Quem é Parofes?

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É com prazer que me apresento como novo colunista do Altamontanha! Recebi o convite pessoalmente do Pedro e do Hilton quando estive no Paraná da última vez, ocasião essa em que prestigiamos o 37° Jantar de Montanha e ainda fomos caminhar no Ibitiraquire, Serra do Mar paranaense.


Minha experiência em montanha provavelmente não é dez por cento de todos os outros colunistas do portal, minhas contribuições não são tão grandes assim e pra falar a verdade não me preocupo muito com o status de ser um grande montanhista. É claro, como disse nosso amigo Julio Fiori, o montanhismo é um esporte de ego. Agrada e muito ver uma foto nossa publicada em uma revista, ver um relato recebendo comentários congratulando um feito, ver as visitinhas do contador crescerem. Receber um e-mail pedindo dicas etc.

Sempre comentei com conhecidos que nunca busquei isso, ficar conhecido é conseqüência pois meu blog, que provavelmente foi o motivo pelo qual acabo entrando no altamontanha, teve como objetivo desde o início (e ainda tem) compartilhar com todos os amigos e conhecidos (ou não) relatos detalhados e fotos de lugares lindos do Brasil ou não. Talvez assim a própria beleza do natural sensibilize todos que leiam ou vejam as fotos a cuidar mais e usufruir destes lugares de uma maneira correta e consciente.

Eu sequer tinha blog. A idéia de fazer este blog foi do Pedro Hauck, com quem tirei um monte de dúvidas sobre montanhas andinas em 2007, quando o conheci via orkut. De lá pra cá o blog só cresce em qualidade, creio eu. Consegui fazer contatos com alpinistas de outros países, onde vejo fotos fantásticas e compartilho experiências com os mesmos.

Minha “carreira” no montanhismo é consideravelmente curta quando comparada com a de todos os colegas aqui, repito. Vou tentar resumir. Meu primeiro contato absoluto com montanha foi em 1999. Minha mãe havia falecido havia pouco menos de 3 anos, minha vida era uma loucura em busca de trabalho para sustentar a casa. Um amigo que tem casa em Itaipuaçú (Leandro – RJ) me convidou para passar um final de semana lá. Fui. Só por curtição ele deu a idéia de subirmos a Pedra do Elefante, ponto culminante da Serra da Tiririca com cerca de 412 metros de altitude.

A dupla dinâmica foi pra serra. Na época eu tinha 21 anos e o Leandro 19. Vestimos calças camufladas (ele era Fuzileiro Naval), munidos de um facão cada entramos na trilha e após algumas horas estávamos no cume apreciando uma vista invejável do cume. Nem máquina fotográfica tínhamos.

Apesar de esta experiência ter sido sensacional, a vida me mostrou outros caminhos e acabei priorizando trabalhar e mochilar pelo Brasil. Precisava ajudar no sustento da casa, mas sobreviver nunca foi minha intenção, viver sim. O pouquíssimo dinheiro que sobrava eu pegava um ônibus ou um vôo e ia conhecer algum lugar novo do Brasil. Minha vida ficou assim, congelada no tempo por vários anos. Entrei na faculdade, estudei muito, me formei Historiador em 2005. Profissão que exerci somente por 6 meses pois a molecada não se interessa por estudar e isto foi uma grande decepção pra mim, acho inconcebível alguém dizer “não suporto História”.

Em 2006, quando planejava minha primeira mochilada fora do Brasil, teria que largar o emprego pela segunda vez. Era assistente financeiro de uma gráfica no RJ, deixei o emprego em dezembro de 2006 e me preparei. Tinha como companheiro um “amigo” (pelo menos fora amigo por vários anos – depois me deu um cano, parece que atraio este tipo de gente! Sempre levo cano de supostos amigos.) que no meio da viagem voltou pra casa. A viagem aconteceu no mês de janeiro de 2007, quando fiz novos amigos e conheci pela primeira vez a Bolívia, o Chile e o Peru.

Acontece que durante esta nova mochilada, minha vida mudaria sem precedentes. Um bloqueio em Cochabamba, um grande departamento boliviano, me deixou em uma situação complicada, mas que me apresentou ao montanhismo por puro acaso. Minha aventura de 1999 esquecida ha longa data não fora definitiva pra minha entrada nas montanhas. Me encontrei em uma situação de literalmente ter que caminhar para chegar a La Paz. Cochabamba fica a cerca de 2.500 metros de altitude e possui cerca de meio milhão de habitantes. De lá comecei minha aventura rumo ao desconhecido mundo do andinismo. No meu terceiro dia de viagem caminhava junto de milhares de pessoas na estrada, tentando chegar a La Paz.

