Expedição Garwhal – Himalaias 2010

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Entre os dias 10 de Maio e 15 de Junho, a Daniela e eu (Paulo), estivemos na India a tentar subir aos cucurutos das montanhas que se deixavam enganar!


Por Paulo Roxo

Entre algumas tentativas e aventuras lá conseguimos concretizar duas ascensões inéditas a dois cumes absolutamente esquecidos no tempo… e no espaço, pelo menos do nosso mapa, porque os picos que escalámos nem sequer lá figuram!

Esta é a historia do EKDANT e do KARTIK, com 6100 e 5115 metros, respectivamente.
Como se trata de uma historia com várias aventuras e detalhes, resolvemos separar o relato em três partes: a aproximação, a ascensão do 6000 que julgámos virgem e a escalada “super-hiper-ligeira” do “Pico pequeno”, que afinal tivemos direito a baptizar.

Desta maneira, aqui seguem em primeira mão (sem pompa nem circunstância) as notas iniciais da expedição.

DE ESPIRITO LIVRE!

Chaukamba, cujo nome significa “Quatro pilares”, tem 4 cumes. O mais alto é o da direita com mais de 7000 metros e nunca foi escalado por esta lado (face leste).

Desta vez decidimos tentar visitar uma área desconhecida da grande maioria.

Vários meses de pesquisa levaram-nos finalmente a um ponto do mundo onde ainda é possível sentir as mesmas sensações que os antigos exploradores sentiram. Um local onde a Natureza permanece no seu estado original, incólume, onde os vales continuam a esconder os seus mistérios, um território de montanhas intocadas, de neves eternas e barreiras de gelo suspensas, montanhas não domesticadas que conservam o seu caracter mais selvagem. Monumentos geológicos cuja crueza se mantêm desde o principio dos tempos.

Algumas destas montanhas nem sequer figuram nos poucos mapas existentes sobre a área. São pontos que permanecem como “Blank on the map”.

Estes três cumes de uma estética flagrante são visiveis algumas horas depois de abandonar Mana, a ultima povoação. Têm mais de 5000 metros, as possiveis vias são mais que óbvias e estão possivelmente virgens.

A Daniela e eu partimos no passado dia 10 de Maio para o Oriente, em direcção à India. Saímos com um destino definido mas de mente aberta relativamente aos desafios que se nos iriam deparar. Sabíamos que a viagem nos levaria aos Himalaias, mais precisamente à cordilheira de Garwhal, situada a Oeste do Nepal.

Tínhamos uma ideia da montanha que queríamos escalar, um pico com 6257 metros chamado Parvati Parvat, que permanecia virgem. No entanto, tínhamos claro que o plano teria de ser flexível, extremamente flexível.

As informações sobre a área eram bastante escassas mas, este aparente contratempo constituía, na verdade, uma motivação acrescida.

Buscávamos uma expedição de exploração e descoberta e o que encontrámos foi exactamente esse tipo de aventura.

Iríamos de ESPIRITO LIVRE.

O templo sagrado de Laxmi, em Delhi. A religião Hindu alberga milhares de deuses. A sua história é extremamente rica. Aprendemos algumas coisas da mitologia hindu que daria uma longa historia por si só…

Depois de uma viagem de dois dias de jipe com partida de Delhi, por estradas suicidas que sinuosa e vagarosamente vão atravessando variados cenários montanhosos, chegámos a Joshimat, povoação estratégica encaixada numa vertente inclinada, ponto de passagem de peregrinos Hindus, centro nevrálgico militar e local de quebra-cabeças burocrático para alpinistas que desejam visitar a cordilheira anexa.

Antes de Joshimat, passamos uma noite em Haridwar. Cidade sagrada, onde os fiéis prestam o culto aos seus deuses, banhando-se nas águas do rio Ganges. Estas cerimónias realizam-se TODOS os dias do ano e acolhem milhares de pessoas.

No dia seguinte, Joshimat. Pesadelo burocrático para alpinistas, local de transição e descanso para os Sadus, nas suas eternas caminhadas em busca do Nirvana.

