Você é o que você compartilha

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Gosto muito de navegar nas redes sócias e pescar dicas de viagens e fotografia dos amigos que postam suas trips de escalada, mas me assusto com o grau de intimidade que algumas pessoas expõem suas vidas dando brechas para comentários de duplo sentido e interpretações sujeitas a erro.

Já caí várias vezes nestas pegadinhas publicando textos confusos que deixaram interpretações duvidosas e também já postei o que não devia no facebook. Na emoção do momento e entre uma Heineken e outra, postei comentários indevidos e compartilhei minha intimidade do lar desnecessariamente algumas vezes. Nada que me custasse um rim ou problemas posteriores, mas até onde minha família e amigos queriam aparecer na gigante rede web? Porque expor meu dia fora do escritório e estúdio ao mundo? No que acrescentei os leitores do site com textos desnecessários e confusos?

Gosto muito do título “Você é o que você compartilha” do Gil Giardelli, vale apena uma passada de olhos no trabalho, bem legal por sinal, faz repensar no que estamos fazendo de nossas vidas e até onde queremos mostrar ao mundo quem somos de verdade.

O cuidado com a imagem deve ser redobrado nos tempos modernos, a desculpa de que “postei sem pensar” agora mostra fragilidade. As consultorias de RH pesquisam sua vida na web e traçam seu perfil antes de te convidar para uma entrevista. Um amigo que, sem intenção (muitas vezes sem noção), posta fotos suas em situações inusitadas, pode colocar em cheque sua credibilidade perante assuntos que talvez nunca tenha pensado.

O efeito Big Brother é quase uma doença, a necessidade de atenção e de mostrar que está de bem com o mundo é na verdade uma armadilha para te lançar direto na lona do circo já pintado de palhaço, com nariz vermelho e fazendo toda arquibancada chorar de tanto rir. Quem precisa saber da sua vida pessoal?

Médico cardiologista fumando e comendo torresmo, Personal Trainer almoçando feijoada padrão Kilimanjaro, professor de química ingerindo bebida suspeita preparada pelo calouro do primeiro período que mal sabe a diferença entre ácido e base. Essas e outras fotos hilárias quando compartilhadas entre amigos são bem divertidas, mas se uma destas fotos cai nas mãos de alguém mal intencionado? E se alguém quiser dar um puxãozinho no seu tapete profissional? Basta um compartilhar para seu plano de carreira como consultor da AngloGold Ashanti se tornar mais um currículo na gaveta de um investigador de RH.

Por mais que policiemos nossos perfis nas redes sociais, não estamos livres dos amigos que acham “nada a ver” postar este material e compartilhar com o mundo. E se um belo dia você resolve sair de casa com a camisa dos Menudos para passear com seu poodle, mas trabalha em uma loja especializada em Heavy Metal que está montando uma mega campanha para o retorno do Napalm Death?

A problemática vai mais longe quando ele marca você nas fotos e ela está com registro de horário e localização global (GPS). Como diriam meus amigos de Sampa: “Casa caiu, Manolo!”.

Um simples happy hour com os amigos depois do trabalho ou do climbing pode virar o inferno na pedra se as fotos forem para rede antes de você avisar a patroa que está no grampo zero tomando uma. Mesmo que seja um guaraná natural, até explicar que focinho de porco não é tomada, sua roupa já foi jogada na rua junto com seu precioso álbum de figurinhas da Copa União de 87.

Compartilhe felicidade, mas tenha ciência do que está distribuindo na rede, uma vez na internet sempre na internet. A ideia de compartilhar fotos e opiniões é maravilhosa, mas você é o que posta, e nem sempre quem vai ler ou ver este post terá a mesma interpretação positiva que sua ideia inicial.

Ainda vamos errar muito até domar nossos impulsos e aprender a usar as redes sociais como ferramenta a nosso favor, é um exercício diário selecionar o bom e o ruim que será distribuído, mas com tempo e tropeçando chegamos lá.

Grande abraço a todos, força sempre e boas escaladas.
Atila Barros
 

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Sobre o autor

Atila Barros - Colunista

Atila Barros nasceu no Rio de Janeiro, e vive em Minas Gerais, cidade que adotou como sua casa. Escalador (Montanhista) há 12 anos, é apaixonado pelo esporte outdoor. Ele mantem o portal Rocha e Gelo (www.montanha.bio.br)

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