Mercado de Aventura

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O capitalismo invadiu o mundo. E hoje, querendo ou não, fazemos parte disso.


Como já é sabido por muitas pessoas, ganho minha vida (ou
melhor, pago as contas) diretamente do meio do esporte outdoor, vinculado ao
setor administrativo da Território Mountain Shop. Antes trabalhando diretamente
nas lojas situadas em Curitiba, Estado do Paraná. Mais recentemente com minha
mudança para Belo Horizonte, continuei contribuindo mesmo à distância para o
novo site, já no ar. Porém, como em dezembro o bicho pega, larguei as Gerais e
parti para reforçar a equipe de vendas da Território Palladium, loja que
inauguramos neste ano, junto com o shopping.
O que para os menos informados poderia soar estranho. Uma
loja de montanha dentro de um shopping center. Teoricamente o povo freqüentador
de montanhas não é o mesmo do público de shopping. Porém a verdade é que trata-se
de uma tendência mundial no comércio, concentrar lojas em espaços privados,
buscando principalmente mais segurança e uma infinidade de atividades ao
público em geral.
 
Mas a grande sacada trata-se da mudança de público que
freqüenta lojas de montanha. Aqui e no mundo todo. Não se trata mera
especulação, são fatos comprovados numericamente em nossos levantamentos. Mais
de setenta por cento de nosso faturamento hoje provém não do montanhista que
compra equipamentos e sim do viajante comum, que passa longe das montanhas. São
pessoas de poder aquisitivo médio para elevado que buscam opções de roupas,
mochilas, calçados e acessórios adequados a suas viagens. São pessoas que
sacaram que um anoraque 3 em 1 é muito mais eficiente para proteção ao frio e
neve do que aquele sobretudo em Tweed da Burberys (o mesmo que George Mallory
usou em suas três investidas ao Monte Everest nos anos 20). É a pessoa que
entendeu que uma bota com membrana impermeável e transpirável não custa tão
caro assim e não serve apenas para um trekking ao Aconcágua. São produtos de
uso urbano, com design muitas vezes assinados por estilistas famosos do meio da
moda.
 
Porém, já trabalhando no meio da aventura há alguns anos é
inevitável entender também que além da maior procura por produtos com esse
padrão pelo viajante comum, podemos notar uma queda na venda de produtos
dedicados ao montanhismo propriamente dito. Se restringir mais ainda,
direcionando ao ramo da escalada, a situação aperta. E nesses tempos de
filosofar sobre a decadência da escalada, com o fechamento de ginásios de
escalada indoor, poucas conquistas de vias longas, campeonatos esvaziados, é
fácil medir isso pela queda nas vendas de itens específicos para escalada. Isso
sem falar que muita gente hoje parte pra escalada de blocos, onde a necessidade
de equipamentos é quase nula. Até ouvi recentemente o termo “arrota-grau”,
dirigido aos mocinhos bombados que adoram um boulder ou vias esportivas de
grande dificuldade e que têm atitude entre medíocre e arrogante, que em nada
pode ser considerada esportiva. Ainda bem que nem todos os mocinhos bombados se
encaixam nesse perfil.
 
Outro fator que influencia na queda das vendas de material
de escalada é o tal contrabando, em alguns casos descarado mesmo, com o uso de
listas de discussões na internet para oferecer material de escalada de
conhecida marca francesa. O consumidor, com ou sem razão, opta pelo
contrabandeado, porém mais barato. Afinal para quê nota fiscal, pagar imposto
não é mesmo? Já que todos lá em cima roubam, deixa nós ganhar uma
vantagenzinha, cerrrrrto?
 
E os lojistas que fiquem com a alta carga tributária,
pagando o mais que o dobro do salário de seus vendedores em encargos, e ainda
tendo fama de careiros, ladrões, “onde já se viu?”
 
A saída encontrada por muitos foi essa mesmo: partir para o
público viajante, que caga e anda para as tolas discussões sobre acesso a
trilhas proibidas no P.E. Marumbi e quer apenas se divertir nos cafés de Paris,
nos museus de Praga e gastar seu dinheiro honestamente.
 
Em São
Paulo, sempre à frente no que se refere a negócios, várias
lojas já se aperceberam disso e abriram suas lojas em shopping centers. Aqui em
Curitiba resolvemos tomar o mesmo rumo.
 
Mas reafirmo. Em minha modesta opinião, shopping center é
lugar de comprar! Não de passear com a família ou a namorada. Para isso existem
praias, fazendas, montanhas e motéis. Por outro lado, ainda bem que esse povo
não gosta tanto assim de montanha. É inevitável pensar em congestionamentos nas
trilhas, lixo pelos campos, fogueiras nas matas.
 
Cada um na sua. Melhor assim.

George Nas Nuvens é corredor e montanhista. Conta com o patrocínio de Território On Line e apoio de Deuter, Botas Nômade, Princeton Tec e Trilhas e Rumos.

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Sobre o autor

Redação - AM

Texto publicado pela própria redação do Portal.

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