Durante uma reunião de contornos anedóticos, protagonizada pelos membros da expedição (nós), pelo nosso oficial de enlace (Gajendra – “Gaiju”, para os amigos) e um Major de cavalaria do exército Indiano, todos sentados diante de uma secretária, onde fumegavam quatro copos de chá com leite, o meu cérebro não parava de se questionar acerca do propósito de tanto protocolo. Após duas longas horas de “meeting”, saímos das instalações militares com a promessa de que a nossa expedição iria prosseguir… “After a couple of days!” – comunicou-nos um Coronel com um sorriso de satisfação, pelo dever cumprido.

“Depois de alguns dias?!” – balbuciou uma Daniela surpreendida, sem conseguir conter o aumento do tom de voz.

““Mas, nós não temos “alguns dias”!””

Uma chamada telefónica, tarde e a más horas para o I.M.F. (Indian Mountaneering Foundation) – eram as onze da noite – pedindo ao seu presidente que intercedesse no sentido de desbloquear a situação, deu os seus frutos.

I.M.F. Headquarters (Delhi). Por aqui passam todas as expedições que visitam os Himalaias Indianos. Aqui se pagam as autorizações para escalar essas montanhas. Aqui começa a burocracia. Na foto a Daniela com Raja, o dono da agência que contratámos para organizar a logística. Sim, aquilo lá atrás é uma parede de escalada… e das grandes!

No dia seguinte, por volta do meio dia, tivemos carta verde para terminar o ultimo troço de estrada, entre Joshimat e Mana, ultimo povoado habitado e para prosseguir com a nossa expedição.

Foi com enorme alívio que iniciámos a caminhada de aproximação.

As montanhas impressionantes sucedem-se. Desta nem me recordo do nome e está muito provavelmente por escalar!

A divisória de glaciares. O “nosso” é o da esquerda.

Paredes que nunca viram o magnésio! Lá atrás um seis mil.
Big… wall!

Botas de treking nos pés, bastões de caminhada nas mãos, sentiamo-nos finalmente livres das amarras da civilização. Partíamos de vento em popa em direcção a uma nova aventura.

“Please, check your bags, because the porters are going down. This is Base camp!” – dizia-nos Raja, o dono da agência que contratámos para nos organizar a logística até ao campo base.

Raja era também um alpinista que gostava de expedições ligeiras a picos esquecidos. Uma forma de escalar montanhas bastante atípica da grande maioria das expedições nacionais Indianas, que costumam utilizar grandes meios humanos e materiais em verdadeiros assaltos de submissão. São frequentes as equipas com 18 e 20 membros, bastantes Sherpas e rolos e rolos de cordas fixas.

Este era o segundo dia do treking de aproximação e repousávamos um pouco das várias horas de caminhada através do vale do glaciar de satophant, incrivelmente verde e rodeado por montanhas magnificas.

“O quê?! Mas, isto não é o campo previsto!” – Exclamei, quase engolindo de uma vez a bolacha que acabara de levar à boca.

Raja fez-me um olhar confuso. Ele nunca tinha estado nesta parte da cordilheira. O oficial de enlace tampouco. Mas, o nosso mapa e fotos do “Googleearth” (um recurso moderno, deveras útil em certas ocasiões!) não se equivocavam. O local onde nos encontrávamos não correspondia ao local combinado.

Suspeitámos que os carregadores nos queriam enganar. Quando confrontados, as expressões dos carregadores denunciavam que o seu ardil fora desmascarado. Rapidamente puseram-se de novo a caminho.

Os carregadores.

A Daniela, feliz no seu elemento.

Um momento de descanso, quase a chegar ao campo base.

Constituíamos um grupo de 22 pessoas. Quatro carregadores tinham sido contratados para a Daniela e para mim. Gaiju, o nosso oficial de enlace teve direito a dois carregadores. O resto do “staff” da expedição estava constituído pelo Indira, o nosso cozinheiro (que cedo descobrimos ser um excelente cozinheiro) e com ele vinha o grosso dos carregadores que transportavam toda a logística, entre tendas, utensílios de cozinha e comida, necessários para sobreviver mais de vinte dias nas montanhas.

Carregadores.