A caminhada foi dura, não estava acostumado, era consideravelmente mais magro. Depois de diversas horas caminhando cheguei a uma parada de caminhoneiros, ao pé da  pré-cordilheira nos arredores da cidade. Lá comi a primeira refeição da viagem e acampei no meio da rua, de barraca e tudo. Consegui uma carona com um caminhão de bóias frias bolivianos rumo a La Paz através das montanhas. As quatro da manhã sob um frio negativo desmontei minha barraca, arrumei a mochila e entrei no caminhão. Fui me encantando cada vez mais pelo país, sobretudo pelas montanhas. Horas se passaram e por um problema de superaquecimento o caminhão quebrou a cerca de 3000 metros de altitude. Menos de cinco minutos depois um caminhão com colheita de milho passou e subi na carga, ainda rumo a La Paz.

O bloqueio se mostrava mais e mais forte a medida que avançávamos. Chegando a auto estrada que liga Cochabamba a Oruro, não dava mais. A cerca de 3500 metros tive que descer do caminhão e continuar a pé, juntamente com milhares de pessoas. Era sete ou oito da manhã e eu estava exausto, mas, continuei caminhando pela estrada. Quilos a menos, um tersol estourado, pus na vista, e muita sede depois, próximo ao pôr do sol, chegamos ao topo desta montanha onde, na curva do cume, uma placa indicava a altitude de 4.496 metros sobre o nível do mar. Eu estava exausto, mais exausto do que qualquer atividade física que praticara até então mas, a vista e o frio me congelaram no tempo. Nunca esqueço aquele momento.

Mais dez ou quinze minutos veio um táxi e seu motorista gritava “Oruro!”. Inacreditável não?! Peguei o táxi junto deste meu suposto amigo e um peruano. Fomos até Oruro onde dormi por 12 horas antes mesmo de comer algo.

Considero esta minha primeira montanha e primeiro cume andino, por valor pessoal. Não era uma montanha que atrai andinistas, era uma estrada, porém a estrada atravessava a cordilheira naquele ponto e sem condicionamento consegui superar o obstáculo. Minha primeira montanha, primeira montanha andina, primeira montanha no montanhismo.

Meus planos de vida mudaram radicalmente desde então. Conheci minha companheira Lilianne, me mudei pra São Paulo ainda em 2007, lutei pra conseguir um emprego e assim que o fiz, comecei a comprar equipamentos para poder prestigiar as montanhas brasileiras e seguir com minhas conquistas pessoais.

Desde então, em apenas 3 anos e 4 meses de montanhismo/ andinismo, já cheguei ao cume de mais de cinqüenta montanhas brasileiras e outras dezesseis andinas, dentre elas uma de 3000 metros, quatro de 4000 metros, oito de 5000 metros e três de 6000 metros. Foram dois projetos dentro do espaço de menos de 12 meses. O primeiro “33 dias, 33 mil metros” e o segundo mais recente “Quanto mais melhor”.

Atualmente tenho 33 anos incompletos e uma vida inteira pela frente de possíveis conquistas pessoais e muitas fotos. Amante da arte da fotografia, não passo de um amador. Aliás, me considero um iniciante também no montanhismo, tenho muito a aprender, muito mesmo.

O pouco que já sei, experiências que já vivenciei, compartilharei com todos aqui no altamontanha e no meu blog. Não sou melhor que ninguém, minha intenção é só compartilhar!

Abraços a todos

Paulo Roberto – Parofes

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Sobre o autor

Parofes (in memorian) - Colunista

Parofes, Paulo Roberto Felipe Schmidt (In Memorian) era nascido no Rio, mas morava em São Paulo desde 2007, Historiador por formação. Praticava montanhismo há 8 anos e sua predileção é por montanhas nacionais e montanhas de altitude pouco visitadas, remotas e de difícil acesso. A maior experiência é em montanhas de 5000 metros a 6000 metros nos andes atacameños, norte do Chile, cuja ascensão é realizada por trekking de altitude. Dentre as conquistas pessoais se destaca a primeira escalada brasileira ao vulcão Aucanquilcha de 6.176 metros e a primeira escalada brasileira em solitário do vulcão ativo San Pedro de 6.145 metros, próximo a vila de Ollague. Também se destaca a escalada do vulcão Licancabur de 5.920 metros e vulcão Sairecabur de 6000 metros. Parofes nos deixou no dia 10 de maio de 2014.

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