande Florianópolis. Antes do lençol branco em cima do morro de mais de mil metros, não caía neve havia quase 30 anos no Cambirela”. Em virtude deste fenômeno climático o Cambirela virou até um Jogo online – que na época foi um sucesso na internet – chamado “Cambirela Adventures” cujos obstáculos são as tradicionais figuras folclóricas da cidade de Palhoça.

Outra curiosidade sobre o Cambirela, esta relacionado a ocorrência de águas termo-minerais na região. No interior do PEST existe um sistema de falhamentos ou fissuras geológicas por onde se infiltram as águas das chuvas (pluviais) estas águas descem lentamente até se aquecerem pelo grau geotérmico das Rochas e retornam a superfície por surgência a uma temperatura média de 39º. Uma destas fissuras ocorre no Cambirela. Eis aí a explicação para as fontes termo-minerais que surgem na base da montanha, mais precisamente na Guarda do Cubatão, onde em 1927 surgiu a primeira envasadora de água mineral do Sul do Brasil, a água mineral Santa Catarina. A ocorrência de fontes termo-minerais nas encostas das Serras do Tabuleiro e Cambirela, leva as pessoas a acreditarem que estas montanhas são vulcões adormecidos. Na Edição Especial do Jornal Hora de Santa Catarina**** sobre o aniversario de 123 anos de Palhoça, o Jornalista Marcus Bruno que assina a matéria, ressuscitou a lenda de que no período Pré-Cambriano***** , o Cambirela foi um vulcão: “O professor Breno Leitão Waichel, coordenador do Laboratório de Laminação do curso de Geologia da UFSC – Universidade de Santa Catarina, explica que há 590 milhões de anos realmente aquilo lá era um vulcão – ativo. – Toda aquela região, mais a da Armação, no sul da Ilha, são compostas por rochas vulcânicas com essa idade. Elas foram formadas após o vulcão explodir. As cinzas se depositaram formando rochas e também tiveram derrames de lavas. Conforme o professor Breno, com o tempo a atividade vulcânica dessa região foi cessando. As fontes termais são resquícios daquele sistema vulcânico”.

Passaram-se séculos desde a chegada dos primeiros navegadores, e o Cambirela continua encantando e servindo de inspiração. No livro, “Furadinho, Fragmentos de sua Historia”, seu autor; Antonio Manoel da Silva, o Bieli, escreveu: “Diante das maravilhas naturais encontradas em seu dorso florestal e da gradual destruição provocada pelas “mãos” do homem, o Cambirela amiúde serve de inspiração aos poetas da terra, que o representam em seus versos e cancões levando avante esse majestoso patrimônio, doado, antes, ao povo do Furadinho pela mãe natureza e, por extensão, a todos os palhocenses”.

Atualmente o nome Cambirela é citado com frequência nas Redes Sociais. Para se ter uma ideia, só no site de buscas “Google” o nome “Cambirela” aparece em aproximadamente 180.000 resultados. Poetas e cantores continuam exaltando-o em suas poesias, versos e canções. Na grande Florianópolis existem inúmeros empreendimentos que levam o nome Cambirela. Em Palhoça existe o CTG (Centro de Tradições Gaúchas) Tropeiros do Cambirela, cujo o lema é: “Quem cultiva a Tradição, preserva a natureza.

Enfim, o Cambirela foi, é, e sempre será lembrado, por suas belezas naturais e majestuosidade. O que realmente queremos é que cada vez mais as pessoas respeitem-no e preservem-no, para que as futuras gerações também possam contemplar os seus encantos. Que assim seja!

* Sigla da Congregação religiosa. SJ. Societas Iesu; Jesuitae (Companhia de Jesus; Jesuítas).

