Pizarro e os Incas

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Revisitando a história das civilizações andinas para enriquecer as páginas de Machu Picchu no mais clássico dos Roteiros Andinos de Altamontanha.com, http://roteirosandinos.altamontanha.com/machupicchu/, também reencontrei a monumental figura de Pizarro, o conquistador que desmantelou o Império Inca e me dei conta do quanto os grandes exploradores são demonizados pelas civilizações que se desenvolvem no seu rastro. Colombo também não recebe tratamento muito melhor, mas contra Pizarro as críticas sempre foram especialmente severas por conta do moderno mito do “bom selvagem“. Este mito difunde a visão errônea que o ameríndio estava isento das mazelas humanas até a conquista pela cultura européia.


Em recente troca de emails com a Bárbara pude ilustrar a aversão do cidadão frente a atuação do explorador. “O mundo tem poucos exploradores, alguns colonizadores e muitos cidadãos. Os cidadãos têm repulsa ao risco e detestam os exploradores apesar de não existirem senão graças a eles. Colombo e Pizarro que o digam, pra ser explorador é preciso muita coragem e determinação, pra ser colonizador é só preciso ter coragem e determinação, pra ser cidadão não é necessário coragem nem muita determinação, só organização. Enquanto estes andam em trilhas, os primeiros abrem picadas”

A América antes de Colombo e a do sul no desembarque de Pizarro estavam ainda em pleno período neolítico, não apenas em tecnologia, mas também em cultura. Isto, é claro, não os tornava menos inteligentes nem menos humanos que os europeus e também estavam muitíssimo organizados, muito mais até que os espanhóis. De fato, o império indígena vivia um socialismo perfeito que séculos adiante nem a própria União Soviética chegaria aos pés.

A cultura dos Orejones de Cuzco conseguiu eliminar a fome através do planejamento centralizado, do isolamento, da eliminação da propriedade privada e da liberdade. O rei-sol, o Inca e sua corte eram donos absolutos de tudo que existia dentro dos limites do império. Criaram uma sociedade realmente igualitária e perfeita onde os nobres eram realmente mais iguais na sua nobreza e a população escrava era toda idêntica na indigência, enquanto o Inca supremo era senhor dos bens, da terra, dos corpos e das almas.

Uma civilização de contabilistas onde cada grão colhido era cuidadosamente contado, contabilizado nos quipus (aquelas cordinhas cheias de nós) e recolhido para depois ser igualmente distribuído. 1/4 para as cabeças pensantes da corte (os porcos de Orwell), 1/4 para os soldados (os cães) que garantiam o status quo, 1/4 para o povo e a sobra para o imperador. De bom é que estes “porcos”, diferentemente dos modernos, sabiam calcular e nunca se registrou fome nos quipus Incas (como também na história oficial soviética, cubana, etc). Nas magníficas estradas Incas, só se podia circular com autorização expressa do imperador. Mudar de vila ou viajar, isto nem pensar porque o homem não possuía a terra, mas a terra era proprietária do homem e tudo era do imperador.

O sistema jurídico também era simples e perfeito e nem de prisões se teve notícias. Havia apenas uma pena para todo e qualquer crime, a morte. Mas esta era bem variada. Escondeu comida, roubou fruta, faltou ao trabalho, olhou para a mulher do vizinho, desobedeceu ao cacique, falou além da conta, pensou demais, dormiu até tarde – o cacique era a um só tempo promotor, júri e juiz e se bobeasse também réu. Séculos de horror e repressão moldaram aquele povo dócil e submisso que ainda hoje encontramos nos confins da Bolívia, do Peru e do Equador.

Aos nobres pensadores era reservada uma vida farta na corte Inca. Eram intelectuais de classe média, arquitetos, engenheiros, contabilistas, generais, sacerdotes, caciques, administradores, serviçais e puxa-sacos do imperador. Faziam a carroça andar, como em todas as civilizações até os dias de hoje, mas detinham um direito especial: forneciam seus filhos para os sacrifícios humanos. E eram muitos os sacrifícios, mais do que o suficiente para honrar cada família, uma ou duas vezes por geração. Havia sacrifícios pelo solstício de verão, de inverno, pela chegada da primavera, para chamar chuva, para terminar com enchente, aos Apus (espécie de espírito) das montanhas com mais de 5000 metros e montanhas por ali não faltam. Não se sabe ao certo, mas é de se presumir que os pais do neolítico já amavam os filhos e por tudo isto a religião deveria ser de seu especial agrado. Tanto é verdade que os padres católicos nem precisaram insistir muito para catequizar rapidamente as legiões de “selvagens” e extirpar a idolatria do rei-sol.

