Everest: Minha opinião sobre a polêmica das filas na montanha mais alta do mundo

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Nas ultimas semanas, uma foto com centenas de montanhistas enfileirados, lutando para ter um espaço para alcançar o cume da montanha mais alta do planeta repercutiu de maneira negativa, extrapolando a fronteira do meio do montanhismo e chegando à pessoas normais.

Não é de hoje que há problemas de superlotação de pessoas no Everest. A primeira “denuncia” ocorreu em 1996, no best seller “No Ar Rarefeito” de John Krakauer e de lá pra cá o problema só aumentou, porém este problema poucas vezes saiu do meio montanhístico e quando houve, não chegou a repercutir tanto.

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Famosa foto de Ralf Dujmovits sobre fila no Everest em 2012

Em 2012 o montanhista alemão Ralf Dujmovits fez uma série de fotografias das filas na montanha. Estas fotos, no entanto, não chegaram a causar tanto espanto, pois foram feitas de cima para baixo em um trecho da montanha não tão restrito. As fotos deste ano causam um estanhamento, pois a fila situa-se na Crista Sul da montanha, próxima ao cume Sul e escalão Hillary, num esporão de rocha e gelo rodeada de abismos em um ambiente extremo, num local onde nunca se imaginaria encontrar uma multidão. Neste ano, 819 pessoas fizeram cume no Everest!

Everest lotado em 2019. Foto de Nirmal Purja.

Tenzing Norgay no cume do Everest em 1953. Foto de Edmund Hillary.

A foto de Tenzing Norgay no cume do Everest em 1953 é um ícone da história da superação humana, aventura e liberdade. A foto de 2019, em nada consegue emanar estes sentimentos.

A superlotação de montanhas não é um problema apenas do Everest, mas sim de montanhas famosas. O Everest na realidade nem é a montanha mais frequentada do mundo, há diversas outras que recebe muito mais gente que ele, em geral montanhas famosas e icônicas. O Mont Blanc, montanha mais alta dos Alpes atualmente foi limitado em receber 264 pessoas por dia em seu cume. O Aconcagua, aqui pertinho de nós, recebeu 4989 visitantes na última temporada e alguns de seus acampamentos, como Plaza de Mulas, se transforma numa cidade durante a temporada. Já o Kilimanjaro, famosa montanha mais alta da África, é escalada por cerca de 50.000 pessoas todos os anos! Se você quer a paz e sossego nas montanhas, não são nestas que você vai procurar…

Mesmo com números muito menores que estes exemplos citados, no caso do Everest a superlotação é mais gritante pois estamos falando do teto do mundo, de um lugar extremo, é por isso que lá tem fila e nos demais exemplos não. Enquanto que nas outras montanhas citadas a temporada é mais abrangente e é possível fazer cume durante vários dias ao longo do ano, no Everest a janela de tempo para fazer cume é bem pequena, de apenas alguns dias entre o meio e o fim de Maio, durante a primavera e alguns poucos dias no outono, uma temporada que cada vez mais apresenta condições piores na montanha e por isso tem sido usada raras vezes.

Mesmo que em outras montanhas seja possível haver uma fila (que seria muito menor que a do Everest), nestas filas não haveria pessoas morrendo, pois a altitude do Everest é única. Você não pode permanecer muito tempo lá em cima. Fazer cume numa montanha de 8 mil metros é uma corrida contra o relógio e isso não combina com filas. Em 2019 a maioria das 819 pessoas que chegaram ao cume, chegaram em apenas 3 dias, daí a fila ser tão grande!

Já estive em muitas lugares naturais saturados de gente. Em Yosemite, não consegui escalar o Half Dome, pois o limite de pessoas permitido estava excedido por toda a temporada. Lá você precisa reservar pela internet seu lugar para acampar com meses de antecedência. Se chover ou se você mudar de planos, perde o lugar!

Não é preciso ir muito longe para enfrentar este problema. Basta ir ao Parque Nacional de Itatiaia num final de semana comum sem planejamento para não conseguir espaço para escalar as Agulhas Negras ou Prateleiras. Cada vez mais, as montanhas famosas estão mais lotadas de gente.

Não sou ninguém para falar das motivações pessoais que levam as pessoas a irem a uma montanha. No entanto é fácil de entender que a montanha mais alta é a que mais se destaca e são estas as que estão sempre em evidência, daí o fato de que tantas das montanhas que citei tem algum recorde de altitude, sendo a mais alta de uma cadeia de montanhas, de um país, de um continente ou do mundo. Estes números atraem gente que muitas vezes não estão interessadas na escalada em si, mas sim numa eventual promoção pessoal.

Muitas pessoas que hoje vão ao Everest, após atingir o cume, acabam nunca mais praticando o montanhismo, para sustentar esta afirmação, basta verificar a lista dos brasileiros que escalaram o Everest e ver que muitos ali nunca mais pisou numa montanha.

Claro que não há nada de errado querer escalar o Everest e não querer ser montanhista, mas para escalar a montanha mais alta do mundo você precisa estar preparado. Precisa antes escalar uma série de montanhas para ter experiência para ir para a montanha mais alta do mundo, além de ter preparo físico adequado.

