Carnaval 40º_ Final

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Planejamos acampar ali justamente para que os três que faziam a travessia pela primeira vez – Hilton, Jurandir e Leandro – pudessem apreciar com calma o trecho mais bonito e perigoso do alto curso do Rio Mãe Catira. O Hilton pede dez minutos para tratar de assuntos pessoais e acaba por nos expulsar daquele santuário antes da hora. Descemos em direção às nascentes do Rio Mãe Catira conscientes de caminhar por ele nas próximas quatro horas antes de finalmente poder deitar o esqueleto no chão plano. A encosta inicia muito inclinada, suja e úmida, mas bastante fresca e livre das mutucas, depois começa a verter água e recebe pequenos tributários. Aos poucos vai se alargando e há lugares em que toda a água some para reaparecer somente muito à frente. Com maior fluxo e profundidade, também as pedras ficam mais lisas e as botas acabam por mergulhar dentro d”água. Quando os pés já chafurdam dentro das botas pouco se liga para as composturas e se anda mais relaxado.

 
Mas andar dentro do rio enche logo o saco e faço consultas constantes às medições do GPS do Paulo que insiste em fornecer respostas desagradáveis até que mandei jogar aquela porcaria fora. Por aquele tipo de leitura não valia o sacrifício de carregá-lo. O rio torna-se largo, raso e monótono, com muitas árvores tombadas e montes de entulho a desviar, escalar ou simplesmente arrebentar. A tarde se esvaia naquele interminável leito de pedras lisas com a água a cantar a mesma ladainha.
    
Finalmente alcançamos o acampamento dos palmiteiros que estava uma bagunça, com lixo espalhado por toda a parte, lona rasgada e cordas desatadas. Há muito tempo o lugar não recebe inquilinos e precisamos fazer a faxina.  Cata e empilha lixo, esvazia panelas com água apodrecida, lava o encerado plástico no rio, varre as folhas mortas do chão, expulsa aranhas, baratas e percevejos, estica a cobertura e finalmente destrinchamos as mochilas e armamos as barracas. O Moisés preferiu bivacar usando seu novo abrigo, o Paulo montou sua barraca egoísta e eu fiquei feliz em dividir a barraca com o Hilton debaixo da cobertura de lona.
   
O calor estava insuportável mesmo a pouca distância do rio e na hora do pernilongo foi um deus nos acuda, mas tudo foi se ajeitando a contento. Deu pra tomar um bom banho de rio com sabonete e shampoo gentilmente cedidos pelo Paulo e quando voltei do rio, o Hilton já providenciava o jantar. Começou fritando duas cabeças de alho em óleo de oliva e no caldo despejou uma boa quantidade de carne seca desfiada, acrescentando a seguir o arroz. Se isto tudo não bastasse, também o Moisés entrou nesta dança ascendendo um segundo fogareiro onde, numa frigideira, picou meia cabeça de alho que deixou dourar por alguns minutos antes de despejar as fatias de salame italiano para fritar. Garanto que as onças disputaram lugar nas encostas do Arapongas só pra sentir o cheirinho. Enquanto esperávamos o arroz chegar ao ponto, correu um tira gosto de queijo defumado regado a goles de conhaque.
   
Ao servir seu arroz carreteiro, o Hilton, ainda acrescentou ao prato generosa porção de batata palha e óleo de oliva extravirgem a gosto. Agradeci aos céus ter empurrado a feijoada enquanto passava mal porque sobrou este verdadeiro banquete para o dia seguinte quando recuperei o apetite, a moral e o humor. Disputamos até a limpeza das panelas com miolo de pão. Depois de alguns arrotos e outras tantas pilhérias, o cansaço foi tomando conta e o assunto terminando, com todo mundo se recolhendo a toca. O céu visível através das frestas, na copada das árvores, era uma massa branca tremulante, tal qual flashes de uma luz distante. Eram relâmpagos sem o som dos trovões que não desciam por estes vales.No Ibitiraquire deveria rolar uma festa de arromba e pouco depois algumas lufadas de vento varreram a floresta, derrubando folhas, pinhas e gravetos sobre as coberturas de lona. Ao primeiro som de metralhadora, o Paulo gritou;
-É chuva,…corra Moisés!

E o Moisés não esperou acontecer, passou a mão nos seus bagulhos e invadiu nossa barraca. O calor ali dentro chegou rapidamente ao insuportável e meia hora depois, como a chuva não veio o Moisés voltou para o conforto do seu bivaque até o raiar do dia.
   
Manhã feliz! Acordar neste bosque com os raios do sol nascente se infiltrando pelo teto da floresta e o rio marulhando suavemente a poucos metros é privilégio de apenas alguns escolhidos. Agradeço imensamente ser um deles. Depois de um cappuccino com bolo de chocolate, tratamos de montar as mochilas e arrumar o lugar para nossa partida. Dobramos as lonas, organizamos as panelas com as bocas para baixo e concentramos a montanha de lixo, abandonada pelos palmiteiros, numa pilha de meio metro no centro varrido da larga clareira, empapamos de benzina e zás. Tudo de combustível foi pro saco, latas perderam a tempera e o cromo, e na próxima vez que usarmos o lugar poderemos enterrar bem fundo estes detritos.
   
