Homens que amam montanhas

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Com os dias nublados, no velho “chove e não molha” do feriado de finados (02/11), aproveitei para ficar mais perto da família, curtir um pouco do fogão à lenha, boa prosa e colocar a leitura em dia. Com as crianças brincando no slackline e correndo pela casa deixando a avó com mais alguns cabelos brancos, me perdi em algumas páginas do novo livro de Paulo Coelho, Manuscrito encontrado em Accra.

A irregularidade dos picos das montanhas que nos cercam é o que a faz imponentes. Se a mão do homem tentasse dar a mesma forma a todas, já não inspirariam mais respeito”.

 
Com estas poucas linhas a mente vagueia pelas agulhas do Cerro Catedral, passa pelo Cerro Torre e paira sobre Los Arenales. Como não respeitar e querer estar cada vez mais perto destes caprichos de Deus?
 
Nas páginas deste livro, me deparei com outras linhas que contradiziam o que meu velho pai pregava e que fiz questão de não obedecer. Para meu pai, era preciso trabalhar muito, estudar muito e só depois de aposentado e com alguma reserva de dinheiro aproveitar a vida. Primeiro o trabalho, depois o lazer.
 
Há dois tipos de trabalho que lhe permitem sobreviver com dignidade, mas cabe escolher o melhor deles e se adaptar as consequências desta decisão.
 
O primeiro é aquele feito apenas por obrigação e para ganhar o pão de cada dia. Neste caso, as pessoas estão apenas vendendo seu tempo, sem entender que jamais poderão comprá-lo de volta. Passam a existência inteira sonhando com o dia em que poderão finalmente descansar. Quando esse dia chega, já estão velhos demais para desfrutar o que a vida pode oferecer. Essas pessoas jamais assumem a responsabilidade por seus atos. Dizem: “Não tenho escolha”.
 
O segundo trabalho chamamos de oferenda. Porque podemos ter duas pessoas cozinhando a mesma comida e usando exatamente os mesmos ingredientes; mas uma delas colocou amor no que fazia, enquanto a outra procurava apenas alimentar-se. O resultado será completamente diferente, embora o amor não possa ser visto nem colocado em uma balança. 
 
Se fizermos com amor nosso trabalho, nos sobra tempo para admirar os pequenos detalhes do mundo ao nosso redor e conciliar esta alegria com metas de vida. Planejando com sabedoria e amor, podemos ir onde nossa alma quer nos levar, mesmo que seja algumas vezes por ano, dentro ou fora de nossas fronteiras geográficas. 
 
Sorte de quem pode fazer da montanha seu sustento e oferenda.
 
Talvez não consiga falar por todos, mas talvez consiga mostrar como este comportamento se reflete nos esportistas outdoors, puxando a sardinha para minha brasa; homens que amam montanhas.
 
Escaladores são livres e felizes, mas não gostam de estar só. Montanhistas são estranhos, muitas vezes calados e solitários, mas não gostam de viver só. Como diria Gandhi; não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho.
 
Homens de verdade são estranhos e honestos, gostam da vida simples e não se importam com o mundo ditando que devem comer, vestir ou ler. Homens escaladores, montanhistas ou caminhantes são libertos das lojas, vitrines e novos seriados de TV, mas respeitam quem os escolhem e até se divertem com isso. Estes estranhos da espécie humana são calados, sensatos, orgulhosos e de uma auto-estima acima do normal, que as vezes se confundem com a arrogância.
 
Estes seres têm as mãos calejadas da vida a céu aberto, mas o coração amolecido pela beleza das montanhas que os fazem vestirem malha azul e capa vermelha. 
 
Oriundos de um planeta chamado Vida, estes alienígenas são adotados por nosso mundo, educados como os outros meninos e conhecem o amor de uma família tradicional. No momento certo, eles descobrem que são diferentes e precisam partir. Eles conhecem a cidade grande, as pessoas boas e ruins, o mundo moderno da tecnologia que não para de evoluir, o valor do dinheiro e a frustração do aço e concreto que o abraça forte quase sufocante. 
 
Por detrás de seus óculos largos escondem a verdade de sua origem não convencional e simplista, talvez por medo dessa gente que corre amontoada pelas ruas sem ao menos notar a brisa que vem das montanhas, estas que ao longe cercam os prédios cinzentos que cortam ruas e avenidas.
 
Assim como o famoso filho de Krypton, Kal-El (Joe Shuster e Jerry Siegel), estes homens procuram fazer o melhor e muitas vezes precisam deixar as pessoas que amam por um tempo para fazer o que é preciso, chegar onde sua alma manda ir. Eles partem em busca de seus sonhos, mas a cada dia que estão fora, pensam em voltar seguro para o lar que os ama.
 
Não escalamos por fotos em revistas, internet, dinheiro ou heroísmo, homens de verdade escalam montanhas por satisfação pessoal, desafio próprio, amor à natureza e respeito à geografia que os abraça.
 
Montanhistas, escaladores ou caminhantes, todos querem estar longe do caos e perto de si mesmo, pelo menos algumas vezes no ano. A diferença é que uns precisam de mais tempo para atingir suas metas do que outros. Ubatuba, Patagônia, Santiago de Compostela ou Lhotse, cada homem tem sua meta e o desafio é o tempo. O relógio não para quando se vive todos os dias como se fosse o último.
 
Quando a luta contra o tempo é árdua, o apoio é mais que preciso nesta hora. Estar sozinho faz o tempo passar mais rápido e isso nem sempre é bom. Viajar é preciso, mas saber voltar e querer voltar é fundamental para felicidade plena. Não existe felicidade completa se não compartilhada, ou melhor, usando a frase de Christopher McCandless (Alexander Supertramp) no livro de John Krakauer, Na natureza selvagem; 
 
"A felicidade só é real quando compartilhada"
 
É sabido por estes homens que mesmo fora das montanhas existe um lar e pessoas que o amam. E disse o SENHOR Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora idônea para ele (Gênesis 2:18)
 
Se ele tá dizendo, tá dizendo!
 
Força sempre, pé na estrada e boas escaladas!
Atila Barros
 
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Sobre o autor

Atila Barros - Colunista

Atila Barros nasceu no Rio de Janeiro, e vive em Minas Gerais, cidade que adotou como sua casa. Escalador (Montanhista) há 12 anos, é apaixonado pelo esporte outdoor. Ele mantem o portal Rocha e Gelo (www.montanha.bio.br)

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