Travessia Kairós #3

0

Concordamos, falei que para mim a felicidade era ali mesmo, aquele café no posto e com chuva: os momentos inesperados, inevitáveis e improváveis como esse.

Tomamos café pela manhã, pedalamos, almoçamos, pedalamos novamente pela tarde, vamos ao mercado, jantamos. Presença constante, sempre juntos. Ideias que mergulham aos devaneios de conversas elaboradas ao infinito, com vistas para o longo da estrada, lado a lado. Demore o que for, sempre partimos para um novo dia quando ambos estão prontos, geralmente após duas horas de organização das coisas, do acampamento, e mais um tanto para acalmar os ânimos. Isso tudo para dizer que estamos sempre juntos.

Escrevo agora numa casa de internet, em um kiosko de Bariloche. As memórias se apresentam aqui com um breve atraso, porque precisam se assentar, tomar forma. Hoje, no trigésimo terceiro dia de viagem, nos separamos, isso mesmo, para que daqui a um mês nos vejamos novamente. É quase como uma relação de casal, compramos esse matrimônio temporário, com suas discussões, compartilhamentos e risos. Não sabemos como será depois de hoje. Almoçaremos ainda mais uma vez, para então seguirmos: eu em direção ao Sul ele para um breve desvio ao Norte de Bariloche e depois ao Sul.

Eu e meu parceiro Caio Sabbagh enfrentamos muito tempo árido e calor antes de chegar aos ventos gelados daqui. Quando saímos de Mar Del Plata, beiramos continuamente o Oceano Atlântico, sobre falésias. Geografia do trecho que foi, até então, o mais precioso. Numa noite, Caio testou mais uma vez o aplicativo em seu celular para mirar as estrelas, as constelações fugidias. Disse que quando olha para elas, sente-se mais seguro, reconhece a casa que nos abriga. “Acostumbrarse, diluirse o tornarse”. Um belo kairós, disse ele, quando olhou as estrelas naquela noite em Bajo Hondo, onde acampamos ao lado de um galpão metálico da antiga linha de ferrocarris, os trens, que um dia formaram vilarejos como esse.

Até então, não havia registro de chuvas em nossos caminhos. Quando surgiu, estávamos em um cruce, ou seja, numa conveniente estação (posto de combustível, embora abortado de suas funções iniciais). Era o vilarejo de Aparício e, logo em seguida, viria a chuva. Lá de dentro, um sujeito por volta de seus cinquenta anos destrancou a porta e abriu a vendinha. Sentamos nas duas cadeiras que circulavam a mesa capenga. Javier trouxe água caliente e voltou para seus afazeres, trancando a portinhola. Fizemos um café, comemos sobras dos doces daquela manhã. Facturas. Depois disso, a chuva diminuiu, mas já havíamos nos apegado ao lugar. Era o meio da tarde.Também um caminhoneiro veio ter com a gente: disse que a felicidade estaria em nosso caminho. Concordamos, falei que para mim a felicidade era ali mesmo, naquele café no posto e com chuva: os momentos inesperados, inevitáveis e improváveis como esse.

Aí em Aparício, por detrás do posto, montamos as barracas por debaixo árvores bonitas, fechadas em bosque. Jantamos na frente das bombas de combustível largadas, tomando cerveja na vendinha, que se transformava em uma apertada sala de estar para mais dois amigos do Javier. Dias sem banho foram diversos. Finalizamos com lenços umedecidos aquilo que a mente necesitava para que descançasse, ainda um pouco arraigada a hábitos antigos.

Percebemos depois, e tarde demais, que instalamos as barracas em uma espécie de banheiro dos caminhoeiros. O mais belo dos banheiros. Percebemos isso quando o filho de um deles veio correndo com o papel na mão e se deteve quando nos viu. Ao redor, saltavam espécies das mais exóticas. Saltava o garoto, surpreso, de volta. Mathias estava escrito em um galho, mqrcando território. El baño de M. O odor atípico se explicava por si só. Mas esse assunto evitaríamos, não queríamos trazer à tona, intensos aromas indesejáveis. Mesmo assim, um kairós, uma experiência.

Como Aparício, surgiram outras aqui e ali e iam se mesclando com cidades maiores. Assim, pernoitamos em Necochea, Cristiano Muerto (com seus 12 habitantes, 20 cachorros e um senhor do mercadinho que atendia por “Sartre”), Copetonas, Pehuen-Co, Bajo Hondo. Bahia Blanca finaliza esse tramo, onde ficamos num hostel e conhecemos o Rodrigo, que tem papel decisivo na direção que tomamos nos dias seguintes.

É preciso dizer ainda que foi em uma estrada de chão batido, em extensa aridez, próximo a Pehuen-Co, que fizemos nossos primeiros mil quilômetros. Era o dia 28 de fevereiro, 17:45h. Depois, um belo por do sol ficaria registrado na mente dos dois e, quiçá, ficará ainda por um bom tempo.

LUÃ OLSEN,

BARILOCHE – Argentina

15.03.18

Veja mais:

:: Travessia Kairós #2

:: Travessia Kairós #4

Compartilhar

Sobre o autor

Luã Olsen

Luã Olsen é arquiteto e urbanista. Utiliza suas aventuras para experimentos literários, quando refaz a viagem para si e para o outro. É autor de TU, YO Y LA LUNA (2014), relato de sua viagem de bicicleta de Florianópolis à Buenos Aires, e INTERIORES (2017), sobre sua primeira cicloviagem, por Santa Catarina. Atualmente realiza a TRAVESSIA KAIRÓS, pedalando pela Patagônia argentina e chilena, com o apoio da Alta Montanha.

Deixe seu comentário