Duzentos metros abaixo, o rio entra no curto cânion despencando de uma cachoeira, as paredes laterais se elevam verticais e a água se comprime numa das margens e o rio se contorce, grita mais forte e depois de receber pela direita um afluente que desce das altas encostas ocidentais do Arapongas, se lança livre por trinta e cinco ou quarenta metros na Cachoeira da Santa. Na cabeceira da cachoeira abrimos uma embalagem de Ades sabor maçã que deixamos a noite toda esfriando dentro do rio especialmente para brindar este momento. A luz faz brilhar a floresta abaixo até as encostas do Morro Mãe Catira onde cruza a velha Estrada da Graciosa.
   
Abaixo da cachoeira o rio alarga e o sol banha as pedras acima da linha d"água com força total e o calor volta a incomodar, mas agora também reaparecem os imensos piscinões convidando para um mergulho refrescante nas águas límpidas. Convite sempre aceito com roupas e botas. De tchibuum em tchibumm chegamos ao Totem que na verdade nem mais existe, varrido por alguma cabeça d"água que levou até os sacos plásticos amarados à arvore pelos palmiteiros. Sobrevivente mesmo foram apenas três marcações de fita feitas pelo Mikael, mas só as primeiras porque as demais também a mata engoliu. Procuramos a trilha por uma meia hora e sempre retornávamos ao ponto de partida quando decidimos mandar a trilhas as favas. Tínhamos muito tempo e o rio ficava cada vez mais bonito e agradável. Além de que o Moisés e o Hilton ainda não conheciam a série de corredeiras, poções, piscinões e cachoeiras que o rio faria para percorrer este próximo trecho de desnível muito acentuado.
   
Só numa das maiores piscinas sobre uma laje, entre duas grandes quedas, passamos morgando ao sol mais de hora enquanto discutíamos as vantagens de continuar caminhando contra as desvantagens de ficar vagabundeando a tarde toda. Convencidos de que no alto da serra encontraríamos água de coco gelada e pastel de carne com pimenta nos colocou novamente em marcha, mas o que realmente pesou favorável nesta conta foi a esperança de nos livrar do budum de sovaco que emanava da camiseta do Hilton.

Saímos do rio e a trilha virou uma fornalha com o calor emanando das entranhas da terra. Não demorou em novamente o suor escorrer pelas faces, inundar os olhos e pingar da ponta do nariz. Programamos uma parada em cada cruzo de riacho e como verdadeiros marrecos nos contorcíamos até em poça de lama. Com o radiador espumando chegamos ao último regato antes da estrada e combinamos ficar ali, mergulhados até o pescoço, esperando a testa azular de frio antes do último esticão.
   
Ao despontar na Estrada da Graciosa partimos para o abraço junto ao Marco 22 e depois iniciamos a disputa por espaço na rodovia sem acostamento com uma interminável fila de carros que subia a serra e outra que descia. Lá pelas tantas passa um gordão dirigindo, sem camisa, uma Kombi cheia de outros balofos. Joga na mata a lata de cerveja e num só arroto grita olhando diretamente para mim:
    – Aí seu bobão!
   
Ou foi bundão? Talvez cagão? Tanto faz, o fato é que nos disse na cara o que pensava ao ver quatro trogloditas sujos e maltrapilhos saindo do mato, suando as bicas e carregados feito bestas. No quiosque de Vista Engenheiro Lacerda uma velhinha virou-se lentamente e visivelmente comovida ainda nos disse:
    – Ohhh, coitadinhos!

Em Engenheiro Lacerda tinha gente saindo pelo ladrão. Fila pra comprar coco verde, fila pra cerveja, fila pro banheiro, fila pro caldo de cana, fila pra comprar a ficha, fila para olhar a paisagem, fila para sentar no meio-fio, fila para estacionar e fila para ir embora. Sete ou oito microônibus de turismo, vinte ou mais carros estacionados, alguns saindo e outro tanto querendo entrar. Buzina e música caipira. Nem imagino porque todo caipira acha que todo mundo gosta de música caipira. Gente rindo, reclamando e cuspindo. E todo mundo se divertindo adoidado.

Minha primeira reação foi defensiva e só pensei em voltar correndo pro mato, mas a segunda foi mais ofensiva e desejei ardentemente sacar o facão da mochila, abrir uma estrada por cima duma pilha de cadáveres decepados enquanto a multidão se dispersava aos berros, atirando-se em pânico para o precipício. Algo do tipo “Massacre da Motoserra”. E por fim, vencidos pela triste realidade, só nos restaram bater em retirada e caminhar mais um quilômetro debaixo do sol para, longe desta muvuca, esperar a Bêre nos resgatar.

Fotos de Paulo Marinho

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Sobre o autor

Julio Fiori - Equipe AM

Julio Cesar Fiori é Arquiteto e Urbanista formado pela PUC-PR em 1982 e pratica montanhismo desde 1980. Autor do livro "Caminhos Coloniais da Serra do Mar", é grande conhecedor das histórias e das montanhas do Paraná.

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