Antes da revolução cubana, Che Guevara se dedicou ao montanhismo

3

Um dos líderes da revolução cubana e mundialmente famoso, o revolucionário Ernesto Guevara, o “Che”, chegou a se dedicar ao montanhismo enquanto viveu no México, realizando uma ascensão à segunda montanha mais alta daquele país, o Vulcão Popocatépetl.

Che Guevara em frente ao Vulcão Vulcão Popocatépetl. Fonte: cumbresmountainmagazine

Ernesto Guevara chegou no México, onde fixou residência na capital do país em setembro de 1954. Ele estava longe de ser o revolucionário, que é a imagem que o marcou para a eternidade. Longe disso, Guevara era apenas um jovem médico e aventureiro, que acumulara viagens pela América Latina, também eternizada pelo filme “Diários de Motocicleta” de Walter Salles.

Na cidade do México, o jovem médico argentino trabalhou na seção de alergia do Hospital Geral e no Hospital Infantil do México, além de ter feito bicos de fotógrafo cobrindo os jogos pan-americanos de 1955. Ele teria se encantado com o Vulcão Popocatépetl, chamado pelos mexicanos de “Popo”, que se destaca no horizonte da capital mexicana. Não se sabe de onde Che tirou o gosto pelo montanhismo, se foi em suas viagens pela América Latina, quando atravessou os Andes diversas vezes, ou se foi em sua infância na cidade de Alta Gracia, no interior da Província de Córdoba, onde fica uma bela cadeia de montanhas de altitude mais baixa que se assemelha à Serra da Mantiqueira.

Vulcão Popocatépetl

Com 5426 metros de altitude o Vulcão Popocatépetl é a segunda montanha mais alta do México. Hoje, tal montanha encontra-se fechada para escalada, pois apresenta muita atividade, o que é um risco aos montanhistas. Porém, na década de 50, sua atividade não representava tantos riscos, apenas a grande altitude.

Erneste Guevara entre amigos mexicanos na escalada do Vulcão Popocatépetl. Fonte: cumbresmountainmagazine

Como é de conhecimento, Ernesto Guevara era asmático então escalar uma montanha de grande altitude era duplamente difícil para ele. Em uma carta para sua mãe, o “Che”, relatou uma das tentativas de escalar o vulcão, no dia 20 de Julho de 1955, e ainda confirma sua expectativa de prosseguir em suas atividades montanhísticas, pretendendo escalar o Pico Orizaba, que é a montanha mais alta do México com 5636 metros:

Eu peguei Popo de assalto, mas apesar de muito heroísmo, não consegui chegar ao topo. Eu estava pronto para morrer por isso, mas meu parceiro cubano de escalada me assustou porque dois dedos do pé congelaram … Passamos seis horas lutando contra a neve que nos enterrava até a cintura, e com os pés totalmente encharcados por falta do equipamento adequado.

O guia se perdeu na névoa que margeia uma fenda e ficamos exaustos com a neve fofa sem fim. Minhas pernas descongelaram no meu caminho para baixo, mas todo o meu rosto e pescoço estavam queimados. Como se tivesse passado um dia inteiro sob o sol de Mar del Plata. Neste momento tenho um rosto que parece uma cópia do Frankestein entre a vaselina que uso e o soro que sai das bolhas que se formaram. Além disso, minha língua está na mesma condição porque eu comi neve … “

Os cubanos não vão subir novamente. Mas quando reúno os dólares necessários para fazer isso, volto para Popo. Sem falar que para setembro eu tenho o (pico) Orizaba”.

Vulcão Popocatépetl na década de 1960. Fonte: cumbresmountainmagazine

Nesta época Ernesto já tinha contato com imigrantes cubanos, alguns refugiados do regime autoritário de Fulgêncio Batista, como Raul Castro, que apresentou o jovem médico argentino à Fidel Castro, encontro este que deu origem ao plano de invasão de Cuba e a revolução comunista na pequena ilha caribenha que se iniciou no dia 25 de novembro de 1956.

