Louco é o Padre…

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Assim se dizia na colônia em que fui criado – Louco é o Padre que veste a camisa por cima do paletó – comparando a batina litúrgica do sacerdote com os trajes domingueiros dos fiéis.


           Passei o último fim de semana embrenhado no mato, junto com o Paulo Marinho, entre Penha e Navegantes – Santa Catarina – a procura do Padre Voador. Não sou do tipo que dá sermão, muito pelo contrário, sei das minhas excentricidades e incoerências. Também aprecio as pessoas que concordam com minhas idéias, mas tenho especial interesse pelas que discordam. Prezo por demais a diversidade de pensamento e valorizo o espírito aventureiro, mas não consigo entender a falta de lógica que muitas vezes toma conta da humanidade e depois de passar dois dias com os parentes e amigos do padre, analisar as circunstâncias e o equipamento recuperado do mar, sinto-me na obrigação de comentar o assunto.

 

            O Padre Adelir partiu de Paranaguá no domingo 20/abril/2008 depois de rezar uma missa para centenas de fiéis e colaboradores, diante da imprensa convocada especialmente para documentar o fato, com tempo péssimo – um temporal assustador – atado a 1000 balões de festa. Se não bastasse o ridículo da situação em si própria é assombroso o desprezo pela lógica em toda a seqüência de acontecimentos que se seguiram.

 

            Depois do sucesso nas duas experiências anteriores, o projeto não previa contratempos e o vento que deveria impulsionar os balões para o continente mudou de direção devido a tempestade e levou o padre para alto-mar. Começou a desmoronar o castelo de cartas, demonstrando a falta de conhecimento técnico para o planejamento do projeto e o despreparo psicológico para enfrentar as surpresas da aventura. Os erros de avaliação e de atitudes se sucederam em cascata.

 

            O projeto previa um recorde de permanência no ar e para isto se dobrou o número de balões, aos 500 usados anteriormente somaram-se outros 500. A simples observação indica que isto apenas aumentaria a altitude alcançada já que a estabilidade depende de outros fatores bem mais complexos como a permeabilidade dos balões – não certificados para vôo – e do comportamento físico do gás hélio diante das mudanças de temperatura e densidade da atmosfera.  A lógica novamente se impôs e em 10 minutos o Padre Adelir chegava aos 6000 metros de altitude com uma temperatura estimada de 15 graus negativos. Qualquer alpinista minimamente informado sabe que a cada aumento de 500 metros na altitude equivale a uma dose de Martini, então é de se supor que o padre estava de pileque já na primeira meia hora de vôo. Também é do conhecimento geral que pilhas e baterias se descarregam rapidamente quando expostas a baixas temperaturas e poucas horas depois o telefone e o GPS começaram a falhar.

 

            Quem decola a beira mar sem nenhuma condição de dirigibilidade deve no mínimo ter conhecimento da dinâmica das correntes de vento e estar preparado para a eventualidade de ser arrastado na direção contrária ao previsto, as chances são de 50%. O padre conhecia apenas as condições de tempo bom, mas partiu debaixo de uma tempestade, com certeza pressionado pelo circo que ele próprio montou. Platéias são perigosas e egos inflados são muito mais. É preciso mais coragem para abortar uma escalada do que para iniciá-la, prosseguir sem visibilidade durante uma tempestade não é aventura nem determinação, é suicídio.

 

            Duas horas e meia depois o padre estava a 50 Km mar adentro – pelo menos é o que acreditava – e os bombeiros de Paranaguá foram acionados, mas não tomaram qualquer providência. Nós montanhistas sabemos que durante as tempestades não devemos esperar nenhum socorro, mas ficou notório que não havia grupo de apoio em mar e todas as informações precisavam vir da vítima que se pressupõe estava desorientada, apavorada e sem visibilidade. Não possuía ao menos um localizador por satélite, destes que se coloca nas coleiras de cachorro.

 

            Próximo das 21:00 horas houve um último contato em que o padre informou estar a 100 metros de altitude se aproximando das luzes de uma cidade que ele acreditava ser São Francisco do Sul. Durante a madrugada foi encontrado um emaranhado de pouco mais de 100 balões na praia de uma enseada em frente ao Morro do Bugio nas proximidades de Penha e no outro dia mais uns duzentos balões ao largo da praia dos Ingleses na ilha de Florianópolis.

 

            Examinei detalhadamente estes achados. Os balões estavam amarrados individualmente a cordoletes e reunidos em feixes num pequeno mosquetão de aço que por sua vez também formavam novos feixes atados a uma corda provavelmente presa a uma cadeirinha de parapente. Os nós me eram totalmente desconhecidos, estavam frouxos e corriam com facilidade. Os cordoletes e cordas são brancos, de nylon, sem alma, destas que se compram em lojas de materiais de construção e as pontas estavam desfiadas, sem cauterização. As pontas que se prendiam a cadeirinha foram cortadas sob forte tensão e estavam totalmente desfiadas por uns 15 centímetros. Disseram-me que tudo isto estava envolto numa rede de malha bem fina, quase um véu.

