Travessia da Farinha Seca

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Confesso: até pouco tempo atrás eu tinha muito receio de fazer trilha na Serra do Mar paranaense. Primeiro porque eu sei que são trilhas que me colocam (bem) fora da minha zona de conforto (vegetação densa, trilha fechada, sobe e desce por rios, escalaminhada em árvores e afins, lama, planta enroscando em tudo, etc). Segundo, porque o Soto adora aquele lugar, e isso é sinal de que é ainda mais perrengue. Fato é que eu ainda não tinha feito nenhum treino de cargueira esse ano, e estava a fim de fazer algo realmente desafiador em todos os sentidos. Quando comentei do feriado com o Jorge, já imaginava que ele fosse pra esses lados, mas preferi não perguntar qual exatamente seria a trilha. O que ele disse é que era perto de Curitiba, e com o pessoal do Alta Montanha. Ou seja, perrengue!

As instruções eram ir descansada, com pouco peso, e preparada pra bivacar e tomar muita chuva. Por desencargo de consciência (sem tempo de ficar doente…) e até pra propositalmente aumentar o peso, levei minha barraquinha de solos, uns 2kg a mais na mochila. Dormi na casa do Soto e às 3h da matina de quinta feira saímos no carro do Mamute em direção à Curitiba. Como eu não tinha dormido nada, cochilei no carro e só acordei perto da entrada do PP.
 
Comemos qualquer coisa e logo depois encontramos o resto do grupo, pra nos digirirmos até o sítio do Espalha Brasa, também conhecido por alguns como Tranca Rua ou Empata Foda (piada interna). Nessa parada aproveitei pra perguntar ao Jorgito que travessia íamos fazer. Aí veio a bomba: era a temida Farinha Seca, sobre a qual eu já tinha lido acerca de tentativas frustradas, perrengues absurdos e sobes e desces sem fim. Nessa hora pensei, podia ser qualquer uma, e foi a Farinha Seca! Chessuis! Mas tava lá pra treinar e me prometi não abrir o bico e aproveitar ao máximo, afinal de contas se eu quisesse conforto, ficava em casa dormindo.
 
A QUINTA FEIRA, DE EXPECTATIVA
 
Deixamos os carros, arrumamos as mochilas e partimos morro acima. Sendo Serra do Mar, a vegetação é bem densa e úmida, praticamente o tempo inteiro. Saindo da cota de +/- 900m, foi mais ou menos depois de ganhar 500 metros que a vegetação baixou um pouco e se transformou em arbustos e capim (daqueles que cortam), quando chegamos no nosso primeiro cume, o Mãe Catira. De lá tivemos uma vista lindíssima de presente, avistando praticamente todas as serrinhas ao redor – da Prata, Marumbi, Ibitiraquire e um sem número de picos que ainda sequer tem nome, fora um pedaço de Curitiba, Paranaguá e a costa paranaense. Realmente, um privilégio!
 
Nesse dia ainda subimos o Pequeno Polegar, e 00B, até chegarmos à crista do Farinha Seca, com direito a um pequeno perdido enquanto descíamos o rio, já de noite. Nesse dia montei barraca e capotei bonito, depois de 10h de caminhada, subindo e descendo, aguardando ainda mais perrengue no dia seguinte.
 
A SEXTA FEIRA, DE SOBE E DESCE INFINITO
 
A pedido do Mamute os despertadores tocaram às 6h e logo menos já começamos a caminhada rumo ao cume do Farinha Seca. Esse dia também foi de muito sobe e desce, desta vez num ritmo um pouco mais acelerado e com bem menos paradas, pois tínhamos que conseguir chegar no Balança, nosso ponto de bivaque. Subimos e descemos o próprio Farinha Seca, Macacos, Jurapê, Mojuel, até o Balança, com direito a perder a trilha (fechada em inúmeros momentos), muito cansaço, pouca água e muita, mas muita planta enroscando, capim cortando e ponta de bromélia furando todas as partes do corpo possíveis e imagináveis. Fora isso, escalaminhadas tensas e bem altas com apoio apenas de raízes suspeitas, skibundas e paredes enlamaçadas com pouco apoio… nessas horas faz falta um crampon pra lama!
 
O bivaque no Balança foi em valas e espaços bem pequenos próximos ao cume, mas como todo mundo tava muito cansado, foi se jogar, cozinhar, e tentar descansar, coisa que eu não consegui pois dormi mal pra caramba, fora o papo de alguns, que demorou pra morrer… Ora tava cozinhando no sleeping, ora o isolante tava fora do lugar, ora eu tava caindo por causa do chão torto. Mas enfim, aventura!
 