O esforço sobre humano de Ernesto em tentar escalar o Popocatépetl chamou a atenção dos irmãos revolucionários cubanos, pois mesmo sofrendo com falta de ar por conta da asma, o Che voltou no próximo final de semana a tentar o cume. Pelo menos esta foi a história que Fidel Castro contou para o jornalista Ignacio Ramonet, publicada no livro Cem horas com Fidel, até então uma das poucas publicações que conta a história de Guevara no vulcão mexicano, mas que afirmava que o asmático apenas tentara repetidas vezes sem sucesso, o que não é fato.

Foi nesta época, através da amizade com cubanos e do guatemalteco Antonio “Ñico” López, entre 1954 e 1955 que Ernesto Guevara recebeu o apelido de “Che”, ou “tchê” em português, que é um vício de linguagem gaúcho, tanto na Argentina, quanto no Rio Grande do Sul e Uruguai.

A escalada

Por intermédio do médico David Mitrani, do Instituto de Cardiologia, Ernesto conheceu León Bessudo, membro fundador do Clube Alpino Universidad e médico que estava fazendo pesquisa no mesmo laboratório em que “Che” trabalhava. Os dois conversaram sobre montanhismo e neste bate papo, Ernesto ofereceu um chimarrão ao montanhista mexicano e mostrou as fotos de sua mal sucedida expedição.

Ernesto Guevara na ascensão ao cume do Vulcão Popocatépetl. Fonte: cumbresmountainmagazine

Bessudo reconheceu erros de estratégia e equipamentos e o convidou para fazer parte de uma expedição que aconteceria no dia 12 de outubro sob a condição que Ernesto deveria seguir algumas recomendações, dentre elas de seguir o ritmo do grupo. Desta feita, o médico mexicano conseguiu a permissão para realizar a ascensão e foi o guia de Guevara.

Ainda vivo, León Bessudo afirma que Ernesto fez a ascensão muito bem, tanto que ele nem suspeitou que o argentino era asmático, mas disse que teve que puxar o argentino pela corda diversas vezes. Ele conta que Guevara ficou muito feliz no cume, tirou uma bandeira da Argentina e deixou ficada na neve no topo do Popocatépetl.

Após a bem sucedida expedição à segunda montanha mais alta do México, Ernesto interrompeu seus planos de montanha. Não há registros se chegou a tentar o Pico Orizaba e começou a se aproximar mais e mais dos irmãos Castro para um ano depois iniciar a revolução cubana que o imortalizou como o Che Guevara.

VEJA MAIS: Matéria no Cumbres Mountain Magazine

Compartilhar

Sobre o autor

Pedro Hauck - Equipe AM

Pedro Hauck é montanhista e escalador desde 1998. Natural de Itatiba -SP, reside atualmente em Curitiba-PR. Pedro gosta de escaladas clássicas e também de montanhismo de altitude, já tendo escalado algumas das mais altas dos Andes. É geógrafo, mestre em Geografia Física e atualmente faz doutorado em Geologia ambiental. Visite o Blog de Pedro em www.pedrohauck.net. Siga ele no Instagram @pehauck

3 Comentários

  1. Avatar
    Eduardo Prestes em

    Pena que não morreu nas montanhas, muitas vidas teriam sido salvas. E quem sabe Cuba não seria essa ditadura bizarra e miserável, que escraviza sua população até os dias atuais… Um ser humano lamentável, capaz de afirmar com orgulho na Assembléia da ONU: “fuzilamos, e continuaremos a fuzilar”. Seu maior legado foram uma tirania comunista e incontáveis assassinatos.

  2. Avatar
    Eduardo Prestes em

    Interessante como registro histórico. Mas pena que Guevara não morreu nas montanhas, muitas vidas teriam sido salvas. E quem sabe Cuba não seria essa ditadura bizarra e miserável, que escraviza sua população até os dias atuais… Um ser humano lamentável, capaz de afirmar com orgulho na Assembléia da ONU: “fuzilamos, e continuaremos a fuzilar”. Seu maior legado foram uma tirania comunista e incontáveis assassinatos.

  3. Avatar

    Fala Pedro,
    Parabéns pelo belo texto.
    Independentemente de concordar em não com a atuação do protagonista em outras áreas, certamente essa escalada foi um feito em matéria de superação pessoal.
    Abraço e continue o bom trabalho!

Deixe seu comentário