** Atual bairro do Estreito

*** https://nasmontanhasdosul.blogspot.com.br  Trecho do texto ”Cambirela” de André Luiz Santos.

****Edição de 24 de abril de 2017.

*****Fonte: Departamento de Geologia da UFSC.

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Sobre o autor

Silvio Adriani

Silvio Adriani Cardoso. Bacharel em Gestão do Lazer e profissional de Educação Física. Montanhista e escalador desde 1995. Autor do Livro “O ultimo vôo do FAB 2023” com lançamento previsto para junho de 2019.

14 Comentários

  1. Belíssimo o texto de Silvio Adriani Cardoso sobre o Cambirela. A narrativa leve, acompanhada de referências, torna a leitura agradável e instigante, com gosto de “quero mais”. Aguardo o livro ansiosamente e, é claro, com autógrafo…
    Oscar Lobo – Jornalista.

    • Silvio Adriani em

      Obrigado meu amigo Oscar Lobo, um grande ativista das práticas do montanhismo seguro e de mínimo impacto em nossa região!

  2. Erasmo Rodrigues Neto em

    Parabéns pelo texto! Muito bom o seu trabalho! Em relação ao acidente com o avião da FAB, tive um tio-avô (in memoriam) que serviu o Exército Brasileiro, no ano do sinistro. Ele participou do grupo de militares que foi resgatar os corpos dos pilotos e tripulantes da aeronave. Contava que passaram muito trabalho no resgate, tendo vista a mata fechada e o próprio relevo local. Relatava também que, quando ele chegou no local do acidente viu uma senhora, já em óbito, sentada e encostada em uma árvore. Ele achava que aquela senhora havia sobrevivido ao acidente e conseguiu se encostar na árvore esperando por algum resgate, porém, em decorrência dos ferimentos, deve ter falecido naquela situação. Enfim, talvez no 63º Batalhão de Infantaria (Exército), antigo 14º Batalhão de Caçadores, tenha algum material sobre a operação de resgate. Abraços!

    • Ola Erasmo, muito interessante seu comentário. Realmente existe um registro feito pelo reporter jornalístico da Revista “O Cruzeiro” (publicada alguns dias apos o acidente) que cita que duas pessoas foram encontradas em posições corporais que davam a parecer que haviam sobrevivido ao impacto (e a explosão do avião). Um deles era esta Sra tal qual o amigo citou, e o outro era de um homem. Os detalhes deste lamentável episodio estarão no meu livro. Gostaria de trocar algumas palavras com você. Meu e mail: [email protected]o.com.br e whats: (48) 98408-1135. Abraço!

  3. Paulo Leandro Rodrigues em

    Grande Adriani, aguardo com muita curiosidade seu livro, quanto a este texto contribui com informações despertando em nós o porque do tema e fatos estarem ” adormecidos” até hoje, abraço e sucesso.

  4. Sandro Piazera em

    Desde as primeiras linhas já fiquei encantado com o excelente texto . . .
    A história narrada em detalhes nos deixa curioso a seguir a diante .
    Sem dúvida nenhuma estarei no aguardo do lançamento do Livro em 2019 e desde já parabenizo pelo excelente texto rico em detalhes sobre um Morro é uma Região que tenho um respeito enorme a 15 anos subi pela 1° vez e de lá para cá tenho tido encontros e experiências incríveis a cada vez que retorno ao Topo . …
    Parabéns pelo excelente trabalho de pesquisa da história deste Lugar incrível é que a cada ano desperta a curiosidade dos mais jovens aos mais experientes Trilheiros e montanhistas do Brasil e do exterior . . .

  5. ja subi varias vezes.e ate dormi la no pico.porem tenho curiosidade de saber o local do acidente aereo de 49.pode me informar o local

  6. Estou muito ansioso pelo lançamento desse livro,tenho uma paixão pelo cambirela sou morador da praia de fora e fui criado subindo o cambirela quase que mensalmente, para explorar, caçar, etc…até já encontrei fornos de carvao muito antigos no morro. Nunca encontrei o local exato da queda, varios colegas meus já foram no local. voce teria a localização do lugar ?

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