Acompanhavam-nos o Raja e o Tendup Sherpa. Depois de instalado o campo base o plano deste par consistia em voltar a descer o vale e explorar um dos vales opostos (Panpatia glacier). Raja respeitava assim uma das nossas premissas expressas ainda em Portugal, quando a Daniela negociava os preços, via net: “Dentro do possível, não estamos dispostos a escalar com várias pessoas. Desejamos funcionar como cordada de dois e, pelo menos nas vias que vamos tentar, queremos estar sós.” Desta forma, que esperávamos não ser entendida como uma antipatia, tentávamos salvaguardar que o oficial de enlace (que todavia não conhecíamos pessoalmente) não se impusesse na nossa cordada.

O campo base foi instalado, desta vez, no local correcto. Olhávamos em redor incrédulos. Majna camp era um estereótipo convertido em realidade.

O campo base (Majna camp 4200m) SÓ NOSSO! Á direita, a tenda cozinha, logo a seguir a tenda vermelha é do oficial de ligação, a tenda verde claro é a tenda “messe” e no extremo esquerdo a tenda dos anti-sociais (a nossa)!

Uma perspectiva desde o campo base com o Balakun (6471m) em evidencia… sim é um paraíso de boulder!

O glaciar de Satophant tardou uns bons milhares de anos a fabricar a moreia onde agora pousavam as tendas. Em épocas longínquas, o terreno quebrado e tortuoso do glaciar deu lugar a um prado verde, abrigado dos ventos fortes das montanhas e atravessado por um rio de águas transparentes. Era um local saído directamente da imaginação de um pintor. Não poderíamos desejar um sítio melhor para descansar o corpo e a mente das emoções vividas durante os seguintes dias.

A desfrutar do campo base. Os picos nevados em cima tem entre 5800m e 5900m. O da direita, o mais alto, permanece virgem. O pico da esquerda foi escalado durante a nossa expedição pelo Raja e o Tendup Sherpa, vindos do vale oposto.

Detalhe do pilar que conduz ao cume do Chaukamba III com 6900m, para o qual tinhamos autorização mas, que nunca tivemos oportunidade de tentar. Diga-se de passagem e sendo sinceros também não vimos nenhuma via para os nossos dentes! Permanece virgem.

Durante meses, sonhámos em casa, muitas vezes em frente ao monitor do computador, observando avidamente as fotografias que íamos descobrindo. Agora, já podíamos sonhar acordados, à nossa frente já não existiam fotografias. Realmente, tínhamos as montanhas. Eram reais e, finalmente, estavam ao alcance das nossas mãos.

Grande avalanche no Balakun. Por vezes a montanha mostra os seus dentes.

A “enorme” equipa da expedição, em foto de familia no campo base. A Daniela, Indira (cozinheiro), Gaiju (oficial de enlace) e “Moi meme”. Ah! E por cima da minha cabeça o espectacular Narayan Parbat com 5900m e talvez ainda… já adivinharam!

Os nossos simpáticos companheiros de campo base. Indira (o super-cozinheiro) e o Gaiju (o contador de historias).

Continua…

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Sobre o autor

Daniela e Paulo - Colunistas

Daniela Teixeira e Paulo Roxo é uma dupla portuguesa que pratica escalada (rocha, gelo e mista) e alpinismo. O que mais gostam? Explorar, abrir vias! A Daniela tem cerca de 10 anos de experiência nestas andanças e o Paulo cerca de 25. A sua melhor aventura juntos foi em 2010, onde na cordilheira de Garhwal (India - Himalaias), abriram uma via nova em estilo alpino puro na face norte da montanha Ekdante (6100m) e escalaram uma montanha virgem que nomearam de Kartik (5115m), também em estilo alpino puro. Daniela foi a primeira e única portuguesa a escalar um 8000 (Cho Oyu). O Paulo é o português com mais vias abertas (mais de 600 vias abertas, entre rocha, gelo e mistas). Daniela é geóloga e Paulo faz trabalhos verticais. Eles compartilham suas experiências do velho mundo e dos Himalaias no AltaMontanha.com desde 2008. Ambos também editam o blog Rocha Podre, Pedra Dura (rppd.blogspot.com.br)

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