Parques Nordestinos

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Viajei nas férias de verão para o Ceará e, no caminho do litoral oeste, conheci três Parques Nacionais. Eles têm em comum certa proximidade e organização, tamanhos pequenos, climas tropicais e algumas vegetações parecidas, mas são de interesses bastante diferentes. O primeiro tem como principal atração uma caverna, o segundo contém rochas esculpidas pelo tempo e o terceiro é uma das mais badaladas praias do país.

Interior da Caverna, PN Ubajara, Ubajara, CE (Foto Divulgação)

Começo por Ubajara, até recentemente o menor PN brasileiro, antes que fosse ampliado para 6.300 ha. Você chegará lá com facilidade, sempre por asfalto a partir de Teresina ou Fortaleza, das quais dista 350 km. A maior cidade próxima é Tianguá, de onde serão apenas 20 km até a vila nas redondezas do Parque.

Foi criado para preservar a Gruta de Ubajara, conhecida devido ao Ciclo da Mineração daquela época. Seu nome significa Senhor da Canoa, devido à lenda de um cacique do litoral que teria vivido por longo tempo na gruta.

Mas os primeiros habitantes da região foram os índios tabajara, posteriormente aculturados por jesuítas e mineradores. No século XX, a gruta era usada por romeiros, o que acabou atraindo muitos visitantes, com impacto predatório. Isso só foi controlado após a criação do Parque.

A gruta ocupa uma impressionante depressão cercada de penhascos calcários e areníticos, recobertos por uma vegetação variada. A Chapada de Ibiapaba compõe o platô elevado e escarpado, a cerca de 850 m de altitude. A região da gruta fica uns 300 m abaixo e abrange os vales mais áridos da caatinga.

Esta é uma natureza de transição entre cerrado e caatinga, incluindo desde árvores frondosas como o jatobá a arbustos espinhentos como cactos e bromélias. Embora sem espécies endêmicas, o Parque contém uma variada fauna de pequeno porte.

Como só cheguei próximo do horário de fechamento, não pude percorrer a trilha de 5 ou 6 km que desce até a gruta e passa pela Cachoeira do Cafundó. É possível percorrer em mais 4 km as demais três quedas, em especial a Cachoeira da Gameleira. Desci pelo teleférico desde a portaria até a gruta. É uma descida bonita, embora descansada. Se perde em emoção, ganha em organização, numa situação rara no país.

A Gruta de Ubajara foi formada pela dissolução do calcário. Existe no Parque uma dezena de outras grutas, como Urso Fóssil e Morcego Branco. A boca de entrada da caverna é um tanto discreta, mas ela é dotada de amplos salões, dos quais seis são visitáveis. Não é uma caverna extensa, com apenas 1 km de desenvolvimento.

Ubajara também não é especialmente decorada, embora tenha muitas formações sugestivas, numa bela coloração âmbar. O silêncio absoluto e a parede confinada criam um ambiente misterioso – o tempo e o espaço parecem diferentes, até que você de repente possa emergir para a natureza externa iluminada e verdejante.

A Tartaruga, PN Sete Cidades, Piracuruca, PI (Foto Divulgação)

Sete Cidades fica a pouco mais de 100 km de Ubajara. Está localizado no Piauí, a 200 km de Teresina e 450 km de Fortaleza, com boa rodovia asfaltada. Embora a cidade de Piripiri esteja nas proximidades, é melhor pousar no hotel fazenda à entrada do Parque ou nos alojamentos no seu interior.

A região foi habitada pelos índios tabaranas, cujo enorme território ia desde o litoral até a Serra e Ibiapaba. O nome de Sete Cidades foi cunhado pelo visitante Jácome Avelino e, desde então, as mais exóticas teorias têm sido propostas para explicar as formações e pinturas lá encontradas.

O Parque foi estabelecido com 6.300 ha, visando proteger a paisagem natural do avanço da pecuária. Só uma pequena parte da área está aberta, devido às inscrições rupestres ainda sendo investigadas. À semelhança de Ubajara, conta com organização e sinalização exemplares e uma situação fundiária não resolvida.

As Águas do Riachão, PN Sete Cidades, Piracuruca, PI (Foto Divulgação)

Desta vez, pude percorrer boa parte dos 12 km que atravessam as várias cidades, ao longo de quase 4 horas. No início, o caminho sombreado tornou o clima até fresco, mas perto do meio dia o calor era insuportável. Inicie sua visita no começo da manhã e evite o calor das tardes. De forma surpreendente, você poderá refrescar-se no lago e cachoeira existentes – embora não pareça, Sete Cidades conta com inúmeras nascentes, algumas até em mata ciliar.

O Parque tem clima seco e quente, baixa altitude, relevo plano e vegetação característica de cerrado e, até certo ponto, de caatinga. Tem também uma fauna muito rica, especialmente em aves.