 

            É presumível que tenha cortado estes feixes de balões para reduzir a altitude. Com menos sustentação só pode ter baixado proporcionalmente e os balões livres subido ainda mais até que a densidade interna se iguale a externa, mas porque caíram quase em seguida e vieram dar – meio murchos – na praia? O látex pode ter liberado o gás em função das mudanças de densidade e temperatura? Sabe-se que os ventos sopram em diferentes direções a cada extrato de altitude e que também impulsionam em velocidade diferente corpos com pesos diversos, então é perfeitamente aceitável que os balões sem carga tomaram direção e velocidade diversa aos com carga, o que torna altamente improvável que se encontre o padre nas proximidades de onde reapareceram estes balões.

 

            As 21:00 horas ele estava muito baixo pra quem algumas horas antes quase entrou em órbita a 50 Km da costa e agora estava também tão próximo de terra que via luzes de cidade. Se despencou nestas condições deveria ter aparecido em um ou dois dias boiando numa praia ainda atado aos 700 balões restantes ou à cadeirinha, mas nada mais foi encontrado.

 

            As buscas se concentraram no mar e nas praias por motivo óbvio, mas porque nas matas do Morro do Bugio ao Pontão da Galheta? Pasmem os amantes da lógica, mas foi uma visão de outro padre. Um adivinho com extensa ficha de adivinhações localizou o ponto exato nas encostas do morro; estava debaixo de árvores frondosas e nas proximidades de uma cascata com os pés ou as pernas quebradas. Fez um desenho bem detalhado da paisagem que pode representar qualquer morro ou montanha da serra do mar – do Espírito Santo ao norte do Rio Grande do Sul – e dá orientações por telefone – do tipo; quente ou frio – aos exploradores embrenhados no mato.

 

            O padre Adelir presidia a Pastoral Rodoviária destinada aos motoristas de caminhões que aos milhares perambulam pelo porto durante as safras e os voluntários desta busca na mata são em sua maioria auxiliares e colaboradores desta causa que ajudaram também no projeto dos balões e foram engrossar a platéia na decolagem. Entram no mato equipados com calça de brim, tênis e facão. Enquanto descansam cortam as raízes e descascam as árvores. Um deles ao escorregar agarrou-se no facão pelo gume e levou 16 pontos na palma da mão. Outro quase pisou numa jararaca de um metro e vinte e em seguida quando foi mostrá-la ao Paulo só não pisou novamente na mesma cobra por pura sorte. Esta gente está arriscando o pescoço naquele lugar e não tem canto que não fucem. Pergunto se o adivinho não deve ser enquadrado por homicídio culposo caso algum destes bons samaritanos se higienize com folhas de urtiga braba ou despenque numa grota?

 

            São movidos pela fé, mas percebi também um forte sentimento de culpa e aceitam estas provações como uma forma de remissão por pecados reais ou imaginários diretamente relacionados ao caso.

 

Apenas não entendo bem porque não acreditam na intuição ou percepção do padre quando julgou estar se aproximando de São Francisco do Sul. É uma rota e uma distância muito mais lógica e a baía de Babitonga tem infinitos meandros desertos, morros idênticos aos desenhados pelo adivinho, centenas de quilômetros quadrados desabitados entre o mar e o Monte Crista na ponta da Serra do Quiriri, além de ser um corredor natural dos ventos que penetram o interior do continente.

 

A fé e a lógica constroem mundos diferentes, os padres, a religião e os fiéis pertencem ao primeiro. A fé dá a certeza de remover as montanhas enquanto eu, na dúvida, apenas as escalo e não tenho o menor interesse em encarar esta discussão. Só tenho muito medo destes líderes com muita fé e toda a certeza de que estão totalmente certos. As multidões os adoram e os seguem pela fé sem ao menos pensar. As multidões não pensam, as multidões apenas se comovem. Hitler, Lenin, Stalin e Mao tinham toda a certeza do que era melhor para os outros. Mussolini nem tanto, mas pensava que podia enganar a todos. Nada relacionado diretamente ao padre, só à insensatez humana.

 

Fotos de Paulo Marinho

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Sobre o autor

Julio Fiori - Equipe AM

Julio Cesar Fiori é Arquiteto e Urbanista formado pela PUC-PR em 1982 e pratica montanhismo desde 1980. Autor do livro "Caminhos Coloniais da Serra do Mar", é grande conhecedor das histórias e das montanhas do Paraná.

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