Travessia Kairós #5

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Foi uma saída bonita, o pulso acelerado por estar mais uma vez sozinho em uma viagem de bicicleta.

Provavelmente não nos veríamos mais nessa viagem. Caio iria na direção Norte e eu para o sul argentino. Minha família já tinha voltado ao Brasil. Coloquei o uniforme de chuva que achara em uma loja de motos, em Bariloche. O mais barato. Um último café, agora sim. Última foto. “Quando puderes ver as montanhas, por detrás das névoas, terei ido”, falei, em tom provérbico, para quebrar o gelo. Sairia de todas as formas, logo mais. E mais um mate. Acenei diversas vezes e olhei para trás, enquanto saía do camping que retardou nossa largada da cidade em um dia mais. Foi uma saída bonita, o pulso acelerado por estar mais uma vez sozinho em uma viagem de bicicleta. Assim que dobrei a esquina e cheguei mais adiante na avenida principal, parei para ver o mapa no celular. Ao retornar, rasguei boa parte da calça no selim e, então, adiante, iniciava-se uma partida caótica.

Percebi que a chuva aumentava o frio e que não tinha o mínimo necessário que fosse impermeável. Comprei luvas em uma ferretería, mas eram aquelas amarelas de limpeza e apenas esfriavam ainda mais as extremidades. Amarrei a o rasgo da calça com uma corda improvisada e que ficava descendo quando pedalava. O clima se alternou constantemente com leves intervalos do aguaceiro. Era muita coisa para me preocupar. Numa dessas, uma montanha se revelou. Era a saída de Bariloche e estaba indo, saía.

Bordei lagos e revi cenários que passamos todos juntos quando alugamos um auto. Fomos até El Bolson, mais ao Sul, na ocasião. Em outras viagens já me deparei com o fato de “passar novamente”. Nos entregamos aos sonidos dos comentários e surpresas de outrora. Colhi maçãs próximo de onde paramos para avistar de um mirante. Depois dessa curva, a água voltou e congelou minhas mãos e pés. Las patas, como dizem os argentinos. Estava malo. Parei em um ponto de ônibus e fiz café. Joguei água quente sobre as luvas, evitando um choque direto com a mão gelada. Montanha de um lado, lago do outro.

Refleti muito no quilômetro que se seguiu e, contra todas minhas vontades (as psicológicas), tive que aceitar meu físico adentrar a clareira que se fazia descendo a ruta pela sua lateral. É dizer que o caos vencera e tentava agora me reorganizar. Chegava a beira do rio e ia aceitando as indicações. Com dificuldades para levar a bicicleta e sob chuva, armei a barraca rapidamente para poder me esquentar, me calientar e acalmar.

Estava triste e molhado. Minha família trouxera um casacão verde que eu deveria usar em casos extremos. Já chegara a ocasião. E mal reiniciara a viagem ao sul patagônico. Pensei que deveria adquirir mais um e o fiz em Bolson. Preparei um chá e uma sopa. Pensei que o rio poderia subir com a chuva, já ouvira histórias sobre. Acordei diversas vezes de madrugada para conferir. E conferir se havia pessoas ao redor de minha carpa. Quem estaria ali em uma madrugada chuvosa e fria? Eu, dentre tantos.

No dia seguinte, estava vivo. Sorte a minha, poderia tentar salvar a viagem. Parei em um posto de combustível que tinha uma cafeteria. Lembrava dessa estación e esteve em minha mente por toda a manhã. Tomei um chocolate quente, dois. Um casal de motoqueiros ouviu minhas lamúrias e me deu guantes. Luvas para tentar me esquentar. O atendente era arquiteto. Também sou, disse. Revelou, desenhando, todas as histórias impactantes de sua vida. A abertura proporcionada por uma passagem rápida, os tiros que levou em uma tarde. Disse que era um mentiroso e contou a verdade, os tiros de uma noite fria. A confiança que me fez bem, estava aquecido novamente. O sol se abriu, as montanhas com gelo se mostravam despertas ao final da manhã.

Passei por Vila Mascardi e o dia se arrastou entre sol e chuvas leves. Estava bem, agora pedalava com vontade e tripliquei a distância do dia anterior. A noite, encontrei um camping muito simples. Eu era o único ali, e pensei que ´poderia ser mais uma furada. Não havia banho, mas Gustavo acendeu uma fogueira e conversamos sobre política. Pareceu-me suficiente. Assunto sujo. Estava há dois dias sem duchas, um recorde até então, nessa viagem. Pela manhã, encontrei o anfitrião e seu amigo saindo com suas espingardas. Posaram para uma foto. Iam caçar javalis e os tiros ressoaram pela floresta por toda a manhã. Armei minhas coisas e voltei para a ruta 40.

LUÃ OLSEN,

COCHRANE – Chile

16.04.18

Veja mais:

:: Travessia Kairós #4

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Sobre o autor

Luã Olsen

Luã Olsen é arquiteto e urbanista. Utiliza suas aventuras para experimentos literários, quando refaz a viagem para si e para o outro. É autor de TU, YO Y LA LUNA (2014), relato de sua viagem de bicicleta de Florianópolis à Buenos Aires, e INTERIORES (2017), sobre sua primeira cicloviagem, por Santa Catarina. Atualmente realiza a TRAVESSIA KAIRÓS, pedalando pela Patagônia argentina e chilena, com o apoio da Alta Montanha.

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