Entretanto, da década de 1990 pra cá, as agências de montanhismo, das quais eu mesmo faço parte, facilitaram muito as ascensões em montanhas. No Nepal, há ainda um ingrediente a mais que permite que pessoas menos preparadas consigam sucesso: Os Sherpas!

Os Sherpas são povos das montanhas extremamente adaptados à grandes altitudes. Além desta vantagem genética por morarem nos vales no meio do Himalaia, eles são trabalhadores focados e muito fortes. Os Sherpas tem um cultura de cordialidade, dedicação e esforço. Com isso as expedições em montanhas por lá tem uma taxa de sucesso maior que, por exemplo, no Paquistão, onde estão as demais montanhas de 8 mil metros do mundo.

As agências oferecem todos os serviços indispensáveis para você escalar uma grande montanha. Eles te levam até a base, montam o acampamento, oferecem cozinheiros, fixam as rotas com cordas, montam as barracas nos acampamentos elevados, derretem neve para fazer água e te levam até o cume. Tudo isso com a mão de obra Sherpa.

O governo do Nepal cobra 11 mil dólares somente de permissão para você escalar o Everest, porém ninguém que vai pra lá paga só isso. As agências compram as permissões e te revendem com mais outros serviços. Os serviços básicos consistem na logística para você chegar no acampamento base, o acesso à barraca refeitório e alimentação na base e uma barraca por lá. Com o serviço básico, você é responsável por sua aclimatação, por transportar e fixar os acampamentos superiores, tecer a estratégia de cume e executá-la.

O preço médio de escalar o Everest com o básico é de 32 mil dólares.

Já o serviço completo inclui tudo o que o básico te oferece mais os acampamentos superiores montados com as refeições e um sherpa que te acompanha individualmente até o cume e garrafas de oxigênio. O preço de uma expedição completa nas agências mais baratas é de 40 mil dólares, o que é um preço muito barato diante de tanta estrutura e risco, podendo chegar até 100 mil dólares!

O problema é que muitas pessoas despreparadas se amparam completamente nos serviços completos, tornando-se dependentes delas. O certo seria a pessoa ter um mínimo de autonomia, mas contratar o serviço completo pela segurança. No entanto muita gente vê nestes serviços um atalho pra o cume. Estas pessoas não se preparam devidamente e vão para o Everest com experiência inadequada.

O que se viu na fila de 2019 foram as pessoas inexperientes andando devagar e o relevo escarpado impedindo a ultrapassagem dos mais preparados e mais rápidos, uma receita mortal se você estiver acima dos 8 mil metros.

Vi inúmeros comentários sobre a polêmica da fila do Everest com pessoas culpando o governo do Nepal ou as agências, mas a verdade é que o problema é o excesso de gente despreparada. Ao governo cabe regras para exigir um currículo mínimo para a pessoa tentar chegar ao topo do Everest e às agências só aceitar quem possui este currículo.

Acredito que o Everest continuará cheio de gente, pois é a montanha mais famosa do mundo. Mesmo se houver um nivelamento pelo curriculum de montanha, sempre haverá gente experiente o suficiente para escalar a montanha, mas não mais filas e não mais mortes por motivos banais.

Gente pouco experiente e expedições baratas foram um ingrediente mortal no Everest em 2019.

O autor apontando para o cume do Everest desde o cume do Lobuche East em Abril de 2019.

VEJA MAIS: Moeses Fiamoncini: A falta de experiência é o que mata no Everest!

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Sobre o autor

Pedro Hauck - Equipe AM

Pedro Hauck é montanhista e escalador desde 1998. Natural de Itatiba -SP, reside atualmente em Curitiba-PR. Pedro gosta de escaladas clássicas e também de montanhismo de altitude, já tendo escalado algumas das mais altas dos Andes. É geógrafo, mestre em Geografia Física e atualmente faz doutorado em Geologia ambiental. Visite o Blog de Pedro em www.pedrohauck.net. Siga ele no Instagram @pehauck

2 Comentários

  1. Avatar

    Sei lá Pedro!! Você está correto!! Não entendo nada disso mas, não podemos condenar ninguém pois fica contraditório para os escaladores falarem já que se beneficiam disso. Isso gera emprego para muita gente que é ligado a montanha como equipes, guias, jornalistas e etc.. e o principal os sherpas, onde essa situação por mais que seja ruim coloca comida no prato deles. Sei lá é polêmica mas está longe de ter um veredito. Lembro do Ueli Steck metendo malho mas aí você vai ver como foi a carreira dele, pra ele que teve inúmeros patrocinadores e escalava em um nível absurdo fica fácil falar isso mas, soa soberbo e injusto. Quantos escalaram o Everest que jamais poderíamos acreditar e quantos escaladores experientes inclusive ele sucumbiram lá. Muito bem escrito seu texto e como sou completamente leigo mas apaixonado pelo tema eu apenas dou razão para os sherpas que falam que a montanha é uma entidade viva e que ela decide o que acontece nela. Como podemos ver temos temporada de mais de 800 subidas e temporada como a de 2014 e 2015 em que ela não deixou muitos se aproximarem isso é mágico de ver e atrai pessoas de todo mundo. Ela é viva e seu humor se altera e ela conclama desde os menos experientes até um fenômeno da escalada como o Ueli!!! Parabéns pelo texto Pedro.

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