A civilização inca era o próprio édem sobre a terra e todos os súditos do imperador não se cansavam de agradecer todas as benesses deste paraíso. Tanto que os modernos progressistas regionais como Evo Morales, Rafael Correa e outros ainda evocam tais dias de glória e justiça.

“Deus escreve certo com linhas tortas”. Nada mais verdadeiro. Enquanto a Europa vivia a baixa idade média apareceu no altiplano andino uma figura itinerante (ou várias que acabaram por se fundir) pregando uma doutrina de bondade e tolerância, exigindo o fim dos sacrifícios humanos. Este homem branco e barbudo foi incansavelmente perseguido pelos caciques e pajés até desaparecer na noite dos tempos, mas imortalizou-se nas lembranças e lendas com vários nomes, Tonapa foi talvez o mais marcante. No Brasil dos Tupis Guaranis um personagem aparentado surgiu como Pai Zumé (entre outros nomes), intimamente relacionado ao lendário caminho do Peabiru. As lendas lhe creditam a origem do curioso corte de cabelo ainda padrão nas comunidades indígenas tradicionais. Curiosamente descobriu-se em mosteiros irlandeses desta época o relato de uma expedição de monges católicos que se perdeu no mar e depois de muitos anos retornou afirmando terem encontrado o paraíso bíblico.

O importante é que Pizarro e seus mercenários de pele branca e longas barbas, cavalos, espadas de aço brilhante e armas de fogo foram logo identificados com a lenda. A pregação dos missionários embarcados só confirmou que os deuses brancos voltaram para libertar o povo das garras do carrasco inca. A promessa se cumpriu e a notícia se alastrou pelos Andes espalhando a rebelião nas hostes indígenas escravizadas. De imediato os não mais de 600 espanhóis encontraram milhares de aliados por onde passavam e o império caiu. Bastaram poucos investidores privados e alucinados por promessas de riqueza para derrubar o socialismo perfeito construído em séculos de repressão e tirania. O império ruiu de podre porque pertencia a um só clã de déspotas e a ninguém mais interessava mantê-lo.

Pizarro e suas tropas eram exploradores destemidos e determinados, mas não santos e por onde passaram deixaram um rastro de morte e pilhagens. Mais pelas doenças desconhecidas que traziam na bagagem do que pela espada, mas do ouro e da prata ninguém sentiu falta. O povo não tinha o menor apego as riquezas, a terra, ao rei e aos deuses, apenas os temiam e os que não aproveitaram a oportunidade para se livrar deles docilmente aceitaram os novos senhores. Talvez considerassem justa a troca daquelas quinquilharias brilhantes associadas a morte pela libertação do jugo inca e a promessa de um Deus bondoso previamente anunciado. A promessa se cumpriu e da idade da pedra passaram ao barroco em menos de um século. Ainda hoje não existe no mundo católicos mais devotos do que eles próprios. Apesar do preço saíram no lucro.

Os povos andinos criaram uma arquitetura monumental em pedra inexistente nas terras a leste dominadas pelos anarquistas Guaranis, mas culturalmente não se pode afirmar que eram mais evoluídos nem na arte da guerra. Na verdade os Incas temiam tanto os “selvagens Antis” que encheram suas fronteiras com fortalezas e mesmo assim amargaram muitas refregas. As organizadas legiões do império nunca foram páreo para os irreverentes índios das planícies que, comparados aos do altiplano, viviam como reis em terras ricas, férteis e quentes desfrutando de toda a liberdade. Entre os povos nômades da floresta, o cacique não tinha autoridade nem pra dar cascudo em criança travessa.

O mundo dá voltas e continua tudo como antes, na terra de Abrantes. A escravidão novamente ameaça as alturas enquanto aqui em baixo continua uma bagunça. As vezes é difícil de acreditar, mas ainda estamos no lucro.

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Sobre o autor

Julio Fiori - Equipe AM

Julio Cesar Fiori é Arquiteto e Urbanista formado pela PUC-PR em 1982 e pratica montanhismo desde 1980. Autor do livro "Caminhos Coloniais da Serra do Mar", é grande conhecedor das histórias e das montanhas do Paraná.

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