As Peculiares Formas do Arenito, PN Sete Cidades, PI (Foto: Trilhas & Rumos)

As cidades são formações monumentais, esculpidas pelo vento e pela chuva na rocha arenítica, formada durante o período Jurássico. Elas concentram-se em sete agrupamentos, dos quais só o primeiro é mais distante. São todos visitáveis, embora o sétimo apenas de forma parcial.

De todas, a mais impressionante é a Segunda Cidade, devido ao mirante de onde você avistará boa parte das demais. Ao longo de tantas formações, você passará por monumentos naturais como a Pedra da Tartaruga, o Arco do Triunfo, a Biblioteca, os Três Reis Magos e a Grande Muralha. Na realidade, é tanto a natureza física como a sua imaginação que criarão estes estranhos e imponentes espectros do passado.

Nas diversas paredes do Parque existem ainda pinturas rupestres. Formam curiosos desenhos nas tradições geométrica, agreste e astronômica, até hoje de difícil decifração. As pinturas trazem um emocionante aspecto histórico e humano à paisagem mineral, parecendo criar uma linguagem viva que invade seu passado silencioso.

Ao terminar a visita talvez aconteça com você o que me ocorreu: uma mistura de emoção e tristeza em abandonar um lugar tão mágico, onde os testemunhos das histórias do homem e da terra contemplam impassíveis a nossa pequenez.

A Pedra Furada, PN Jericoacoara, Jijoca, CE (Foto Divulgação)

Foi uma surpresa descobrir que a badalada Jericoacoara integra um Parque com 8.400 ha. Tem uma forma curiosa, de um triângulo cujo vértice é o Serrote da Pedra Furada no litoral e cuja base é uma linha quase perfeitamente horizontal no interior, atravessada no meio pela estradinha que vem da vila de Jijoca.

Tempos atrás, Jericoacoara não era mais do que uma das muitas vilas de pescadores do litoral. Não tinha nenhuma história anterior, que não fosse o antigo desembarque de Vicente Pinzón. Até que foi invadida pela galera, como aconteceu com Pipa, Porto de Galinhas ou Maresias. Há mais de uma versão para explicar o estranho nome de Jericoacoara: a que prefiro diz que o Serrote, quando visto do mar, lembra um jacaré quarando ao sol.

Chegar a Jericoacoara é uma aventura por dunas e praias. Você pode vir de Jijoca, sede do município, por 20 km de um incerto caminho pelas dunas. Ou então por 60 km espetaculares ao longo das praias de Camocim, se a maré permitir. Só se aventure se estiver num veículo com tração. As histórias sobre carros atolados, flutuantes ou até submersos só são engraçadas porque não aconteceram conosco, não é mesmo?

Praia de Jericoacoara, PN Jericoacoara, Jijoca, CE (Foto Divulgação)

Por sua vez, estas duas localidades são bem distantes de Fortaleza: Jijoca a 300 km e Camocim a quase 400 km. Achei o acesso bastante razoável, em ambos os casos subindo rumo à costa por boas rodovias estaduais.

Em Jeri, você pode fazer duas trilhas curtas e tradicionais: a Pedra Furada e a Duna do Pôr do Sol. Os outros passeios fogem ao propósito deste artigo, por serem por bugue até lagoas distantes, como Tatajuba.

Como acontece em geral no Ceará e no Piauí, o clima divide-se entre os dois semestres do ano, um mais úmido e outro mais seco, chegando a ½ ano sem chuvas. A estação úmida é em geral a preferida. As praias têm características comuns: águas mornas e limpas com ondas moderadas, enormes extensões de areia, fortes ventos de leste, pouca vegetação litorânea e perigosas diferenças entre marés.

Neste litoral, os pescadores saem no mar calmo da noite e costumam voltar no começo da manhã. Uma das visões mais bonitas é olhar nas manhãzinhas os barcos chegarem da pescaria, com suas velas coloridas lentamente deslizando na água. Mais tarde, quando você chegar na praia e contemplar o mar através da areia, verá o encantador visual das jangadas pintadas, ancoradas lá longe, além da crista das ondas.

Esta é uma região privilegiada que, se não oferece grandes oportunidades de travessias ou ecossistemas diferenciados, vai lhe permitir longas noites nos becos agitados e muita beleza preguiçosa nas praias encantadoras.

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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

1 comentário

  1. Morei durante 10 anos em Euzébio, cidade satélite de Fortaleza e fiz viagens fantástica pelo nordeste. Sueu relato é muito bom, e revisitei esses locais através de seuas palavras. O nordeste é maravilhoso, pena que seja conhecido pela maioria das pessoas, apenas pelas prias, que merecidamente são maravilhosas também. Obrigada pela sua postagem.Meu filho tem histtória bastante parecida com a sua. Tata-se do Pedro Hauck do
    Gentedemontanha

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