O SÁBADO, CORRIDA PELO BARREADO
 
Logo cedo arrumamos tudo pra começar a descida, a qual já estava todo mundo com receio já que o Fiori passou os dois dias anteriores botando medo na turma, falando que era muito exposto, íngreme, perigoso, etc. Subimos pro cume do Balança pra aproveitar a vista de quase 360 graus, desta vez avistando além das outras serras, a usina de Marumbi, por onde passaríamos na descida, e a serra da Farinha Seca e quase todos os cumes por onde tínhamos passado nos dois dias anteriores. Todo mundo já querendo descer logo pra comer barreado e tomar cerveja, principalmente o Jorgito!
 
Começamos a descida e já encontramos as tais partes tensas, mas nada que não fosse transponível com cuidado. A face do Balança é basicamente um grande paredão de rocha, com pouquíssimos platôs e inclinação quase vertical. Apenas uma rota permite acesso ao cume, mesmo assim com paredes de lama, e o problema na verdade é que os apoios já estão "gastos" por conta da erosão, tanto os de pé quanto pra mão, e a travessia, se feita pelo Balança, está fadada a ficar inacessível.
 
Nesse dia passamos várias horas descendo pela crista de não mais que 4-5 metros de largura, até chegarmos na parte mais baixa da serra, onde a vegetação já fica mais exótica. Atravessamos 2 rios com direito a banho no segundo pra tirar um pouco do fedor, e finalmente alcançamos a saída da Usina, e posteriormente um pedaço do Caminho de Itupava, de onde pegamos uma kombi até Morretes pra almoçar o famoso barreado comentado nos dias anteriores.
 
E POR FIM…
 
Como diz o Soto, a Serra do Mar é o "patinho feio" dos montanhistas. A de São Paulo realmente é uma ponta da Serra, mas a do Paraná é um caso diferente. Na Farinha Seca, são montanhas baixas porém muito imponentes, com acesso trabalhoso, e a característica de serem de navegação extremamente complicada, além de serem duras no sentido da falta de conforto – pouca água, e com uma vegetação insuportavelmente chata (do tipo que me faz xingar a mãe da planta), muita umidade e poucas áreas pra camping. O ganho de altitude não é pequeno: foram 8 montanhas num percurso de 17km, ou seja, a intensidade do esforço é bem alta. Em termos de esforço físico, achei ela comparável à Serra Fina pois fiz a última em 3 dias, porém a Serra Fina é trilha de vovô em termos de conforto, se for comparada à Farinha Seca. Não é à toa que o Paraná produz boa parte dos melhores montanhistas do país, ali só tem trilha casca grossa. Mesmo o PP, que pra eles é brincadeira, pra mim foi bem puxado quando fiz em 2012.
 
Como destaque, posso dizer que pra uma paulista acostumada com multidões em qualquer lugar, um dos melhores pontos foi termos a serra toda pra nós pelos 3 dias. A companhia do Fiori, que dispensa comentários, e sua experiência como montanhista mais suas histórias absurdas, também deu um brilho a mais ao feriado, principalmente porque ele é um dos "pais" dessa travessia.
 
Olhando em volta, e tendo superado todas as dificuldades desses 3 dias, acabei descobrindo um leque completamente novo de desafios em montanhas brasileiras, novas travessias (pra mim), e gente nova com perspectivas e motivações diferentes. Tem a Serra da Prata com o belíssimo e pontudo Prata, a Alpha Omega que atravessa os também lindos picos do Marumbi, as travessias do Ibitiraquire, e a própria Alpha Crucis, que mais pra frente pode até entrar na lista de desejos, quando eu estiver devidamente preparada.
 
Trouxe pra casa uns 20 hematomas em cada perna, uns 900 espinhos em cada mão, trocendos gravetos, folhas secas e grãos de terra pelas roupas, uma mochila tão imunda que teve que ser lavada no chuveiro, uma trança tão suja que parecia dreadlock, e uma estrelinha na caderneta por ter sobrevivido ao que foi talvez a trilha mais casca grossa que eu já fiz.
 
Fiquei com a impressão que às vezes a gente teme fazer justamente aquelas coisas que a gente sabe que mais vai gostar. Eu ainda adoro a Mantiqueira, mas o Paraná…
 
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Sobre o autor

Cissa Carvalho - Colunista

Nômade por acaso, Cissa Carvalho nasceu em São Paulo, já morou no Alabama e na Amazônia, e atualmente reside na capital Paulista até que os ventos novamente a levem pra algum destino inusitado do planeta. Trilha desde pequena e conheceu as montanhas com vinte e poucos anos, mochilou a América do Sul, andou pelas montanhas brasileiras e nos últimos anos tem se dedicado ao montanhismo de altitude, e mais recentemente à escalada em rocha. É bacharel em design gráfico e pós-graduada em design editorial.

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